Uma má disposição, segundo alguns autores


Versões de um mesmo mito


High Fidelity, 2000, Stephen Frears.

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High Fidelity, 2000, Stephen Frears.

Futre: versão completa

Pinto da Costa: "Paulinho, o carro é muita bonito"




Conímbriga

Conheço as ruínas de Conímbriga há tanto tempo que me foram convencendo enquanto produtos de uma elegância primorosa nos acabamentos. Ao ver este vídeo percebo chocado que são mesmo ruínas: míseros restos de uma cidade acabada.


A esquiva (2003)



Sara Forestier em L'Esquive, 2003 (Abdellatif Kechiche)

O mal dos outros

Publicado na Liga Aleixo

 

Virada que foi a vaga aflição trazida pelo confronto com a Académica, e enquanto não é a hora de festejarmos o campeonato no túnel da luz, o portista carente de emoções futebolísticas não tem outro remédio senão virar-se para as eleições do Sporting (eu sei, eu sei). Há muito que aquele clube não conseguia cativar os meios de comunicação social além das rádios regionais e das tardes em que a redacção da “Bola Branca” se apanha com falta de assunto e, acto contínuo, telefona ao filho de um dos 5 violinos para um pizzicato de nostalgia.

 

Enquanto José Eduardo Bettencourt faz repousar todas as suas possibilidades de redenção na hipótese de Sinama Pongolle mostrar no Saragoça que afinal não é inferior ao Rodrigo Tiui, os 5 candidatos do Sporting fazem repousar todas as hipóteses de prosperidade futura em mostrar que não são tão maus como Godinho Lopes. Godinho Lopes é o que tem mostrado mais dificuldade em distanciar-se da sua existência enquanto pessoa anódina: as tentativas de produzir um camuflado com Luís Duque, Carlos Freitas e Domingos embatem com gravidade no brilho da sua insignificância. Ainda assim o mais surpreendente é a dificuldade dos outros candidatos para serem incrivelmente melhores do que Godinho Lopes: não são.

 

Dias Ferreira nesta contenda tem momentos em que parece ser uma pessoa a quem poderíamos entregar o cão para que o passeasse uns 15 minutos, não é: o mais acertado será levar o cão directamente para o matadouro municipal. Abrantes Mendes, irmão gémeo de Defensor de Moura em quem votei nas últimas eleições, conseguiu ganhar um debate; por deus quando um homem daqueles ganha um debate a hipótese de entregar o Sporting a um ditador sul-americano dos anos 70 na reforma deve ser seriamente ponderada. A bitola posta nestas eleições cria a ilusão que Pedro Baltazar é um pouco melhor que o rei Jorge VI recentemente representado por Colin Firth, não é. Enquanto o rei Jorge VI se entaramelava porque o aparelho vocal tinha dificuldade em acompanhar o tempo discursivo do seu pensamento, Pedro Baltazar (um homem bonito que passou ao lado de uma carreira como modelo de relógios caros) desacelera a fala para que lentidão do seu pensamento tenha uma qualquer banda sonora.

 

Já Bruno de Carvalho no meio daquela salsa parece ser o Martin Luther King dos tempos modernos, não é. Além de uma boa voz e de uma assertividade que parece fazer medo aos demais contendentes, em condições normais Bruno de Carvalho teria poucas hipóteses de ganhar as eleições da União de Coimbra nem que o Mandatário fosse o Abramovich (de notal que a União de Coimbra, tal como o Sporting, há anos que não tem futebol sénior). Mas nada disto é normal e o Sportinguistas devem ter a inteligência de escolher o Martin Luther King de trazer por casa: uma voz grossa e uns russos com dinheiro a sobrar é mais do que qualquer um dos outros candidatos tem para oferecer.

