James Rodriguez, o n.º 10

Publicado na Liga Aleixo

 

 

Raramente me debruço nos meandros da táctica fundado na ingénua noção de que a socialização do futebol implica um diálogo com realidades que lhe são exteriores: a poesia, o bailado, os dirigentes do Sporting. Mas a verdade é que dou por mim demasiadas vezes a assistir interressado aos movimentos auto-referenciais de um idioma que me é desconhecido – no caso um canal de jardinagem búlgaro da Tvcabo –, tanto que tenho dificuldade em compreender que as pessoas dotadas de corpos se recusem imergir no mundo intrincado das basculações tangentes à circulação do médio interior. Sejamos francos, como dizem estes, ou como dizia o bom do Merleau-Ponty, o facto de vivermos através de corpos, querendo ou não, estabelece uma comunalidade no modo como encaramos o fenómeno da vida: todos ficamos esventrados ao assistir à lesão do Emídio Rafael, consternados com o penteado do Fábio Coentrão, deliciados a ver o James Rodriguez a jogar a 10, divertidos com a a candidatura de Dias Ferreira. O facto, meus caros, é que o Porto tem um problema. Chama-se James Rodriguez e até ao passado sábado era apenas um puto de 19 anos que actuava na ala com a maturidade e com a apetência para repentismos de um Figo aos 37 anos.


 Se no caso do Figo o maduro estava na inteligência para esconder que os arranques o começaram abandonar quando abandonou a Catalunha, já no caso de James cruzam-se dois factos que nada devem à extrema sabedoria do anti-herói da selecção portuguesa – o jogador que muitos sportinguistas viam (gargalhada) a acabar a carreira no Sporting por amor ao clube (não há pequenos almoços grátis e assim). Mas voltemos ao James. Primeiro facto: o homem é precoce nas artes de não errar e dentro daquela serenidade toda – aquilo que em cima chamámos maturidade - existe o bem escondido pânico de perder uma bola. É como uma pessoa tímida que cumprimenta pro-activamente toda a gente quando chega ao café para ter completo domínio sobre um quadro de interacções cuja vida própria a ameaça.

 

Assim, deslocado para uma ala James não é um extremo desequilibrador clássico, longe de primar pelas perfídias do 1 para 1, James desequilibra pelo modo como mantém a circulação de bola em zonas do campo tradicionalmente associadas ao labor especialista do drible para a linha. Em segundo lugar, em inteira articulação com o imperativo de ajudar a equipa a ter mais de 60% de posse bola, vem aquilo que constatámos no sábado com a mudança táctica operada por Villas-Boas: James é um número 10 e toda a sua experiência junto à linha é uma tematização coreografada da experiência do exílio. Qual judeu ortodoxo de longas barbas a passear-se pelo Marais entre esplanadas pejadas de gays musculados, James comporta-se a extremo com os rituais originais de um distribuidor de jogo. Sendo com 19 anos melhor extremo do que muitos virtuosos da finta, o jogo de James vai exigir a prazo uma equipa que lhe dê o vértice avançado do losango.

 

Jesualdo abdicou temporariamente do 4-3-3 por Anderson, Villas-Boas já percebeu que a definição táctica do futuro do Porto passa assunção de James a 10. Mais do que um 10 fora do sítio, James é um 10 porque que aprendeu a comunicar com o mundo num corpo deslocado do seu espaço de conforto.

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Bravo!
 
Diria mesmo mais, BRAVO!
 

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