Em hipótese

Com a volatilidade das relações contemporâneas a página dos agradecimentos é a secção que mais depressa envelhece num livro. Mas a verdade é que tudo envelhece. Até a verdade. Arriscar pessoas e teses que o tempo desdirá pode ser uma boa definição de ciência humana.

Desesperar é uma virtude



na qual sou excelso.

Liga Aleixo

A pré-época do Porto está a ser marcada por duas excelentes notícias: a contratação de Roberto pelo Benfica (um guarda-redes que nos promete muitas alegrias) e o resgate de Moutinho ao Sporting. Sobre Moutinho, no final do jogo contra o Ajax, Villas-Boas afirmava peremptório: “será titular sempre que estiver bem”. Detenho-me, pois, sobre o “movimento de mercado” que levou Moutinho para o Dragão, certo que nele se encerram interessantes questões sobre o futuro da civilização ocidental, sobre a prosperidade desportiva do Porto e, mais trivialmente, sobre a extinção do Sporting.  Ler mais aqui .

*Adepto do União de Coimbra que, doravante, moderará um espaço de comentário semanal sobre as incidências de cada jornada. Eu defendo as cores do Porto, naturalmente.

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Frinchas

Poucos fenómenos me causam maior escândalo do que as pessoas que dormem com a persiana aberta. A pálpebra é uma pele impotente que exige próteses. Também me faz confusão que chamem estores às persianas e que as minhas almofadas não me abracem.

O jogador mais elegante da actualidade?

Senhoras e senhores: Javier Pastore


Fragmentos de um Evangelho Apócrifo

Nos Fragmentos de um Evangelho Apócrifo, Borges giza o seguinte versículo:
"Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor."
Sabemos o suficiente de Borges para perceber que as três hipóteses enunciadas estão longe de surgir num mesmo plano de possibilidade. Em termos simples, é como se a dispensa do amor exigisse um talento raro, algo de uma pré-disposição a-romântica, um dom que, contudo, não se oferece a ser celebrado pelos a menos que num regime de insinceridade auto-contemplativa (o lugar de onde Borges contempla a felicidade alheia é o da beleza dos baixios a que se sabe irreversivelmente sujeito).

Dito de outra forma, os que arranjam maneira de se livrar do amor - mesmo que na forma passiva - podem ser exaltados, e até invejados, a questão é que surgem sempre colocados num altar ambíguo,  um altar onde de adoração e o despeito ajoelham juntos - nessa evasão às fragilidades humanas, nas suas  variegadas conjuras, o romantismo sendo uma delas,  há menos o reconhecimento de um herói capaz de enfrentar as vulnerabilidades que acossam os mortais, do que a denúncia de uma vida asséptica posta a salvo de abismos, uma jornada fácil para quem desistiu de conceber a realidade como palco  para perigosas efabulações, ora sujeitas ao crivo do plausível, ora sujeitas ao terror da perda. Não nos deixemos  enganar, o versículo  de Borges não chega a invejar os felizes, tampouco descreve pessoas (quando muito fala de momentos biográficos); no essencial, Borges ocupa-se, como de costume, em exaltar os não amados, os mal amados, os amantes sem chão e os amantes sujeitos às vilezas de cenografias efémeras. A falta de talento para prescindir do amor é inscrita num fatalismo trágico, merecedor de louvor borgesiano; os que precindem de louvor, são assinalados como felizes, mas não nos equivoquemos: trata-se uma felicidade inteiramente repugnante aos  leitores de Borges.



Validação referencial do tanto que excede o texto

"De onde decorre, a meu ver, a falsidade das afirmações pós-estruturalistas e desconstrucionistas de que "não existe nada fora do texto", de que todo o discurso é um jogo autónomo, rasurando e esvaziando sistematicamente a validação referencial dos seus significados e intenções possíveis. O significado está tão intimamente associado à circunstância, às realidades que percepcionamos (posto que conjecturais e transitórias) quanto o nosso corpo." George Steiner, Errata: revisões de uma vida.

Vã Glória

Mais de 400 seguidores no twitter: finalmente chegou o reconhecimento das empresas de spam.

Temos que ir tomar um café

Pergunta social frequente: "Estás em Sesimbra (localidade à escolha) e não dizias nada? Temos que ir tomar um café."
Pergunta social infrequente: "Estás na merda e não dizias nada? Temos que ir tomar um café."

César

Sabia-o. Quando se desfiliou do Super Smile da TMN, César enveredou por um caminho sem regresso. Há muito que o seu incerto tarifário se define por aquilo a que, nos tempos do Super Smile, teria chamado sobressaltos de alma.