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Andy Carroll's transfer fee


Elizabeth Taylor 1932-2011


Escolher as guerras

Nem todas as lutas que merecem a pena, mas há lutas que merecem a pena. Julgar da necessidade de uma intervenção militar exige critério, exige uma noção prospectiva da geografia do ressentimento, exige uma noção do quanto a mínima guerra perdura nas gerações deixando dolorosíssimas marcas. Há que saber e julgar a caso o que se perde por nada fazer, há que saber julgar a caso que perigos se correm no voluntarismo intervencionista. É um pouco mais complicado do que querer espalhar a democracia à bomba a la Bush, é um pouco mais complicado do que denunciar imperialismo em cada decisão de intervenção.

 

Podemos perguntar porque é que o mundo assistiu calado aos massacres de Gaza, podemos questionar dos interesses que sempre movem as potências beligerantes, podemos julgar a hipocrisia dos amigos de outrora. Mas erramos se julgamos que há sempre respostas prévias, erramos se julgamos os actos apenas por quem os pratica, erramos se julgamos ter todas as respostas nalguma cartilha. Por exemplo, Churchill, um renomado defensor do tirano império britânico, imperialista à antiga, escolheu uma guerra certa na sua determinação contra o III Reich. Exercitar a dúvida e procurar critério para além dos nossos preconceitos é uma exigência da razoabilidade não egoísta. Sobre a Líbia sinceramente não sei o suficiente para ter certezas, por agora parece que a ameaça da força  surtiu um efeito dissuasor.

 

Mas sei que Churchill tinha razão quando fez este discurso:

 

 "We shall fight on the beaches" (audio)


Da preguiça

A preguiça e o comodismo fizeram de mim uma pessoa serena. Ser irritadiço e belicoso cansa muitíssimo.

Jovens determinados e desprendidos

 

Por aquilo que tantos ex-combatentes foram obrigados a sofrer sob os caprichos da ditadura, pela absurda defesa da Guerra Colonial como uma missão patriótica tanto tempo depois do 25 de Abril, é absolutamente incompreensível que este "apelo" de Cavaco Silva tenha passado incólume nos telejornais. Seria absolutamente incompreensível que nenhum actor político relevante visse nestas declarações razão suficiente para a demissão de Cavaco.  


Avenida da Liberdade

"Subamos e desçamos a Avenida,
Enquanto esperamos por uma outra
(ou pela outra) vida."
Avenida da Liberdade, Alexandre O'Neill

Rajada de Vento



"Ora, um excêntrico, na maioria dos casos, é um caso particular e isolado. Não é verdade? (..) Não só um excêntrico "nem sempre" e um caso particular e isolado, mas, pelo contrário, acontece às vezes ser precisamente ele que transporta em si o cerne do comum, enquanto o resto das pessoas da sua época, por qualquer razão, foram arrancadas dele temporariamente, todas elas, por uma rajada de vento qualquer..." Fiódor Dostoiévski, Os irmãos Karamázov

A procissão dos cínicos tem-se afadigado em nos mostrar o absurdo das pretensões que movem o protesto da geração à rasca. Lembram-nos que o tempo dos garantismos acabou. Asseguram que os garantismos do passado semearam a precariedade do presente (esquecem-se que, bem ao contrário, que são as conquistas dos proletários precários das gerações passadas que inspiram a geração jovem do presente). Assumem inevitável que Portugal seja o país mais desigual da Europa. Explicam-nos que em tempos de competitividade global trabalho com segurança e direitos é um sonho anacrónico. Asseguram que a desregulação económica veio para ficar.

Excentricidade, pelos vistos, é achar que nenhuma economia, por muito fluida que seja, pode dispensar trabalhadores. Excentricidade, pelos vistos, é achar que esses trabalhadores têm direito a um projecto de vida que passe pela segurança do trabalho remunerado. Excentricidade, pelos vistos, é achar que os precários deixam de ser descartáveis quando se unirem para perceber que são imprescindíveis. Excentricidade, pelos vistos, é achar que podemos ter uma vida digna enquanto houver no mundo gente demasiado desesperada a ponto de perceber a exploração como dádiva capitalista. Excentricidade, pelos vistos, é achar que o desemprego dos mais velhos, que a exploração do trabalho não qualificado, que as reformas míseras são tão indignos como a vala comum em que caem muitos jovens licenciados. Excentricidade, pelos vistos, é querer mudar um estado de coisas que todos nos dizem inevitável e produto dos insondáveis desígnios do mercado.

