Stephen Rea


Na vida de John Terry nem tudo é prazer irresponsável


Isto não é um hamburger

Muitos acólitos salivares defenderam que a vitória contra a Coreia do Norte não poderia deixar de representar o esmagamento daquela monarquia comunista pelo capitalismo,  mais: tamanho arraso teria ficado sintetizado pelo modo como Simão festejou o segundo golo com a dança do Hambúrguer ("BigMacMacLocoBigMac", ao que parece), no fundo, coreografia de um oportuno piscar de olho de Simão a mais uns trocos do seu patrocinador, a Mcdonalds.

Mas, devidamente ridicularizada a tentativa de fazer do futebol um jogo político-moral, coisa para a qual não tenho tempo, se bem que possa adiantar que jamais cederei à chantagem moral de torcer por uma equipa que apresenta a Unicef como patrocinador, que jamais me inibiria de torcer pela Coreia do Norte face ao mal vestir do Dunga, que não acredito na hipótese de que a França tenha sido justa vítima da ignomiosa mão de Henry (a França foi apenas um equipa que, incapaz de fazer frente à ilegitimidade pública da sua qualificação, sentiu o secreto desejo de se boicotar, de algum modo a selecção francesa teve demasiados pruridos morais para poder levar o crime até ao fim, pelo que jogadores, dirigentes e treinadores não foram minimamente castigados, serviço a que o futebol raramente se presta, antes se suicidaram em fundo remorso, provavelmente por serem demasiado boas pessoas),  devidamente ridicularizada a tentativa de fazer do futebol um jogo político-moral, dizia, o que fica para a posteridade, do ponto de vista simbólico, é o modo como o gesto de Simão veio colonizar um festejo há muito estabelecido nos relvados, refiro-me ao coração que os jogadores costumam dedicar lá para casa, deduz-se, às suas senhoras.

Senão recorde-se: depois do golo do Simão, Hugo Almeida e Liédson celebraram os seus golos fazendo ternos coraçãozinhos com as mãos, mas o comum adepto, condicionado pela publicidade do Simão já só consegue ver ternos hambúrgueres onde antes estava o eterno amor à mulher do Liédson. Portanto, quando muito, o jogo contra a Coreia é  uma cintilante expressão de como, uma vez mais, o capitalismo vingou em colonizar a utopia do amor.

O génio da banalidade

Num involuntário acto de justiça poética, Cavaco concedeu que seria sua vez de se exilar numa ilha vulcânica. (...)

"El Inmortal", Narraciones, Borges


No meu panteão

Dactiloscrito d'O Ano da Morte de Ricardo Reis (Fonte:  Biblioteca Nacional):


Da arte poética

Da arte poética: tinha uma coluna verbal de plasticina.


Green



Robert Green lutará até ao fim dos seus dias para ser recordado por outros motivos que não o erro que ontem deu o golo do empate aos Estados Unidos, mas com o mediatismo exacerbado de um Mundial será vagamente impraticável sobreviver ao golo de Dempsey. Das lides  inglórias do mister de guarda-redes, vale a pena lembrar o triste fim de carreira de Zubizarreta, no mundial de 98, com um golo concedido à Nigéria.



O respeito pelos guarda-redes, modalidade pouco praticada entre os adeptos, deveria partir da noção mínima de que, em futebol, a eles cabe o protagonismo no momento mais memorável da tragédia.

Gole

"O treinador Hidalgo depositou confiança num meio campo cheio de técnica e melhorou a moral da equipa ao mandar embora Larios, que andava a ter um affair com a mulher do capitão, Madame Platini. O futebol nem sempre é uma questão de desmarcações diagonais."
Narrado por Sean Connery, Gole é uma peça de arte concebida para a dura missão de fazer jus ao Mundial de 1982. Escrito numa mordacidade que não raro parodia o desejo posteridade entrevisto na vitória,  este documentário mostra-nos cada protagonista do jogo a "escarnicar-se contra a sua própria virtude e enamorar-se da sua própria dissolução e cortejar o seu fim" (Borges). Enfim, uma demonstração fílmica de como esta coisa da bola só tem piada com muitíssimo pathos. Senhoras e senhores. É ver.



Parte 2; Parte 3; Parte 4; Parte 5; Parte 6; Parte 7; Parte 8; Parte 9; Parte 10.

Algumas citações:


"Menotti sem o cigarro, talvez um presságio."
"Os italianos marcaram Maradona com uma multidão chama Gentile."
"Gentile é o tipo de pessoa que tenta trocar de camisolas durante o jogo."
"Os escoceses limitaram-se a cumprir o papel de derrotados trágicos."
"Os polacos sem o suspenso Boniek, os italianos sem o suspenso Gentile: não há dúvidas de quem é a maior perda. Gentile teria marcado Boniek se ele jogasse e provavelmente está sentado ao lado dele nas bancadas."

Canto de Ossanha



Ma nuit chez Maud, Eric Rohmer, 1969.













É pueril cortejar o esquecimento se acabar é sempre uma fuga mal amanhada, sequer ensaiada com esperança de não rasto.

Nani


Quaresma, Varela, Nani. Tudo extremos de fina água vagueando entre o azar e a desgraça. A titularidade de Simão não poupa em sortilégios.

Férias

Le Rayon Vert, Eric Rohmer, 1986.

A proposta radical seria meter férias da verdade conforme constituída na dicotomia pendular entre a ética do trabalho e o imperativo do prazer.

Avulsos

Materazzi: "Hoje termino a minha carreira, porque, depois de ti, não poderei ter outro treinador."
Enfim, a explicação para este vídeo.

Hobsbawm: a non-Jewish Jew'

"[My mother] told me very firmly: 'You must never do anything, or seem to do anything that might suggest that you are ashamed of being a Jew.'
I have tried to observe it ever since, although the strain of doing so is sometimes almost intolerable, in the light of the behaviour of the government of Israel. My mother's principle was sufficient for me to abstain, with regret, from declaring myself konfessionslos (without religion) as one was entitled to do in Austria at the age of thirteen. It has landed me with the lifetime burden of an unpronounceable surname which seems spontaneously to call for the convenient slide into Hobson or Osbom. It has been enough to define ' Judaism ever since, the late Isaac Deutscher called a 'non-Jewish Jew', but not what the miscellaneous regiment of religious or nationalist publicists call a 'self-hating Jew'. I have no emotional obligation to the practices of an ancestral religion and even less to the small, militarist, culturally disappointing and politically aggressive nation-state which asks for my solidarity on racial grounds. I do not even have to fit in with the most fashionable posture of the turn of the new century, that of 'the victim', the Jew who, on the strength of the Shoah (and in the era of unique and unprecedented Jewish world achievement, success and public acceptance), asserts unique claims on the world's conscience as a victim of persecution. Right and wrong, justice and injustice, do not wear ethnic badges or wave national flags. And as a historian I observe that, if there is any justification for the claim that the 0.25 per cent of the global population in the year 2000 which constitute the tribe into which I was bom are a 'chosen' or special people, it rests not on what it has done within the ghettos or special territories self-chosen or imposed by others, past, present or future.It rests on its quite disproportionate and remarkable contribution to humanity in the wider world, mainly in the two centuries or so since the Jews were allowed to leave the ghettos, and chose to do so."

"Has Israel lost it?"