Da Luz com amor

JOSÉ SENA GOULÃO

Publicado na Liga Aleixo

 

Chegou o dia de ser sincero: depois da derrota no Dragão por não estava à espera de voltar a pôr os olhos no Jamor este ano. A minha estratégia nos dias anteriores à contenda saldou-se pela cobardia do “eles que fiquem com a fruteira”, “não estou interessado em disputar taças na catedral do fascismo”, “o Jorge Jesus é uma boa pessoa”. Enfim, tentei enganar-me com todos os artifícios e mentiras que me permitissem confrontar com a dificuldade de virar uma desvantagem de dois golos. Sejamos claros, a única forma de o Porto se classificar passava por marcar 3 golos na Luz com o Roberto no banco.

 

Valeu-nos a exorbitante confiança de uma equipa que tem em João Moutinho o seu capitão moral. A certa altura, a cada recuperação de bola eu dava por mim a entornar a cerveja estupefacto com a capacidade do pequenitates para se interpor no curso normal dos passes falhados pelo Jardel. Digamos apenas que o sofá do Aleixo ficou pejado de Sagres. Mas valeu-nos também a crise de identidade de Jorge Jesus. Jorge Jesus não consegue alimentar a raiva dos jogadores dele contra o Porto por uma razão: ele não consegue ter raiva ao Porto. Convenhamos que não é fácil ter raiva a um clube que — no maior acto de sabotagem da história do futebol — ofereceu 4 milhões de euros pelos seus serviços. No fundo, é como uma mulher manter-se fiel ao seu marido rezingão depois de receber um telefonema do Jude Law para beber um martini na Riviera. Pinto da Costa minou o Benfica pelo “amor em euros” que mostrou a Jorge Jesus (se não estou em erro 4 milhões seria a maior transferência de um treinador da história do futebol). Depois disso bem podia o Rui Gomes da Silva — o hooligan de segunda à noite — debitar ódio semanal, bem podia o Filipe Vieira incensar a vingança do Benfica contra o Benquerença, contra o Guimarães e contra as galáxias pode descobrir. Jorge Jesus não pode tomar parte desse ódio na mesma medida em que nós, narcisicamente, não conseguimos dizer mal de alguém que nos elogia a nosso spaghetti alla carbonara feito com arroz basmati.

 

Mas além do dilema afectivo que Pinto da Costa semeou no empedernido coração de Jesus, há um dilema mais prosaico, um dilema táctico. Jorge Jesus montou a equipa para massacrar com um futebol de "ataque diabólico". Acontece que por questões que se prendem com a resistência do corpo humano ou com a eventual gestão de um resultado favorável, há alturas em que o melhor é abrandar ritmos, gerir energias e, vamos dizê-lo, jogar à defesa. Ora, o plantel do Benfica deve ser o único do mundo que só tem um meio campista de qualidade que sabe defender, chama-se Javi Garcia (pelas razões óbvias não falarei do Airton). Querem uma amostra de meio-campistas que permitem atacar e gerir um resultado: João Moutinho, Belhushi, Fernando, Guarin, Souza. A isto, meus senhores, chama-se um plantel.

 

Portanto, ao contrário do que vai fazendo doutrina, Jorge Jesus não perdeu o jogo por ter jogado à defesa, coisa que não sabe nem se preparou para fazer. Jorge Jesus perdeu o jogo porque, à falta dos argentinos das extremas, abdicou de atacar, isto é, porque abdicou de jogar — facto que fica comprovado pela presença de Aimar no banco ao longo de pacientes 70 minutos. Desde as vitórias nos jogos sem fronteiras em San Marino que não me lembro de ganhar tanto no mesmo sítio. O Estádio da Luz é a prova de que devemos voltar sempre aos lugares onde fomos felizes.

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aemulatio

Lara recorria ao dicionário para exprimir sentimentos. O domínio das línguas mortas nunca foi o seu forte.

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"Something that I can Ignore"

High Fidelity, 2000, Stephen Frears.

Brrruno, Brrruno, Brrruno [2:28]



Nunca achei grande piada ao meu nome. Mas o minuto 2:28 deste vídeo obriga-me a rever preceitos ancestrais.

Cheers, J.

O Título de Villas-Boas



Publicado na Liga Aleixo

Apesar de todos os indícios, posso assegurar que o Estádio da Luz não foi construído sob o mesmo conceito arquitectónico da Avenida dos Aliados. Aliás, há diferenças óbvias entre a concepção de um arruamento de 250 metros e a edificação de um parque de festas para entretém periódico dos jogadores do FCP. Acompanhei os festejos a meio caminho, à saída da portagem de Taveiro hesitei entre seguir A1 para Norte ou para Sul. Acabei por ficar na berma a ouvir as conferências de imprensa enquanto me decidia, entretanto fui apitando em jeito de festa até acordar com aquele silêncio da "solfagem" que se segue è morte da bateria. Antes disso, antes mesmo de ser vandalizado por uma multa por estacionamento indevido e pelos honorários o reboque, isto às 9 da manhã, ouvi as palavras que melhor captam a insigne ode ao título ontem conquistado.

Villas-Boas (V-B), assumindo-se como treinador adepto, o último de uma linhagem que remonta a António Oliveira, lembrava de como já tinha sido feliz no Estádio sa Luz. Com 20 anos V-B estava em Lisboa num estágio que aparentemente consistiria em acompanhar os treinos do Sporting. Como o fastio das noites da Pensão Alegria o torturasse, lá se decidiu a ir sozinho a ver um jogo da Supertaça ao velho estádio da luz. Não pôde festejar os 5 golos do Porto porque lá se lembrou que era muito novo para ser selvaticamente linchado (há experiências que devem ser saboreadas com outra maturidade). A história de Villas-Boas e do seu encontro primordial com Bobby Robson repõe a mitologia do amor à camisola entre os profissionais da bola (refiro-me aos agentes desportivos que não pelo conceito de Ricardo Costa). Só por isso, não poderia agradecer o suficiente a Villas-Boas por este título. Com este campeonato, Villas-Boas reuniu o velho futebol da paixão de bairro com o labor cosmopolita de quem, das Ilhas Virgens à Mata-Real, sabe mais de bola que muitos anciãos dados à bazófia.

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The Long, Hot Summer (1958)


O cinema francês deu-me a ver as primeiras mamas, os clássicos ensinam-me a compreender as mulheres. Há que ir por partes.