Talvez, como diria Dostoiévski, que uma portentosa rajada de vento tenha mudado as coisas do lugar fazendo do bom senso uma excentricidade, talvez que o absurdo esteja no capitalismo especulativo das crises, nas empresas nacionais cujos lucros astronómicos não as impedem de fazer os trabalhadores dos seus call centers viverem em permanente tortura psicológica, talvez que o absurdo esteja no desejo de querer sair de casa dos pais, em ter um filho antes da meia-idade. Por muito que agiotem o contrário, o "cerne do comum" está na geração à rasca, e quando as coisas estão fora do sítio, dizia o inglês, nada como desejar ter nascido para as pôr no lugar.

Publicado no Aparelho de Estado

O Balanço Possível

Publicado na Liga Aleixo
Como diria o poeta, estava escrito nas estrelas que o porto se sagraria campeão. Pessoalmente, enquanto não vi o James a desembaraçar o redil montado pelo Guimarães não consegui abrir a garrafa de Champagne. Quando acordei disseram-me que tinha acontecido um jogo em Braga. Já ressacado, fui obrigado a abrir outra garrafa de Champagne em honra de Mossoró. Parei de beber há umas horas e estou susceptível a fazer balanços sobre o tempo que passou aos comandos de Villas-Boas.No fundo, como diria o poeta, quero ressalvar as estrelas que foram escrevendo este título.
Maior mérito: continuidade táctica com o legado de Jesualdo. A manutenção de um 4-3-3 permitiu que o Porto enfrentasse a super-taça e iniciasse o campeonato sem problemas de identidade de jogo. Convém no entanto assinalar algumas nuances introduzidas por AVB: maior especialização do trio ofensivo com a sistemática colocação de Hulk à direita; menor rigidez no meio campo - muito devida à capacidade de Moutinho para compensar Fernando e à dimensão atlética adquirida por Belluschi; assunção de uma assimetria na defesa com a colocação de um lateral ofensivo na esquerda e de um lateral mais conservador na direita (resta saber se esta opção foi táctica ou se resultou das crises existenciais de Fucile no início da época). Jogadores fundamentais: Hulk, Moutinho e Falcão. Ia incluir Álvaro Pereira neste grupo mas creio o uruguaio é mais insubstituível do que fundamental. A juntar a estes três fundamentais cabe registar a solidez de outros dois: Rolando e James. Pessoas que não sabem jogar mal e que lidam bem com um regime de expectativas que lhes pede a máxima eficácia com a maior discrição possível. Transpiram serenidade e alicerçam emocionalmente o grupo.
Momentos a registar para posteridade: as conferências de imprensa do miúdo; a senda goleadora de Hulk.

Momentos a rever: a incapacidade do meio campo para gizar desequilíbrios dentro do 4-3-3- aquando das noites mais desisnpiradas de Belluschi (a alternativa tem sido sempre a mudança táctica)
Pior momento: o modo como o grupo a certa altura ressentiu as loas que se foram tecendo à qualidade superior do futebol do Benfica. Felizmente os trabalhos forçados que Jesus sujeitou os argentinos de pequeno porte a bem da nota artística ficaram patentes em Braga: Gaintan (jogou 20 minutos), Saviola (foi substituído), Aimar (ficou a ver o jogo na Sporttv), Salvio (ficou a ouvir o relato no TVG para Madrid).

 Nesta jornada o espectro de um campeão com pior futebol do que o Benfica foi exorcizado. O massacre de Jesus aos músculos dos seus argentinos poderá levá-lo a sentar-se no banco do Tribunal Penal Internacional antes do fim da época. Acusação: morte artística. 

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O Diderot da culpa

Chamem-me o Diderot da culpa (até no erro somos megalómanos). Vou desenvolver uma enciclopédia a partir da seguinte questão. Eu seria uma pessoa melhor se.

