rascunho guardado às 3:19

Qual pito? Bonito era eu adolescente curvado sobre o candeeiro a intentar um romance com a caneta obrigada a sulcos curva contra-curva naqueles papéis que a minha mãe trazia do serviço. Bonito era eu ficar com o anelar amolgado (sim, pego a caneta como nenhum outro trôpego) por aquelas BIC de que me vingava quando roía as tampas até sangrar a gengiva. Quando não calhava os lábios borrados de tinta por fazer pastilha da carga. E trincar o plástico já agora, até se partir. Bonito era eu querer dedicar poemas e não ter quem me pudesse desprezar com a verosimilhança de ensejo falhado, tão falhado era o ensejo de tentar. Bonito é também o cansaço, o tornear os poemas para não ter como ser dedicado, não ter como se iniciar artes de quem tudo sofre e suporta, falaciosas sem querer e mesmo querendo, já se sabe, tão acabado é o apelo da modorra, como resolução antecipada, como atalho narrativo, como restolho do que quis, como restolho do que não sabe merecer, como restolho de gente em modo de querer muito. Vejam lá para o que eu estava guardado.

Comments:
Em casos como este o botão a usar é "publicar mensagem" e não "guardar agora".
 

Enviar um comentário

Comentários



<< Home