Que Farei no Outono quando Tudo Arde

Que farei no outono quando ardem
as aves e as folhas e se chove
é sobre o corpo descoberto que arde
a água do outono

Que faremos do corpo e da vontade
de o submeter ao fogo do outono
quando o corpo se queima e quando o sono
sob o rumor da chuva se desfaz

Tudo desaparece sob o fogo
tudo se queima tudo prende a sua
secura ao fogo e cada corpo vai-se

prendendo ao fogo raso
pois só pode
arder imerso quando tudo arde

Gastão Cruz, As Aves

Jornada 3

Publicado na Liga Aleixo

Consta que há aí um realizador de cinema que acha que o Porto joga melhor sem Hulk. Antes de o atento leitor se permitir sequer a ponderar na bondade de um sistema táctico organizado para um colectivo solidário em detrimento de Hulk, um criativo indisciplinado cuja noção de passe é passar por adversários, cabe lembrar que o dito realizador considera Jorge Jesus melhor treinador do que José Mourinho.
O que se passa não é tanto a incapacidade do dito realizador para emitir juízos sobre o futebol – ou sobre tudo o que se passe num raio de 5 quilómetros de um estádio de futebol -, a coisa é mais apetecível: sempre que o dito realizador se põe a dar palpites a realidade decide escarnecê-lo. Se quisermos ser místicos isto já chegou a um ponto em que é lícito supor que o dito realizador mexa com a realidade a partir do momento em que esta - a realidade – definiu como divertimento supremo gozar com os bitaites do dito realizador. Senão vejamos: o dito realizador diz que Jesus é melhor que Mourinho e pouco tempo depois Mourinho volta a ganhar uma Champions (já agora Mourinho ganhou uma Taça Uefa na sua primeira época completa num grande, Jorge Jesus conseguiu desbaratar a Liga Europa com o Liverpool mais risível da última década). Continua. Na passada semana o dito realizador fez uma sentida elegia ao futebol do Matías Fernández, poucos dias depois, no jogo contra o Brondby, o chileno viria protagonizar uma das jogadas mais patéticas já acontecidas desde que os hominídeos assumiram a posição bípede: 4 jogadores do Sporting caminham para a baliza do Brondby só com um defesa nas redondezas, Matias conduz a bola. Suspense. O que faz o bom do Matias com 3 colegas ao lado? Aposta na sua extrema velocidade (pausa para gargalhada) e oferece um espectáculo na primeira fila os 3 colegas; uns privilegiados que tiveram oportunidade de assistir atónitos ao desamparo de Matias perante o defesa dinamarquês que tranquilamente lhe roubou a bola depois de lhe ter ganho 3 metros em duas passadas. No mesmo programa o dito realizador chamou a atenção para o modo como o Porto vinha passando bem sem Hulk. Acto contínuo: Hulk regressa e faz 5 golos em 2 jogos.

O jogo deste fim-de-semana contra o Rio Ave pode ser entendido como um manguito da realidade à leitura de jogo do realizador. Não que ele, em abstracto, não possa ter razão, a questão é que no concreto ele tem pé frio: de cada vez que proclama uma ideia só relativamente absurda ela tende a tornar-se patética no espaço de poucos dias. Pode ser que o dito realizador esteja fadado a ter razão antes do tempo: um dia todos concordaremos que Jesus é melhor que Mourinho, que Matías Fernández é um futebolista colossal, que Hulk não tem compleição emocional para jogos colectivos. Por agora só podemos concluir que o dito realizador está fadado para ter razão fora do tempo e do espaço, o espaço-tempo onde as pessoas vivem e o futebol acontece. Não deixa de ser irónico que alguém com nome de desenho animado – Hulk - consiga mostrar de forma tão ostensiva a uma pessoa com nome de gente - António-Pedro Vasconcelos - que é a este último que a realidade insiste em não levar a sério.

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Versões de um mesmo mito

Lara subscrevia a newsletter e, ao fim de uns meses, quando se apercebia do afluxo de e-mails, carregava no "report spam".

"Se não sabias amar, porque despertaste o meu coração adormecido?"*
*A Voz Secreta das Mulheres Afegãs - o Suicídio e o Canto, Cavalo de Ferro.

Replay



"(...) as palavras escritas por um rei que desejava o Oriente serviram-me a mim, desterrado na África para a minha nostalgia de Espanha."

Jorge Luis Borges, O Aleph

Hoje os ciganos, ...

