Da mundanidade bíblica

George Steiner, 'Um Prefácio à Bíblia Hebraica', Paixão Intacta (1996)
'O Antigo Testamento e o Novo são acumulações de mitos, fábulas, lendas, códigos legislativos, tratados morais, escritos eróticos, litúrgicos e rituais, crónicas históricas com intentos políticos e sagas tipológicas alinhavadas umas às outras, mais ou menos contingentemente, no decurso de longos séculos em cenários sócio-étnicos completamente diferentes e por uma multidão de mãos. Essa montagem abunda em disparates, autocontradições, barbaridades arcaicas, repetições, desigualdades de talento discursivo-espiritual, de molde a tomar a mera noção de autoria divina e de harmonia completamente ridículas. Homens e mulheres — alguns, sem dúvida, de rara visão moral e habilidade literária — produziram estes textos diversos de maneiras perfeitamente natural e, por consequência, inteiramente comparáveis com os de outros grandes pensadores, poetas, historiadores e legisladores, em numerosas culturas e épocas. Podemos estar a olhar para material cuja data e proveniência permanecem sem solução. Mas trata-se de material mundano, no sentido exacto da palavra. E inteiramente do nosso mundo, e da nossa imaginação e composição.'
Passagem prodigiosa de Steiner sobre a Bíblia. O reconhecimento da mundanidade da Bíblia (ou de outros livros sagrados) não carrega o ímpeto de desqualificação da fé, mas da arbitrariedade dos poderes erigidos sobre a 'palavra de Deus'.



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