Essie Jain II

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Jornada 6

(...) Causa-me sempre tremendo assombro quando vejo as parangonas dos jornais a celebrar um jogador que marca na estreia. Tal assombro deve-se, em parte, ao facto de eu não ter tido muito feliz sempre que tentei fazer algo de marcante na estreia, mas, enfim, deixemos de falar da minha vida que já passou muito tempo e, às tantas, com a minha cara sempre a mudar e o cabelo a cair, um dia a rapariga de Serviço Social vai deixar de me apontar na rua, para gáudio das amigas, só pelo capricho de publicitar a pior estreia de sempre desde que Renteria se estreou a jogar no Estádio da Luz (...) Publicado na Liga Aleixo

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É pena que não tenham morrido mais monarcas no tempo de vida do Henry Purcell



Avulsos

"A construção recomeçou hoje nos colonatos da Cisjordânia, mal terminou a moratória que congelava esta actividade, que ameaça as negociações de paz entre Israel e os palestinianos."

Avulsos


A blogosfera ainda nos comove

"Às tantas vou consigo para Bogotá. Posso?. Olhe, levo-lhe as minhas colecções de outros futebóis, onde jogavam o Rachão, o Alinho, o Alves, etc.. Até do Estoril Praia que jogava na 1ª Divisão tenho cromos. E um do Washington no Varzim S.C.. Posso ir? Se faz favor, diga lá ao Moutinho para me fazer uma cadeira de balouço que eu vou e levo-lhe uns bonecos da bola do tempo do bigode de agrafo. Um abraço." 
Comentário de JMGervásio no Arrastão

Jornada 5

Publicado na Liga Aleixo

Fico sempre um tanto arreliado quando um jogo me obriga a cancelar a aula de Salsa de Segunda-feira à noite. Se é verdade que não resisto às viagens de Hulk à Choupana, também é evidente que ninguém pode pensar fazer vida na América Central sem o domínio de um outro passo de Salsa, facto mais grave para uma pessoa que alimenta legítimas expectativas de ir morrer a Bogotá. No entanto, antes de deixar os meus ossos naquela terra afeita tão à mortandade, gostaria de ir beber um copo ao alpendre do Falcão, perorar longamente sobra a vitória do Porto na Liga Europa em 2011 e, no fim, receber nos braços a filha dele, na altura um mulheraço (com a tatuagem do Hulk estampada no braço) incapaz de negar a última Salsa a um velhadas que viu todos os jogos do pai.

Falto à Salsa e fico a ver o Moutinho contra o Nacional a esforçar-se para ser o meu novo herói. Tenho muita dificuldade em deificar um jogador com quem não me imagino a ver o pôr-do-sol bebendo Chicha, ou cuja filha não me desperte o desejo de dançar salsa antes de fenecer de uma cirrose. Moutinho não é esse homem, é mais o tipo de pessoa que andaria de martelo na mão a construir o alpendre para que os outros jogadores possam  receber as visitas com um mínimo de dignidade. Moutinho fermentaria a Chicha para garantir que o Falcão teria com o que me impressionar. Falamos do homem  que renegou aos sonhos de celebridade da sua geração - toda ela feita de pessoas íntimas das passerelles (Nani, Veloso, Djaló) – para poder afirmar-se como um trabalhador discreto. Algures na determinada recusa em frequentar o cabeleireiro de Miguel Veloso, Moutinho aprendeu no Sporting a ser um jogador à Porto.


No mundo do futebol, em que um trabalhador discreto mais parece um rebelde sem causa, armado em diferente, como aqueles miúdos que iam para o liceu com o caderno preto enfiado no bolso de trás das calças, Moutinho forjou o seu futuro como o Ponto dos jogadores do Porto. Ele lembra-os das falas e lembra-os de como representarem com verosimilhança a performance de um jogador à Porto, algo que lhe sai genuinamente.


Acaso a cirrose do Falcão seja mais cavalgante do que aquela que me espera na dobra de uma esquina, quem sabe gostaria de ter o Moutinho em Bogotá para me auxiliar num último copo. E paciência, que se lixe a Salsa.

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"Sou decididamente monótono" II

Fui citado num blogue de mamas. Confere.

"Sou decididamente monótono"

Jennifer Connelly

Mural

Não exactamente um palimpsesto, mas quase.


Verona, 2010


Numa tradução muito lá de casa (a casa de Lara), demasiado cobarde para correr atrás, demasiado cobarde para fugir.

Maltrapilho

Não gosto de comprar roupa e fatiga-me a mera ideia de ter que me vestir para sair de casa. As negociações acerca do estilo, combinações de cores, tecidos engomados e quejandos que enchem a cabeça dos peritos em talões de troca não me podiam ser mais alheias e creio que, inevitavelmente, cultivo alguma distância crítica em relação a quem gasta fortunas entre montras e provadores de roupa. Nada grave desde que não me peçam ajuda e que não me venham tentar vender a noção de uma engenharia dos decotes subsumida aos ditames glamorosos do corte e costura: é o "corte" da mama que se deve celebrar e não as transparências que a fazem aparecer. Poderá interpretar o caro leitor, com uma acuidade que não deixará de me surpreender, que este que vos escreve não podia ser menos vaidoso na relação que estabelece com os têxteis, que nalguma medida se identifica com a primeira vaga da revolução industrial encetada, como se sabe, para ajudar as pessoas a vestir roupas para o tempo lá fora. Não tenho como rebater tamanha argúcia.