"Considero duvidoso que o animal humano alcance sobreviver se não aprender a dispensar fronteiras e passaportes, se não for capaz de compreender que todos somos hóspedes uns dos outros, do mesmo modo que o somos desta terra contaminada e cheia de cicatrizes." George Steiner, George Steiner em The New Yorker

Jornada 2

Publicado na Liga Aleixo


Com tanta a coisa acontecida na choupana, aparentemente envolvendo um guarda-redes espanhol de nome Roberto, que tudo indica ter custado 8 milhões e meio, preço agora aventando como absurdo em face da fraca valia demonstrada nos primeiros jogos, torna-se difícil a um portista concentrar-se exclusivamente nos golos do Falcão ou no afundamento do osso zigomático do Ukra.

Vamos então ao Roberto, mas se acaso pensam que me vou juntar aos abutres tirem daí a ideia. Acontece que já fui guarda-redes, um reles guarda-redes do futebol de 5 da Académica (calma Bruno, não te encanites), ainda assim razão suficiente para achar que o “caso Roberto” não deve ser visto como uma mera oportunidade para escarnecer a contratação mais patética que há memória na história do futebol e, muito menos, para assim pôr em causa a qualidade das drogas alucinogénicas consumidas na época estival por Jesus, Luís Filipe Viera e Rui Costa. Nada disso, até porque me lembro de disparates compráveis nos montantes gastos; lembro, por exemplo, a “ousada” contratação pelo Sporting de Carlos Miguel da Silva Júnior, um médio de 800 mil contos que não chegou a dar dois toques na bola em solo luso. Por outro lado, cabe reconhecer que tenho telhados de vidro no que a guarda-redes diz respeito, basta lembrar a saga que se seguiu à ida de Baía para o Barcelona: Rui Correia, Pedro Espinha, Wozniak, Eriksson, Kralj ou Ovchinnikov (o menos mau, apesar de tudo). 

Tudo isto para dizer que o meu interesse no caso Roberto se dirige à defesa do homem (já que em relação ao guarda-redes, aparentemente, há muito pouco a fazer). O facto trágico é que os guarda-redes estão sujeitos a níveis de amesquinhamento mil vezes superiores àqueles que recaem sobre um jogador de campo, mesmo que este se chame Palermo e falhe três penalties num só jogo. Mais: os guarda-redes vivem na iminência de que um erro ou que uma infelicidade cénica os marque com a culpa do golo e com o estigma de frangueiro. É pois natural que estejam mais vulneráveis a crises de confiança com origem nas bancadas (ou nas capas do nossos diários).

Sinceramente, não sei se a crise de Roberto tem a ver com a bola de neve de criada pelo começo aziago na pré-época, se com a responsabilidade imposta pelo preço por que que foi comprado, se com deficiências técnicas na sua formação (dá a ideia de ser um guarda-redes à moda antiga, bom entre os postes, uma tarântula fora deles). O que eu sei é que Roberto não deve dormir bem há um mês e que a sua eventual incompetência não cessa de fazer a abertura dos telejornais e as delícias do Correio da Manhã. Mas desse flagelo ninguém fala; como dizia o Chico Buarque, “a dor da gente, não sai nos jornais”. 
O Cardozo pode ter um início de época horrível sem que ninguém o chateie, já o Roberto leva a cruz sozinho enquanto Jesus aponta o caminho do Gólgata aos Romanos.


 Noutro clube, perante tal crise de confiança, Roberto tinha sido protegido: inventava-se uma gastroenterite devida à maionese das cantinas, o Júlio César assumia a baliza, e o bom do espanhol aparecia daqui a um mês para jogar na Taça de Portugal. Não sei se o Roberto é um mau guarda-redes ou apenas um homem a passar uma crise de confiança que o torna incapaz de ser guarda-redes. Como ex-guarda-redes e frangueiro não praticante, magoa-me a injustiça e crueldade com o duro ofício das balizas. Por muito que me regozije com as derrotas do Benfica, confesso que não consegui festejar a vitória do Nacional: é demasiado alto o preço que está a ser pago por Roberto. Nenhum jogador está tão cruelmente só na desgraça como o guarda-redes; pior se é um espanhol acabado de chegar a Lisboa a quem 6 milhões de benfiquistas andam a chorar 8 milhões e meio. 

Uma nota final para Beluschi. Como eu sempre suspeitei, um mau corte de cabelo é conciliável com uma carreira ao mais alto nível.

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Photobucket

Notorious (1946)

As mãos de Ingrid Bergman

Fotograma de Ingrid Bergman em Notorious (1946).


Um excelente exemplo de mãos afeitas ao feiticismo.

On cynicism

Para uma relação durar mais os elementos do casal devem amar-se à vez. Tudo ao mesmo tempo dá confusão e impede a alternância de baterias.

