Hulk, vê se escreves

Publicado na Liga Aleixo





O futebol de Hulk representa um assombro que o futebol português não merece e que o Porto nos oferece por manifesto excesso de generosidade. Tanta generosidade, aliás, está a ter como ingrato retorno sucessivas queixas entre os guarda-redes adversários, aparentemente, por dores de costas (nenhuma actividade tem tantas contra-indicações psico-somáticas como ir apanhar a bola ao fundo das redes). Lamentavelmente, a partida de Hulk para a Europa, aquela a salvo do FMI, está por meses; é minha convicção que o valor a resultar dessa venda será pouco importante se considerado o simbolismo histórico envolvido no previsível destino do Givanildo.

“Se a memória não me falha” é um preâmbulo bem-intencionado cujo uso se torna ridículo na minha idade. Se a memória não te falha jovem pouco molestado por ressacas de gin, pessoa de bem com pouco remorso a atrapalhar a limpeza da lembrança, feliz pouco traumatizado que não precisas de te atirar para baixo do sofá quando te acorrem as memorablias da adolescência, então os meus sinceros parabéns. Se a tua memória é parecida com a minha então deixa-te de presunções e vai à Wikipedia ou anda com post-its por perto como naquele filme do Christopher Nolan (O Cavaleiro do Memento, se me não falha tudo).

Mas, dizia, como pouco me permito a confiar na memória e na medida em que evito frequentar sites (como a wikipedia) por conselho do médico, estava de jurar que o Rui Barros foi o último avançado que o Porto vendeu a um clube de topo europeu (criança, a Juventus nos anos 80 era uma equipa de topo). Inúmeros avançados que nos encheram de alegrias e de dinheiro não lograram alcançar os píncaros da Europa: o Futre foi para o Atlético de Madrid, o Gomes foi para o Sporting de Gijon (lembrei-me desta sem usar a wikipedia, atenção), o Rui Águas foi para o Benfica, o Domingos foi para o Tenerife, o Sérgio Conceição foi para a Lazio, o Kostadinov foi para o Corunha, o Pena foi para o Braga, o Postiga foi para o Tottenha, o Yuran foi para o Spartak de Moscovo, o Drulovic foi para o Benfica, o Derlei foi para o Dínamo de Moscovo e nem o Jardel não foi mais longe que o Galatasaray.

Dir-me-ão que estou mirabolante, que o Deco foi para o Barcelona e que o Anderson para o Manchester. É nessa altura que eu vos lembro da diferença conceptual entre médio ofensivo e avançado, aliás uma diferença bem mais definida do que aquela que separa o médio ala do extremo, ou a heterotopia do Coimbra Fórum. Mais: as posições que os dois desempenharam nos clube de destino são claros indicadores que eles sequer foram comprados para aparecer muito na área adversária: o Anderson encaixou naquela posição do duplo pivot onde militam Hargreaves, scholes, Fletcher ou Carrick (na luta de classes estariam do lado dos bons); o Deco foi servir de ajudante ao Ronaldinho. E escusam de me vir com o Quaresma: na altura em que foi vendido a última vez que o Inter tinha ganho a Champions ainda o Heidegger tinha uma vida sexual moderadamente activa com a Hannah Arendt.

Portanto, se tudo correr mal, o Hulk será o primeiro avançado em muito tempo que o Porto vende a um clube de topo europeu; se tudo correr mal, ficará no Dragão até o ocaso da velocidade o converter numa estátua. Naturalmente, desejo o pior.

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Modalidades da beleza

A melancolia maternal:


Paz Vega (em Spanglish).

Unendurable



Sunset Blvd., Billy Wilder, 1950.

Avulsos

"(...) pelo que só finge bem quem já teve dos verdadeiros." Vieira do Mar

Victor Baptista e o interesse público

Ao contrário do que muitos pensam, defender o bem público não é achar que o sector privado é a encarnação do demo nem que o Estado é a mãe de todas as virtudes. Defender o bem público é considerar que o bem público deve estar ao serviço do interesse público e não de interesses particulares. Esses interesses particulares podem ser vários e não se prendem sempre com os malefícios do  grande capital - embora aconteça frequentemente.

Por exemplo, quando as parcerias público-privadas favorecem despudoradamente as empresas privadas temos dois interesses particulares em jogo: o interesse do grande capital e o interesse dos governantes movidos pelas amizades fraternas - sedimentadas na recruta das jotas - ou pelo retorno que esperam obter quando as sondagens começarem a cair.

Quando Victor Baptista explica como o PS pôs à sua disposição 3 cargos em empresas públicas sabemos que não basta pedir mais Estado, sabemos que não basta pedir que a decisão política esteja a salvo das manipulações de acumulação de capital. Também é preciso pedir um Estado a salvo de quem o governa nestes termos, com os vícios corporativos do regime anterior, com compadrios da sociedade de vizinhança e com o deslumbramento do próximo topo de gama.

