They were glorious

"Então pela primeira vez nesta campanha, orgulhei-me dos homens que tinham matado os meus irmãos." Borges


Noruega: terrorismo, egomania e ideologia

Contados os mortos e apreendida a dimensão do horrífico desastre que assolou a Noruega, seria inevitável que o atentado cometido por Anders Behring se oferecesse a interpretações sobre as suas implicações políticas. De facto, a atrocidade cometida por um partidário de valores xenófobos à luz de uma versão do fundamentalismo cristão - a que terá juntado a egomania que normalmente falhamos em reconhecer nos fundamentalistas islâmicos - desestabiliza profundamente os disrcursos que, sob a bandeira do combate ao terrorismo, solidificaram a ideia do terrorismo como o mal absoluto do nosso tempo (o sucessor do Holocausto como o mal cuja vileza, escala e visibilidade matiza os demais). E, na verdade, após o 11 de Setembro, a ideia de mal absoluto sedimentou-se na co-implicação forjada entre morte de inocentes como significante político e o fundamentalismo islâmico comprometido com a Jihad.

Demoraremos a perceber que não há mal absoluto, mas muitas formas de perfídia que coexistem em cada tempo, atentados à vida e dignidade humana que serão registados pela nossa história social em função da escala e da espectacularidade do evento, da proximidade vivida e da proximidade engendrada pelos média. Depende, também, do medo que ganhamos às raízes do ódio na sua origem, naturalmente esquecemos mais facilmente um acto individual de loucura do que aquele que nasce de um ódio cultural que se partilha e reproduz - e nisto o "nunca mais" em relação ao Holocausto foi também o horror ao anti-semitismo, o medo aos ímpetos totalitários de refundação radical próprios da modernidade, e a desconfiança perante a cientificidade racista das ciências eugénicas.

Mas, e aqui queria chegar, por muito que os acontecimentos da Noruega cubram de justo ridículo as leituras simplistas sobre o mal e sobre o terrorismo, produzidas por tantos cruzados do bem (laicos e cristãos) investidos em consagrar a jihad islâmica como a natural extensão de um credo particularmente afeito à violência, convém denunciar como patética a excitação de quem mal esconde o júbilo por ver na morte de 94 pessoas um argumento político. Quem não tem tempo para a consternação por indomável júbilo ideológico reduz a ideologia a uma egomania apostada no vício retórico.

Avulsos

Ilsa: How nice, you remembered. But of course, that was the day the Germans marched into Paris.
Rick: Not an easy day to forget.
Ilsa: No.
Rick: I remember every detail. The Germans wore gray, you wore blue.

25

Incitado pelo exercício do Sérgio Lavos, decidi-me a tentar coligir os meus 25 filmes de eleição no IMDB. É um labor doloroso que nos compromete mais do que gostaríamos não obstante as mil ressalvas que tentemos amanhar. Ainda assim  aqui vão umas tantas: trata-se de uma lista provisória feita de um fôlego, pejada de desmemórias, e sob restrições auto-impostas (como a repetição de realizadores). A ordem é aleatória. Se fosse noutro dia estaria diferente e amanhã vou-me lembrar de omissões imperdoáveis, vou arrefecer anelos passionais. Posto isto, deixemo-nos de merdices, aqui vai: IMDb: 25 Best - a list by Bruno Sena Martins.

 

 

 


Avulsos


Another change that’s swept through the charts since 1980 is the steady disappearance of white men. In 1980, more than half the artists at No. 1 were white men; in 2010, the only white guy in the top spot was Eminem. Today’s pop world is female, African-American, and Latino, dance-pop and hip-hop and R&B. The audiences it’s usually associated with are female, African-American, Latin, gay, and young. And the music running through the charts is filled with qualities that look a lot like the aspirations and survival strategies of people who’ve felt marginalized—people for whom ego and self-worth can be existential issues, not just matters of etiquette. This isn’t some arcane sociological observation; empowerment is a selling point of the music itself. In defense of pop", Nitsuh Abebe.