O meu início de época




A academia é isto

Legenda:

Jorge Costa: Treinador da Académica.
Domingos: Treinador do Braga
Villas-Boas: Treinador do Porto
Mourinho: Treinador do Real Madrid
Fernando Couto: Director Desportivo do Braga
Costinha: Director Desportivo do Sporting
Pedro Emanuel: Treinador Adjunto do Porto
Vítor Baía: Futuro Presidente do Porto



No fundo, as pessoas razoáveis nem sabem a sorte que têm

"A Razão também pode ser subtilmente autolisonjeadora, e Soljenitsine reage duramente à «objectividade» simplista daqueles que discutem com ele, que tentam ser «razoáveis», sem terem sido expostos a um milímetro sequer do arquipélago da dor." George Steiner

Avulsos

"Terá de existir a propriedade privada de grandes obras de arte, acompanhada de tudo aquilo que essa propriedade acarreta de riscos materiais, de cobiça, de exclusão das correntes do pensamento e do sentimento gerais? A interrogação torna-se ainda mais premente quando o quadro, a escultura ou produção de arquitectura em causa foram concebidos tendo em vista antes do mais a exposição pública como é, evidentemente, o caso da maioria das obras da Idade Média, do Renascimento e dos séculos XVII e XVIII. Dizer que os coleccionadores privados, sobretudo nos Estados Unidos, têm sido generosos por permitirem que alguns convidados eruditos dêem uma olhadela aos seus tesouros (nem sempre o fazendo, na realidade), não é resposta. Deverá a simples riqueza ou a especulação febril do investidor determinar a localização e o acesso a algumas produções do legado humano, universais e sempre insubstituíveis? Há ocasiões em que penso que a resposta deve ser categoricamente negativa: as grandes obras de arte não são, não podem ser, propriedade privada. Mas não tenho a certeza."

George Steiner, "O Sacerdote da Traição", George Steiner em The New Yorker.

Jornada 1 - FC Porto

Publicado na Liga Aleixo.

Não queria deixar de usar o espaço conferido por esta crónica para enviar um alerta ao Salin, o guarda-redes da Naval. Como terão reparado, Salin mostrou-se muito frustrado por quase ter defendido o penálti marcado por Hulk. O que Salin não percebeu é que se aquela bola o apanha poderíamos estar aqui a lamentar a vida de um guarda-redes francês furado por uma jabulani na Figueira da Foz. Caro Salin, abandonar a baliza ou fugir pode não ficar não muito bem na fotografia, mas em situações como a de sábado pode fazer-lhe muito bem à saúde.
Vamos às perguntas difíceis: é deprimente ganhar um jogo com um penálti estúpido a poucos minutos do fim? Diria que sim. Ou melhor, diria que é assim para o agridoce (mais para doce do que acre, afinal ganhámos). Mas ressalvem-se dois factos que apesar de tudo me vão apaziguar as insónias. Primeiro, existiu de facto falta no penálti cometido por Jonathas, defesa da Naval a quem endereço o meu obrigado (e um convite para comer sardinha à discrição no restaurante do Núcleo Sportinguista da Figueira da Foz). Jonathas não cortou nenhum lance perigoso, facto, e, nesse sentido, até podemos dizer que prejudicou manifestamente a Naval. No fundo, sem outra intenção que não o seu próprio vexame, Jonathas não terá resistido a aproximar o braço de uma bola que lhe passou a roçar as costelas flutuantes (é uma zona muito erógena no que a jabulanis diz respeito). A outra notícia tranquilizadora é que ganhei 5 euros numa aposta combinada entre a vitória do Porto e a vitória do Paços de Ferreira.
Apesar do jogo menos bem conseguido do Porto, são de registar alguns detalhes que creio animadores na prefiguração desta época:
- Nas bolas paradas ofensivas notou-se trabalho de casa e, finalmente, surgem outras soluções nos livres indirectos que não as bolas (mal) bombeadas para o Bruno Alves (solução única na época de Jesualdo);
- Quando meteu Guarin, Villas-Boas passou do 4-3-3 a um 4-4-2. Mais do que a opção ter resultado para e jogo com a Naval, é de ressaltar a franca mais-valia na existência de dois sistemas suficientemente estudados ao ponto de poderem ser alternados no mesmo jogo (a ausência de extremos que obrigou Jesualdo a jogar em 4-4-2 no final da época passada transformou-se numa prenda que Villas-boas, inteligentemente, parece ter sabido receber).
- O Rolando sem o Bruno Alves está-se a fazer um homenzinho. De uma forma perversa a dupla com o Bruno Alves prejudicou a progressão de Rolando enquanto o central atleticamente impositivo que era no Belenenses. Ao lado de uma besta chamada Bruno Alves, Rolando adoptou uma postura de low profile que de algum modo mitigou o seu lado de central musculado. Acontece o mesmo ao Bruno Alves com na selecção, onde este se acanha perante a melhor capacidade de antecipação do Ricardo Carvalho, e acontece em muitas relações amorosas em que um dos consortes se apaga quando começa a namorar, tornando-se naquilo que, no caso de ser homem, usualmente se designa por coninhas. Pois bem, tudo leva a crer que Rolando deixou de ser um coninhas.