Avulsos

"Contra os revisionistas, [Rosa Luxemburgo] mostra bem que, se esperarmos pelo «momento oportuno» para desencadear uma revolução, esse momento nunca chegará — é preciso arriscar e ousar tentativas revolucionárias, pois só através de uma sucessão de tentativas «prematuras» (e, portanto, de fracassos) é que se encontram reunidas as condições (subjectivas) para criar o «momento oportuno»." 
 Žižek, Slavoj, 2006, A Marioneta e o Anão: o Cristiansmo entre Perversão e Subversão, Lisboa: Relógio D'Água.


Serviço Público

Ver aqui o Programa Câmara Clara de 27 de Fevereiro: "50 anos depois do início da Guerra Colonial".

James Rodriguez, o n.º 10

Publicado na Liga Aleixo

 

 

Raramente me debruço nos meandros da táctica fundado na ingénua noção de que a socialização do futebol implica um diálogo com realidades que lhe são exteriores: a poesia, o bailado, os dirigentes do Sporting. Mas a verdade é que dou por mim demasiadas vezes a assistir interressado aos movimentos auto-referenciais de um idioma que me é desconhecido – no caso um canal de jardinagem búlgaro da Tvcabo –, tanto que tenho dificuldade em compreender que as pessoas dotadas de corpos se recusem imergir no mundo intrincado das basculações tangentes à circulação do médio interior. Sejamos francos, como dizem estes, ou como dizia o bom do Merleau-Ponty, o facto de vivermos através de corpos, querendo ou não, estabelece uma comunalidade no modo como encaramos o fenómeno da vida: todos ficamos esventrados ao assistir à lesão do Emídio Rafael, consternados com o penteado do Fábio Coentrão, deliciados a ver o James Rodriguez a jogar a 10, divertidos com a a candidatura de Dias Ferreira. O facto, meus caros, é que o Porto tem um problema. Chama-se James Rodriguez e até ao passado sábado era apenas um puto de 19 anos que actuava na ala com a maturidade e com a apetência para repentismos de um Figo aos 37 anos.


 Se no caso do Figo o maduro estava na inteligência para esconder que os arranques o começaram abandonar quando abandonou a Catalunha, já no caso de James cruzam-se dois factos que nada devem à extrema sabedoria do anti-herói da selecção portuguesa – o jogador que muitos sportinguistas viam (gargalhada) a acabar a carreira no Sporting por amor ao clube (não há pequenos almoços grátis e assim). Mas voltemos ao James. Primeiro facto: o homem é precoce nas artes de não errar e dentro daquela serenidade toda – aquilo que em cima chamámos maturidade - existe o bem escondido pânico de perder uma bola. É como uma pessoa tímida que cumprimenta pro-activamente toda a gente quando chega ao café para ter completo domínio sobre um quadro de interacções cuja vida própria a ameaça.

 

Assim, deslocado para uma ala James não é um extremo desequilibrador clássico, longe de primar pelas perfídias do 1 para 1, James desequilibra pelo modo como mantém a circulação de bola em zonas do campo tradicionalmente associadas ao labor especialista do drible para a linha. Em segundo lugar, em inteira articulação com o imperativo de ajudar a equipa a ter mais de 60% de posse bola, vem aquilo que constatámos no sábado com a mudança táctica operada por Villas-Boas: James é um número 10 e toda a sua experiência junto à linha é uma tematização coreografada da experiência do exílio. Qual judeu ortodoxo de longas barbas a passear-se pelo Marais entre esplanadas pejadas de gays musculados, James comporta-se a extremo com os rituais originais de um distribuidor de jogo. Sendo com 19 anos melhor extremo do que muitos virtuosos da finta, o jogo de James vai exigir a prazo uma equipa que lhe dê o vértice avançado do losango.

 

Jesualdo abdicou temporariamente do 4-3-3 por Anderson, Villas-Boas já percebeu que a definição táctica do futuro do Porto passa assunção de James a 10. Mais do que um 10 fora do sítio, James é um 10 porque que aprendeu a comunicar com o mundo num corpo deslocado do seu espaço de conforto.

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