Mas convém um esclarecimento: a ausência de vaidade na relação com os têxteis não sulca a velha ladainha de quem rejeita a vanitas como mundanidade em nome de desígnios mais elevados, intelectuais ou morais. Talvez que na minha relação com os têxteis haja uma outra vaidade, mas não a do despojamento à intriga estética do quotidiano. A vaidade será exactamente pelo modo como entro na intriga estética do quotidiano ostentando, como declaração, o vínculo entre as agruras da vida e as pregas da camisa amarrotada. O que eu quero dizer, no fundo, é que, para determinada narrativa de estilo,  o maltrapilho não é senão a forma pública de aparição daquele que foi maltratado. A vaidade do maltrapilho é exibir as suas vestes como sinais óbvios de antiquíssimos maus tratos.
E ao lhe ver assim cansado
maltrapilho e maltratado
ainda quis me aborrecer
qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
dou um beijo em seu retrato
e abro meus braços pra você
(Com Açucar, com Afeto)

Versões de um mesmo mito

De wisselwachter, 1986 - Jos Stelling



The Station Agent, 2003 - Thomas McCarthy

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Os românticos do PSD

Entre outras coisas, Manuela Ferreira hipotecou as suas hipóteses de vitória eleitoral em nome da celebração narcísica da ideia de Verdade, ali tida como a fundação moral do carácter de um político. Já Passos Coelho parece investido em tentar esboroar a coroação democrática em nome de uma revisão da Constituição, a fundação ideológico-institucional da República.

Não se pode dizer que sejam modestos os planos de lavra dos recentes líderes do PSD. Porém, fica a persuasão de que a transcendência (ideológica ou caracterológica) afirmada nas suas agendas acabará brutalmente encostada à terra pela pequena política que as inspira. Se Ferreira Leite quis aproveitar as embrulhadas judiciais de Sócrates, Passos Coelho reclama nova Constituição porque a isso ficou obrigado pelo capital indígena que o apoiou. Olhar estrelas a partir de valas comuns pode ser muito romântico, não soubéssemos nós porque é que foram cavadas.

Jornada 4

"(...) Agora que a memória do Benfica transacto se esbate sob as agruras do presente, e após os desperdício da Liga Europa por Jesus, fica a sensação de que nem o excelente futebol nem a disputa do campeonato até à última jornada serão suficientes para fixar o Benfica 2009/2010 na história. Faltou aquele jogo mágico num mundo em que o disco duro do adepto de futebol se compraz com filmes de 90 minutos. Para bem da posteridade, Villas-Boas já tem no bolso um dos jogos da década acontecidos em solo indígena, agora só precisa de ser campeão."
Publicado na Liga Aleixo

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Os anos passam e ela permanece boa, mas tão boa


Flannery O'Connor

Início de época

O jogo das sextas já tem equipamento oficial:




Obrigado, Rodrigo.

Versões de um mesmo mito

    Stromboli, Roberto Rossellini, 1950.

    Under Capricorn, Alfred Hitchcock, 1949.


Temas recorrentes: Ingrid Bergman, loucura, exílio e a angústia das ilhas.

Vê-los de enfiada é uma experiência tremenda (assim se atrevam a tanto, poderão contar-me como foi para o e-mail lá em cima). Apesar de tudo, estimo-vos muito.

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A arte da renúncia

The Letting Go



Agora em Lancaster (sim, ando a fazer piscinas em regime aberto).
"Sorry about the weather."
"Never mind. Fits me well."

Patético

Ido a Verona não resisti a um auto-retrato junta à casa de Julieta (a do Romeu). Não sei o que considerar mais patético, se eu a tirar-me fotos no meio dos peregrinos de Shakespeare (certamente ávidos leitores), se as fotos que resultaram desse exercício. Juro que vos mostrava, queridos leitores, mas até eu tenho alguns limites para as figuras a que me permito. Agora em Londres: tenho a dizer-vos que não se passa aqui nada desde a última glaciação. À excepção das bicicletas que o Boris espalhou por aqui, umas situações sul-africanas no Museu Britânico, algumas crianças nascidas nos subúrbios e a minha recente capacidade para reparar na beleza asiática (uma conquista depois de 3 meses em Leeds sem conseguir achar graça à paisagem urbana proporcionada pelas nativas). Mas enfim, as minhas saudades, mais afeitas à beleza mediterrânica, insistem sendo banhadas pelo reles do Mondego (diz que o nome e as águas vêm de uma moura a chorar pelo seu el pibe da altura: Mon Diego). Sim, eu sei, o Mondego não tem nada a ver com o Mediterrâneo, mas Shakespeare não tem nada a ver com as minhas figuras patetas e no entanto escreve umas coisas que reputo de agradáveis e sensatas. Vá, e bonitas que até dói.



Verona, Setembro de 2010.

Comentários

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Uma barra de enxofre

Feitos que povoam o espaço e que chegam ao fim quando alguém morre podem maravilhar-nos, mas uma coisa, ou um número infinito de coisas, morre em cada agonia, a não ser que exista uma memória do universo, como conjecturaram os teósofos. No tempo houve um dia que apagou os últimos olhos que viram Cristo; a batalha de Junín e o amor de Helena morreram com a morte de um homem. Que morrerá comigo quando eu morrer, que forma patética ou inconsistente perderá o mundo? A voz de Macedónio Fernández, a imagem de um cavalo rubro no baldio de Serrano e de Charcas, uma barra de enxofre na gaveta de uma secretária de mogno?"
Borges, "A Testemunha", O Fazedor

Urso

Mãe, estão-me a chamar urso.
Trento, 2010

Idas e voltas


Estou habituado a ter o passeio só para mim, facto que poderá explicar o compreensível pânico entre os ciclistas de Trento. Poderia dizer que não ouço as campainhas porque me ocupa a música que também serve para subir a Rua dos Combatentes. Ou seja, que é muita campainha.