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Jogo Directo

No imprescindível Jogo Directo o Filipe Vieira de Sá faz faz duas excelentes análises  ao jogo da supertaça. Deixo aqui os preciosos vídeos que ele laboriosamente nos oferta:





Cidade fantasma

As férias amplificam a contingência das pessoas com quem nos cruzamos nas esquinas; tudo se passa numa liminaridade que reverte o habitualmente: enquanto as presenças do costume se tornam rarefeitas, as presenças do antigamente voltam a assomar nas calçadas - real ou fantasmaticamente.

Supertaça

O meu comentário vai ser o mais honesto possível e, honestamente, cabe dizer que perdi algumas frames da supertaça já que fui sendo simpaticamente interrompido por espetos de picanha. Antes de me reputarem de alarve burguês ou, o que é pior, antes de me chamarem adepto negligente (bem sei que tremoços são o único alimento permitido durante um jogo de futebol), devo salientar, primeiro, que o dito rodízio se cingiu à picanha, ficando o prato por 10 euros - francamente mais barato do que o desfrute das 9 variedades de carnes a que eu assisti sem inveja de maior na mesa ao lado. Em segundo lugar, recorri ao dito restaurante num gesto de desespero já que a antena da televisão onde planeava visionar o jogo a salvo de solicitações gastronómicas enguiçou no preciso momento em que se anunciavam as equipas iniciais. Tudo o que pude fazer foi correr para o plasma mais próximo a uma velocidade próxima da alcançada pelo Rochemback nos seus melhores tempos.
Ainda assim, entre espetos consegui reparar em pormenores que aparentemente passaram despercebidos. Continuar a ler

Publicado na Liga Aleixo.

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Small town America (1939-1943)


Foto: Russel Lee

Mais fotos aqui.

Emma Zunz

Steiner diz que não há uma única mulher verosímil na obra de Borges, à excepção do conto "Emma Zunz":
"Ao longo da sua restante obra, as mulheres são vagos objectos de fantasia ou das recordações dos homens." 
Steiner sublinha com acerto a sensibilidade masculina de Borges, uma sensibilidade definida, sobretudo, pela timidez que sempre o apartou das densidades vivenciais do sexo oposto. No entanto, na sua formulação,  Steiner esquece que na vida de um homem  a mulher verosímil assume frequentemente a forma de fantasia ou de memória. A única mulher plausível é a que a distância nos oferece. Não falamos da mulher exactamente como objecto, mas como significante de um desejo, às vezes querente, às vezes nostálgico. As demais mulheres verosímeis de que fala Steiner, essas, ganham concretude  na vida dos homens verosímeis, nunca na vida dos efabuladores borgesianos.

Photo finish



Actualização: acabei a Errata primeiro, míseras linhas à frente.

Aisha


"O argumento de que a vida moderna assenta numa dieta de horrores que nos corrompe e a que gradualmente nos habituamos é uma ideia inaugural da crítica da modernidade ― sendo a crítica quase da mesma idade da própria modernidade." Susan Sontag
A recente capa da Time representa Aisha, uma jovem afegã barbaramente mutilada após ter fugido de casa dos sogros que a maltratavam. Percebe-se a polémica trazida pela publicação desta capa; em causa está, primeiro, a violência da imagem. Ao incómodo causado pela mutilação, pelo modo como através da empatia trazemos a mutilação para casa (para os nossos corpos, para os corpos que nos são familiares), acresce o impacto de vermos uma mutilação infligida num corpo em que reconhecemos a marca da  juventude e de uma beleza dilacerada:  "todas as imagens que exibem a violação de um corpo atraente são, até certo ponto, pornográficas" (Sontag). Na nossa semiótica,  uma imagem análoga representando uma mulher idosa teria menor efeito de choque. Há ecos deste torpor na força romântica que Allen Poe encontra  no tema da morte de uma mulher bonita, em "Annabel Lee", por exemplo:
"For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;"
Ou seja, os sonhos acossados são-no também pela imagem de uma beleza proscrita.

Em segundo lugar, a imagem colhe a nossa atenção como estandarte de um manifesto político: "O que acontece se deixarmos o afeganistão", lê-se na capa (Aisha foi recolhida por uma organização humanitária e estará em trânsito para os EU onde será submetida a uma cirurgia reconstrutiva). Não discuto o uso político de imagens e o seu papel de denúncia (fiz o mesmo num post recente a propósito das touradas), podemos é discutir, como faz Sontag acima, em que medida a exposição a imagens choque deve ser ponderada, caso a caso, sob perigo do efeito choque se ir perdendo à medida que a trivialização das imagens de horror torna o horror num trivial facto da existência.