Salvar o Estado dos interesses partidários, dos interesses pessoais dos governantes, do interesses pessoais dos amigos dos governantes, dos interesses pessoais da vizinha do médico, dos interesses pessoais da sobrinha do Vereador da Câmara é, no limite, um desígnio de esquerda. Os neoliberais não defendem uma ideologia, defendem os interesses particulares, os seus, quando são inteligentes, ou os interesses particulares dos grandes capitalistas, quando são apenas papalvos. A esquerda que defendesse a força do Estado dos interesses não seria menos papalva. Era bom termos um Estado decente para atirar nas fuças do grande capital e dos seus partidários. Um estado capaz de defender o interesse público, capaz de virtude suficiente para abjurar a corrupção imposta pelos ditames da acumulação privada é, hoje em dia, uma utopia de esquerda.

Publicado no Aparelho de Estado.

A blogosfera ainda nos comove

"A última coisa que se espera de um amigo é que nos espete uma faca nas costas."
Esta frase expressa uma ideia ingénua e tautológica: só um amigo nos pode atraiçoar. Ao contrário do que se tem feito corrente, o que César sentiu ao ver  Brutus não foi a desilusão de perceber o seu estimado filho entre os  assassinos, mas o contentamento de ter uma injustiça a  lamentar na hora da morte. O mais terrível dos fins é morrer de uma morte matada que nos parece tão justa e inevitável como uma morte morrida; mas deixemo-nos de metafísicas, na morte ou no squash magoa sempre merecer o que de mau nos acontece.

É por essa razão que o anúncio da morte do Avatares pelo querido JPT me enche de gáudio. Não que a morte tenha sido prematuramente anunciada, provavelmente  aconteceu aquilo que ocorre com frequência noutras latitudes: os mortos indevidamente chorados continuam a viver, seja por capricho, seja pela incapacidade de se conformarem com uma incompletude ritual. Explico o gáudio.

Primeiro, trata-se de fogo vindo de dentro da  trincheira afectiva que fui construindo nisto dos blogues. O JPT é a pessoa certa para termos ao nosso lado numa situação de combate, é um tipo a quem eu pediria graxa para as botas, sardinhas enlatadas e uma musiquinha no violão para adormecer. Mais: na ausência de inimigos teria sempre por garantida a euforia do perigo iminente tal é a reactividade explosiva do JPT à mínima brisa. Ora, se é verdade que a guerra é já um absurdo, fogo vindo de dentro da trincheira é das coisas que mais nutrem a a indignação metafísica, o vazio de sentido e o egocentrismo trágico. Narrativas que, como sabeis, muito prezo.

Em segundo lugar, o JPT ataca-me com a garantia de que eu terei com o que me defender - esta é a minha suposição mais profunda. Ou seja, é propositadamente injusto na argumentaria com medo que  uma estocada mais certeira me deixe realmente por terra. Que diz então o JPT? Diz que ao citar o texto do Ferreira Fernandes me filiei no mundo dos colunistas armados ao pingarelho ao mesmo tempo que interrompi o longo coito com os comentadores blogosfériscos, fundamento primeiro da dinâmica que alimenta a blogosfera - nisto concordamos. A síntese histórica que o JPT vê representada na citação da crónica do Ferreira Fernandes deve-se ao facto de o dito texto não ser particularmente simpático com o voluntarismo dos comentadores. Comentadores esses que, segundo FF, frequentemente comentam um texto que não perceberam ou, o que seria mais sintomático, comentam exactamente por não perceberem.

Não discuto a substância dos argumentos, mesmo considerando o absurdo clubístico e o primarismo opinativo a que os posts de futebol tendem a ser reduzidos. A questão irónica é que cito o Ferreira Fernandes numa rubrica ("A blogosfera ainda nos comove") criada para dar eco aos comentadores, melhor dizendo, para dar eco aos feedbacks que os posts vão recebendo. Assim, contra qualquer elitismo que o JPT aduz, nessa mesma rubrica tinha citado, até então, dois "comentadores" olimpicamente anónimos (O Daniel e o Gervásio). Portanto, como se percebe, a valorização do feedback pouco cuida de distinguir autores de comentadores. Mais, ao chamar a essa rubrica "A blogosfera que ainda nos comove" faço uma incursão nostálgica pelo tempo em que a blogosfera era intensamente alimentada pelo intertexto: diálogos e conversas que geravam novos textos e novas conversas. A mera existência deste post é prova de que a crónica de Ferreira Fernandes faz parte da blogosfera que me comove. O mesmo se aplica ao post em que, falho em convicção, pleno de nostalgia, o JPT anuncia a boa morte do Avatares.

Més que un club

O Sporting é muito mais que clube, é uma alegoria do desespero humano num mundo habitado por sportinguistas.

A Colónia

Temos um governo de maioria absoluta: o PS governa em coligação com o medo; trata-se de uma coligação que não pode ser destituída ou contrariada sob pena do desastre total.

