Youth in Revolt, 2009.

Se não por mais, pelo excelente Michael Cera.

Estatisticamente tímido, na realidade um misantropo

É lícito supor que 82% das pessoas aparentemente antipáticas sejam apenas tímidas. Pertencendo aos 18% nunca me dou conta desse facto.

Da gratidão


Perante uma estrutura avassaladora como a do Porto, perante um presidente creditado como Pinto da Costa, o erro de Jesualdo foi não ter sido capaz de um mínimo de narcisismo: em momento algum se preocupou em ser uma figura de estilo, jamais se insurgiu publicamente contra os caprichos de uma direcção que cumpriu a irónica tripleta de lhe estilhaçar a equipa em 3 anos consecutivos. Ganhou três títulos e nunca fez menos que os oitavos de final na Champions (soçobrou perante o Shalke numa eliminatória embruxada pelo Manuel (Neuer) e perante o Chelsea em Stamford Bridge, com um frango do Helton), e chegou ainda aos quartos de final onde só perdeu com o Manchester United (o golo do ano de Ronaldo lixou-nos depois do empate em Old Trafford).

Eu teria apostado em Jesualdo por mais uma época, mas entendo que a ingratidão dos adeptos portistas tenha criado um clima anímico insustentável (pergunto aos céus que fazer num período histórico em que  um treinador é avaliado pela qualidade da gola, pela apetência pró-fílmica e pela  capacidade de encarnar uma personagem para cuja consistência caracterológica o plácido adepto esteja pré-disposto (a partir daquilo que vai vendo nas novelas): o sargento mandão, o grisalho de sobretudo, o giraço de camisa, o bronco que subiu a pulso, o totó simpático, o giraço com apetência para seduzir a mulher do adepto, o mandão com risco ao meio, o Tony Ramos, etc.).

Jesualdo rescindiu com o Porto e foi convidado para ser director técnico de todo o futebol. Para já, não, diz.   Quer treinar mais 2 ou 3 anos mas é muito provável que volte ao Dragão. Na ordem da tragédia isto é, ainda assim, o mais airoso que se consegue. Na minha maturidade táctica (hoje em dia percebo mais disto que o Toni, que o Valdemar Duarte, que o Rui Santos,  que o João Querido Manha, que o José Eduardo e o que Jorge Baptista juntos), na minha maturidade táctica, dizia,  Jesualdo foi o melhor treinador que vi treinar o Porto a seguir a Mourinho, e como fenómenos metafísicos não são para aqui chamados, cabe reformular: foi o melhor treinador que vi treinar o Porto.

That leaving feeling II



Atenção, este ainda magoa mais.

That leaving feeling


Avulsos

Intense study of the Bible will keep any writer from being vulgar, in point of style. Coleridge
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Maradona, pensa lá bem


Técnicas do corpo

Na década de 80, recordo-me, era muito comum vermos homens a escarrar no espaço público (às vezes para o lenço de tecido, às vezes para o chão). Por exemplo, o meu professor da primária, homem com os seus sessentas, jamais começaria a aula da manhã sem um ruidoso escarro para o lenço que entretanto dobrava e arrumava no bolso. A ritualizada exibição pública da técnica do escarro, ainda que configurada enquanto necessidade inadiável, cumpria um papel na performance da masculindade/senioridade, performance em que os jovens se iam enculturando por imitação. Não era uma necessidade inventada, era antes uma necessidade reproduzida enquanto imperativo da carne - portanto, transformada em vício do corpo -, e enquanto dramatização de uma identidade: o homem suficientemente gasto para precisar de escarrar, o homem suficientemente vivido para saber fazê-lo com requinte (tudo expelido numa massa sólida, nenhum cuspo ou baba a estragar a cena).

Hoje posso dizê-lo com segurança: o uso público da técnica do escarro não passou para a minha geração. A passagem de testemunho foi truncada por dois factores: primeiro, as concepções higienistas, estruturalmente repelidas aos vestígios do corpo grotesco (Bakhtin); em segundo: as novas estéticas da masculinidade, referimo-nos, claro, à celebração da juventude e ao recente culto do homem imberbe. O facto é que o homem gasto já não tem audiência para se celebrar; a lenta putrefacção recapitulada no escarro já nada tem de sénior ou de viril. Se não extinta a necessidade do escarro por falta de uso, hoje cada um vai aprendendo a escarrar (e a assoar-se) no recato da casa de banho. A lenta putrefacção passou para os bastidores e o corpo grotesco só nos aprece na sua forma sexualizada (a pornografia), ou cinemática (o corpo de delito das séries e dos filmes criminais).

