Reykjavik em 2 actos


Reykjavik, 29-05-2011.

Notas islandesas

Por muito que os corpos se adaptem ao clima, sobretudo os corpos aclimatizados ao longo de gerações, os nativos de condições metereológicas extremas sofrem pouco menos do que os visitantes de circunstância. O que aparta uns e outros, no essencial, é a arte da premeditação: a premeditação com que os acostumados preparam o embate, a premeditação com que o escolhem e, sobretudo, a premeditação informada com que prefiguram a dureza do embate a partir da experiência. No calor dos trópicos como no frio glaciar, somos surpreendidos pela partilha com os locais de um desconforto que julgaríamos marcar as fronteiras na nossa exterioridade. Na verdade essa exterioridade só existe na dúvida: a dúvida do visitante acerca daquilo que pode aguentar, a certeza do nativo de que já passou por isto. A assertividade é uma adaptação a condições adversas. Assim, o homem resoluto e o homem razoável distinguem-se pelo modo como digerem as intempéries do passado: o homem resoluto é um ser disponível para a morte, conquanto lhe conhece as fronteiras, o homem razoável desconfia da razoabilidade de estar vivo.


A peste negra e a grande mudança vocálica

A surpreendente velocidade e a causa exata da mudança continuam sendo mistérios em na linguística e na história cultural, mas algumas teorias atribuem a causa à imigração maciça para o sudeste da Inglaterra após a Peste Negra, onde a diferença de sotaques levou determinados grupos a modificarem sua fala de modo a permitir uma pronúncia padronizada dos sons vocálicos. Os dialetos diferentes e a ascensão de uma classe média padronizada em Londres levou a mudanças na pronúncia, que continuaram a se espalhar a partir dessa cidade.

Terminal 1

Trouxe o saco de cama e o Guronsan para o caso de ficar retido em Londres a caminho da Islândia (tenho para mim que o galopante decréscimo de virgens para sacrificar estará na origem das erupções recentes).

Liga Europa

Publicado na Liga Aleixo



Quando Mourinho substitui Octávio Machado no cargo de treinador do Porto para, duas taças europeias depois, passar o testemunho a Del Neri, tivemos que nos resignar a acreditar no papel salvífico do Special One.

Que teria sido impossível uma equipa portuguesa chegar a uma final sem o seu génio, que teria sido impossível marcar golos com o Postiga em campo, que teria sido impossível tirar quilos ao Nuno Valente. Acreditámos no homem providencial, aquele sem o qual estaríamos condenados a viver contra Viena, contra uma única lembrança, contra aquela noite parada (pausa para arrepio). Julgávamos ter ficado a dever a Mourinho o absurdo de ripostar aos rigores da economia, aquela que condenou os países periféricos a exportar os seus melhores aos 18, a aceitar o regresso de jogadores em pré-reforma, a arriscar pontes aéreas com empresários da América latina.

Sendo de ressalvar que uma Liga Europa não é uma Champions, a presença de duas equipas portugueses numa final europeia 7 anos depois de Gelsenkirchen é um sério aviso à tentação deificante, por muito que devamos incensar Pinto da Costa, Villas-Boas ou Falcão. Na minha opinião devíamos estar mais ocupados em agradecer as muitas variáveis que nos concederam a graça do Portismo: ancestralidade familiar no Norte, ausência de um pai castigador que nos tivesse massificado enquanto benfiquistas, sensibilidade lírica para golos de calcanhar, tenacidade perante o desastre, resistência ao exílio, uma adolescência passada com o Poster do Fernando Couto no quarto, amor aos clássicos. Não sei a que sortilégio agradecer a filiação na causa portista, sei que “ao destino agradam as repetições, as variantes, as simetrias”, não vou dizer que para o ano ganhamos Champions, mas (como dizia o semi-deus) penso.

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E agora, Domingos?


Bin Laden

Festejar a morte de Bin Laden como se de uma vitória no Super Bowl se tratasse perpetua o Carnaval do ódio trivializando a vingança enquanto hipótese de justiça.