Estatuto do Bailarino

Recente crónica de Augusto Manuel Seabra faz referência ao "Estatuto do Bailarino". A expressão é demasiado boa para ser deixada ao cuidado de juristas.

Žižek e o desastre eleitoral do BE

Pouco tenho a acrescentar ao óbvio: cometeram-se erros relativamente graves no período pré-eleitoral, cometeu-se um erro muito grave em prefigurar a esquerda grande em torno de Manuel Alegre. A meu ver não era o momento nem a pessoa. No entanto, não acho que o mau resultado do Bloco decorra grandemente de sucessivas decisões erradas - mais pareceram exercícios de auto-sabotagem. A situação estrutural criada pela discurso dominante da austeridade configurou, a mer ver, um quadro que fazia adivinhar a catástrofe eleitoral. Nesse sentido, acho que o Rui Tavares tem pouca razão quando afirma:
"Se outrora me tivessem dito que, um dia, em 2011, Portugal iria a votos com o FMI instalado no país, a convite do PS, numa total reviravolta do Primeiro-ministro, eu responderia “grande resultado para o Bloco”. O mesmo diriam os dirigentes do Bloco que, valha a verdade, fizeram uma boa campanha, acertando em cheio no tema principal da renegociação."
O elemento que Rui Tavares desconsidera é o avassolador sentimento de inevitabilidade que se criou em torno da austeridade. Esta hegemonia, fortemente forjada pelos media, pela esmagadora maioria dos economistas com presença na opinião pública, pela obediente política indígena do arco do poder, fez com que a ideia da renegoaciação da dívida chegasse à data das eleições enquanto um devaneio escapista de uns tantos lunáticos. Num momento de singular clarividência, Slavoj Žižek explica o paradoxo que a crise pode impor à esquerda:

"Qualquer expectativa de esquerda ingénua que conceba a crise como abrindo necessariamente mais espaço à esquerda radical é, por isso e sem dúvida, perigosamente curta de vistas. O efeito primário imediato da crise não será o reforço de uma política da emancipação radical, mas antes o do populismo racista, novas guerras, maior pobreza nos países mais pobres do Terceiro Mundo, bem como maiores divisões entre os ricos e os pobres em todas as sociedades actuais. Embora as crises arranquem as pessoas à sua complacência, forçando-as a interrogar os aspectos fundamentais das suas vidas, a primeira reacção mais espontânea é o pânico, e o pânico conduz a um regresso «aos primeiros princípios»: as premissas fundamentais da ideologia dominante, longe de serem postas em dúvida, são reafirmadas ainda mais violentamente (Da Tragédia Farsa, p. 26, 27)." 
No demais, concordo com uma avaliação dos erros do BE e dos seus fautores e concordo com a necessidade de uma renovação (serena). Mas, retomando as palavras de Žižek, creio que nenhum processo de reflexão deve partir de uma confiança excessiva nas veleidades da esquerda para afirmar um novo projecto de sociedade em tempos de crise. É da matriz do voluntarismo excessivo acreditar que os nossos erros e virtudes tudo podem.

Antonio e Giovanna


I Girasoli, Vittorio De Sica, 1970

Anos após ser dado como morto em combate, Antonio regressa enfim à soleira da porta de Giovanna. Depois de tanto penar em buscas, e apesar de esperar secretamente pelo seu "Anto", Giovanna não tem como largar destino lenitivo que entretanto forjou.

Diríamos ser proverbial a inclemência do tempo que com farsas pune os desarranjos da guerra. Mas as coisas são como são: quem a dado momento julga que não volta, hesitando o suficiente para se experimentar noutra vida, não volta - ainda que ressurja em espectro, pleno de arrojo. Não é pelo tempo, magnânimo tantas das vezes, mas pelo desastre imposto por certezas tentadas a milhas da mesa dos começos; quem acredita que pode viver noutra língua (António/Mastroiani) esbanja o doloroso prodígio do luto inconsumado (Giovanna/Sofia Loren).