Noruega: terrorismo, egomania e ideologia

Contados os mortos e apreendida a dimensão do horrífico desastre que assolou a Noruega, seria inevitável que o atentado cometido por Anders Behring se oferecesse a interpretações sobre as suas implicações políticas. De facto, a atrocidade cometida por um partidário de valores xenófobos à luz de uma versão do fundamentalismo cristão - a que terá juntado a egomania que normalmente falhamos em reconhecer nos fundamentalistas islâmicos - desestabiliza profundamente os disrcursos que, sob a bandeira do combate ao terrorismo, solidificaram a ideia do terrorismo como o mal absoluto do nosso tempo (o sucessor do Holocausto como o mal cuja vileza, escala e visibilidade matiza os demais). E, na verdade, após o 11 de Setembro, a ideia de mal absoluto sedimentou-se na co-implicação forjada entre morte de inocentes como significante político e o fundamentalismo islâmico comprometido com a Jihad.

Demoraremos a perceber que não há mal absoluto, mas muitas formas de perfídia que coexistem em cada tempo, atentados à vida e dignidade humana que serão registados pela nossa história social em função da escala e da espectacularidade do evento, da proximidade vivida e da proximidade engendrada pelos média. Depende, também, do medo que ganhamos às raízes do ódio na sua origem, naturalmente esquecemos mais facilmente um acto individual de loucura do que aquele que nasce de um ódio cultural que se partilha e reproduz - e nisto o "nunca mais" em relação ao Holocausto foi também o horror ao anti-semitismo, o medo aos ímpetos totalitários de refundação radical próprios da modernidade, e a desconfiança perante a cientificidade racista das ciências eugénicas.

Mas, e aqui queria chegar, por muito que os acontecimentos da Noruega cubram de justo ridículo as leituras simplistas sobre o mal e sobre o terrorismo, produzidas por tantos cruzados do bem (laicos e cristãos) investidos em consagrar a jihad islâmica como a natural extensão de um credo particularmente afeito à violência, convém denunciar como patética a excitação de quem mal esconde o júbilo por ver na morte de 94 pessoas um argumento político. Quem não tem tempo para a consternação por indomável júbilo ideológico reduz a ideologia a uma egomania apostada no vício retórico.

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