Fabuloso ressentimento

Com o tempo (séculos?...) é possível que o ex-colonizado possa integrar, como «felix culpa», aquilo mesmo que o traumatizou, mas é absurdo e contraproducente supor que a estrutura de ressentimento por ele criada se desfaça da noite colonial para o dia africano. Essa será a história própria e imprevisível do ex-colonizado. A nossa, de ex-colonizadores que não conseguem, no fundo, admitir que o tivessem sido nos termos em que os colonizados no-lo propõem, é a de compreender que o fabuloso ressentimento, de que fomos causadores como povo, é uma ferida de longa supuração, para a qual e por longo tempo, só nós, em particular, não temos bálsamo, pois é de nós que estão feridos. 
«Requiem» por um império que nunca existiu», texto escrito em 1974, em:

Lourenço, Eduardo (2014), Do colonialismo como nosso impensado. Organização e prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Lisboa: Gradiva.





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