Hulk, um Penalty do Renascimento

Publicado na Liga Aleixo



O penalty que deu a vitória ao Porto em Aveiro deu escusado brado. Na minha opinião, tamanha salganhada de equívocos, e que outro nome dar a Rui Gomes senão Equívoco Logo Existe, só pode acontecer porque a alma contemporânea se encontra alheada da contemplação dos clássicos. Um autor publica um livro e em vez de se tentar encostar às verdades universais que amanhou numas quantas tiradas de génio, logo se precipita em fazer um contrato com o editor a fim de uma sequela que lhe possa render mais mulherio e, em podendo, dinheiro e gajos.

Há jogadores que pensam o futebol jogado com tais requintes de materialismo que não param para apreciar uma finta. Tomemos como exemplo o túnel, epítome do gesto técnico que se basta. Quando fazemos um túnel ao adversário os níveis de altivez estética estão alcançados ainda que fôssemos a jogar em contra-mão na direcção da nossa própria baliza. A ineptidão dos realizadores de futebol para gravar os pequenos momentos de fantasia, e com eles de toda máquina dos resumos com Nuno Luz à cabeça, implica que só fiquem registados para a posterioridade as estéticas do golo. Toda a gente apupa o jogador que se dá ao desfrute de ficar a contemplar a própria finta, uns milissegundos que seja, apenas porque essa contemplação o poderá afastar da compulsão hodierna pelo golo (aquilo que noutro lugar, umas linhas acima, na verdade, gostaria de ter chamado, a hegemonia candente da estética do golo).

A passagem de Ronaldo de extremo fantasista a goleador, por exemplo, cavou um fosso para Messi nas cogitações sobre o exercício da arte. Por outro lado, a assombrosa capacidade de Ronaldo para afunilar as suas virtudes em favor da obtenção do golo (desde 2007-2008) tem-lhe garantido um lugar na luta pelo sublime, lugar que não merece enquanto virtuoso, mas que merece enquanto ser capaz de abdicar - abdica de momentos técnicos em favor de comparência semanal no resumo como o golinho da praxe, no fundo, largou a finta para se especializar no remate. Naquele lance ocorrido em Aveiro, Hulk, que anda pouco maçado por aparecer nos resumos só a fazer golos, quis gozar no ar uns instantes antes de retomar o contacto com a bola.

Ali estava ele no ar a contemplar a perdição de André Marques, quando é ceifado pelo pé de coice: penalty. Repetida a imagem mil vezes sabemos que é penalty, mas percebemos que algo está errado no momento que Hulk fica suspenso no ar. Nenhuma simulação, mas se me permitem, eu explico a disjunção cognitiva: não estamos habituados a ver um homem gozar uma finta enquanto objecto final do prazer, e ninguém percebe que isso leve um tempo. Foram-se os clássicos, e ninguém está cá para contemplações. Conta comigo, Hulk.

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Comments:
contratem este homem para "A Bola" que eu deixo de comprar o "Magazine Littéraire"!
 
Lóle, com esta lógica estás quase contratado para os programas de paineleiros (membro de um painel de comentadores), ao serviço do Fêquêpê.
 

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Comentários



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