Temos um governo de gestão: o PS toma decisões que meramente respondem aos anseios dos observadores internacionais e que, portanto, se configuram como inevitabilidades e não como verdadeira opções políticas.

Temos um governo de iniciativa neoliberal: o PS corta a despesa que descansa os mercados internacionais ao mesmo tempo que mantém   a despesa que descansa o arquipélago do mercado parasitário local - réplicas indígenas  da lógica que preside às agências de rating.

Temos um governo socialista: o PS socializa os danos com o povo procurando manter as medidas de apoio social à banca.

Temos uma alternativa de infiltrados: o PSD sente as dores da colónia ao mesmo tempo que celebra as lógicas do colonialismo mercantil.

Temos o Bloco: demasiado certo dos seus caminhos para entrar em diálogo com os políticos que "governam" as agruras da realidade contemporânea.

Temos o PC: demasiado entretido em defender a China das ofensas do Grande Capital norueguês.

Temos o CDS: demasiado entretido em explicar a importância dos submarinos na batalha naval.

Publicado no Arrastão.

Filme do Desassossego


Demasiado longo para que o sucessivo êxtase não se torne extenuante, ainda assim é um pedacilho de imperdível peregrinação. Alguma economia - menos tempo, menos cenas, menos massacre da atenção do espectador à récita, menos aquela ópera - e recomendá-lo-ia com outro entusiasmo.

Amor de Perdição

Século XIX: os pais mandam a donzela para um convento.
Século XXI: o Ministério da Educação coloca a donzela numa escola para os lados de Aljustrel.

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Jornada 7

Publicado na Liga Aleixo

Em 1835 ficou célebre o o “caso Pierre Rivière”. Pierre, chamemos-lhe assim, era na altura um jovem de 20 anos que ficou conhecido por ser um pouco nervoso, tanto assim que certa tarde, porventura chateado com as previsões meteorológicas para o fim-de-semana, degolou a mãe grávida, a irmã e o irmão. Pierre viria a tornar-se muito famoso, universalmente odiado, tema de acesas polémicas e um estudo de caso para reflexões sobre a condição humana, sobre a moral e sobre os limites do poder disciplinador da modernidade. Vivemos em tempos diferentes, ao mesmo tempo que os media podem ajudar à popularização de um homem odiável, tantos são os homens odiáveis publicitados que acabamos por não conseguir odiar ninguém com a dedicação com que Pierre foi mimado.
Se quiséssemos encontrar uma personagem à altura de Pierre Rivière em grau de infâmia – a fama dos maus - teríamos que lembrar, talvez, alguém como Olegário Benquerença. (...) Ler Mais

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Da Sensatez



We Don't Live Here Anymore, John Curran, 2004.

A blogosfera ainda nos comove

"O blogue Arrastão é dos melhores, opinião assertiva e escrita inteligente. Esta semana, Bruno Sena Martins, um dos autores do blogue, escreveu: "Otamendi, curioso nome, soa como que vindo da América do Sul, mas afinal vem da Argentina." Houve um leitor na caixa de comentários que escreveu: "Otamendi, curioso nome, soa como que vindo da América do Sul, mas afinal vem da Argentina??????????" Reparem, a contribuição do leitor foram dez pontos de espantação. Bruno Sena Martins respondeu lembrando a ironia óbvia - os argentinos, entre os sul-americanos, gostam de ser excepcionais. O meu problema é: o autor justificou-se. Não deixou o leitor com a contradição dele, leitor: então, frequenta um blogue, sem que ninguém o obrigue, onde não se sabe que a Argentina é sul-americana? Esse é um dos problemas modernos: os pedaços de asno comentam de mais, espantam-se de mais. Nelson Rodrigues, o cronista brasileiro (não há nenhum cronista português que lhe chegue aos calcanhares), um dia escreveu, num dos seus bilhetes: "(...) esse é um mau tempo do quinto acto do Rigoletto." Naquele tempo (1967), os felizes leitores do carioca Correio da Manhã maravilhavam-se com uma das escritas em português mais luminosas do séc. xx . Hoje, um pedaço de asno poria o dedo no ar: "Hei, o Rigoletto só tem três actos!!!" Não é por nada, mas muito dedo no ar impede os asnos de saborear." Ferreira Fernandes, Diário de Notícias

A blogosfera que ainda nos comove

"patética deriva do latim pattetiaus ou algo que o valha e significa, hoje em dia, comovente. é desta palavra que deriva a inglesa pathetic, por exemplo. por outro lado, pateta deriva do espanhol... e em português significa o que todos sabemos. a carreira do pena é pateta, mas não patética, na minha opinião." Comentário do Daniel, na Liga Aleixo

Patético:
1. Que move os afectos!.
2. Que incita as paixões.
3. Tocante.
s. m.
4. O que comove, o que fala ao coração.
5. Sentimento.
6. Arte de comover.

P.S. Descobri hoje que me andava a armar em bom sempre que dizia ao espelho "Bruno és tão patético". Disclaimer: afinal sou só pateta.

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