Avulsos


Joachim "Jogi" Loew guided a young German side all the way to a third place finish despite the absence of their star player by having his team play the way he dresses: cool, confident, and with a dash of flair. Not only did the man school opposing coaches in the art of well-cut clothes and put on a master class in sideline sartorialism, but he even had the moxie to make his assistant coach wear matching outfits as if they were in some aging boy band. Periwinkle sweaters! That is leadership. Nicholas Sabloff, The Huffington Post

Avulsos

"Voltamos então à pergunta: Porque é que um niilista escreve? Porque a morte é a última palavra mas não é única palavra. E se a "literatura" é vã, inútil, um pouco ridícula, a poesia não é, a poesia vale alguma coisa. E vemos como, texto após texto, [Manuel de]  Freitas fala daquele poema que está a escrever naquele momento, e assim confessa que a escrita é a única possibilidade. Possibilidade de quê? De uma comunicação directa, prosaica, única, vivida, através de uma linguagem que contraria a estética da dificuldade, porque difícil é a vida, e dizê-la com as palavras certas é  tudo o que temos da felicidade." Pedro Mexia, Ipsilon



Compreendo a excitação com o golo do van Bronckhorst, mas, na minha humilde opinião (vá, nem tanto assim), o melhor golo do mundial continua a ser o do Quagliarella contra a Eslováquia (não confundir com a Eslovénia -  até porque desconheço algum golo marcado pelo referido jogador contra esta selecção da ex-Jugoslávia). Justifico a minha opção por duas razões, a prosaica, o golo é extremamente belo sob diversos pontos de vista, alguns deles relacionados com tendências recentes na dança contemporânea; e a fenomenológica, aquele golo é marcado por um homem em trânsito para Roma. A poucos minutos de ouvir Lippi desejar-lhe umas excelentes férias na Malásia, Quagliarella executa uma modalidade menos costumeira do desespero. O desespero, como nos conta a história militar, apela a superação e à convocação das últimas forças normalmente vertidas em momentos de raiva individual (remates fulminantes, cavalgadas para a linha, mergulhos contra porta-aviões, insultos à mãe do poeta) ou em actos de racionalidade colectiva que, afinal, constituem  a expressão táctica do "nada a perder" e o o aproveitamento do pavor semeado por experiências sociais como a que tomou lugar em Camp Nou, decorria o ano de 1999 (aqui falamos do clássico chuveirinho, da subida do guarda-redes à área, ou, noutros tempos, do ingresso do Vinha em Campo). O chapéu do Quagliarella sequer é comparável à utilização de panenkas em penalties decisivos, gesto que não resulta de mera loucura individual (excepto no caso do Postiga) mas da consciência acerca da substrato motivacional do guarda-redes naqueles momentos: instruídos no heroísmo de Goycochea, mexem-se sempre, procuram sempre a glória em estiradas elegantes e não admitem a possibilidade de que o maior esforço a ser feito pela pátria possa consistir em permanecerem quietos. Já  o golo do Quagliarella não parte de nenhum pressuposto racional acerca do terror ou do desejo de glória do adversário, é o gesto de um homem indignado com a possibilidade de não conseguir explicar de outra forma a injustiça pressentida ao imaginar, dali a uns minutos, o abraço consolador do Materazzi.

Publicado também no arrastão.

Heidegger

Filosofia e vida de Heidegger.

1/6.
Richardd Rorty: "Há inúmeros casos de maus homens que escrevem livros interessantes, Heidegger é apenas uma exemplo espectacular disso mesmo."

Ronaldo vs Queiroz

Uma televisão espanhola dedicou-se a acompanhar Ronaldo durante toda a partida, assim, graças à voracidade dos madrilistas pela sua estrela, podemos recuperar as palavras que o delfim de Mourinho atirou a Carlos Queiroz aquando da substituição de Hugo Almeida: "Assim não ganhamos, Carlos!" Que Ronaldo não tem perfil para capitão, como prova a expiação que intentou no final da partida, é das evidências menos contestáveis deste princípio de século marcado pelas convulsões não debilitantes da égide neoliberal. Adiante. Também dou de barato: ao se achar tão melhor que os demais colegas de selecção, Ronaldo acaba por ser minado pela incapacidade para acreditar - participando - no jogo colectivo; não é excesso de crença nas suas capacidades, é um desespero que ele magnificou ao absurdo fundado na arrogância de um qualquer emigrante incapaz de imaginar flores a nascer nos baldios da sua adolescência. Ao tentar resolver sempre em individualismos cheios de boas intenções, Ronaldo reduz a preparação da equipa adversária adversária a menos de 3 diapositivos com menos de duas linhas cada.

Ainda assim, por desconcertante que seja, cabe reconhecê-lo: à vista da substituição mais inepta que já vi em futebol profissional (quer dizer, mesmo quando joguei nos distritais pelo montemorense estive longe de vislumbrar algo tão patético), são de Ronaldo as palavras mais memoráveis na revisitação da viagem portuguesa à Àfrica do Sul. "Assim não ganhamos, Carlos!" O anelo de Carlos Queiroz ao powepoint encontrou no desespero egocêntrico de Ronaldo o mais expedito acusador. Nem ao maluco da aldeia se retira ao mérito de dizer umas verdades no tempo certo.