*Curioso o uso da conjugação reflexiva no "assoar", expressão de que há algo de masturbatório no "assoar" que o "escarrar" não acompanha. 

O Correio da Manhã não pode continuar a brincar com a tensão das pessoas

"O JOGO sabe que a notícia publicada ontem no Correio da Manhã dando conta da inscrição das filhas de Paulo Bento no Colégio da Nossa Senhora do Rosário, na Avenida da Boavista, é falsa. Também é falso que o ex-treinador do Sporting tenha comprado casa na cidade do Porto, sendo igualmente falso que tenha existido qualquer abordagem de Pinto da Costa ao técnico no sentido de ser ele o escolhido para a sucessão de Jesualdo Ferreira no comando técnico do FC Porto." 

Chantagem preventiva

Se o Paulo Bento for para o Porto, não terei outro remédio senão juntar-me aos seis milhões por uns tempos.

Bruna

Como podemos ver neste vídeo, a vereadora da educação da câmara municipal de Mirandela sentiu-se muito mal - como professora e como mãe - com aquilo que viu na Playboy e, claro, acha muito bem que Bruna Real seja afastada das salas de aula; afinal, explica-nos serenamente, quando tomamos algumas opções na vida temos que arcar com as consequências e, portanto, abdicar de outras possibilidades. É a vida, diz-nos a vereadora. Mas sejamos claros, que os juízos morais de Maria Gentil (ou de outrem) possam interferir com a carreira profissional de uma uma professora é uma opção, porventura uma opção fundada em valores da ordem do imperativo ético, valores que a obrigaram a um activismo pelo recato corporal das professoras publicáveis, mas ainda assim uma opção. Outra opção, esta colectiva, é aquela que tomámos quando decidimos que o Estado e os seus meios não deveriam ficar na mão de juízos morais individuais, uma opção feita para, entre outras coisas, podermos abdicar de pessoas como Maria Gentil a exercerem poder discricionário. Mesmo que a moderamente gostosa da Bruna seja reintegrada, dadas as opções tomadas eu gostava de saber do que é que a nada gostosa Maria Gentil está disposta a abdicar.

Publicado também no Arrastão.

" I do not believe the conditions that produce a situation that demanded a song like that"


Pós-estruturalismo ao piano.

As minhas entradas estão a dar de si

É oficial, já não posso aspirar a este look:


Avulsos

I: Em 2009, recebeste o Prémio de Teatro da crítica...
Jorge Silva Melo: Do que resta da crítica!

Extensão do domínio da luta: a luta de claques

A propósito do pequeno post que escrevi sobre o clássico do passado Domingo, o Zé Neves critica a direcção que dou às bolas de golfe metafóricas que intui encherem-me os bolsos  (porquê criticar o tratamento jornalístico do jogo em vez de falar do jogo ou em vez de recusar - veementemente, diz ele - a violência que o envolveu?). Depois, o Zé Neves alerta para o perigo no uso de expressões como "jornalistas de Lisboa", expressões que, no seu entender, sulcam um regionalismo perigoso e uma relação norte-sul para cujas conotações racistas e  essencialistas eu deveria estar mais alerta. De caminho, critica o que entende ser o fanatismo dos intelectuais que, procurando imitar o adepto comum, exageram redundando em caricaturas mais fanáticas que os originais. (Penso que este resumo não desmerece o post, mas nada como tirarem a prova).

Caro Zé Neves, poderia, claro, falar do jogo, como poderia ter feito uma declaração abjurando os actos de violência perpetrados por adeptos do Porto (no entanto, creio que a necessidade de tal gesto tomaria por prévia uma identidade comum mais densa do que aquela que é definida pelo facto de eu desejar, veementemente, o sucesso desportivo do Porto. Ou seja, não sinto particular necessidade de me demarcar das alarvidades dos adeptos violentos do Porto conquanto não tenho nada em comum com os adeptos violentos do Porto além de torcer pelo clube que lhes serve de pretexto. É claro que posso reprovar a violência no desporto e no futebol português cada vez que ela acontece, mas sinto-me tão obrigado a isso como o Zé Neves quando acaso as claques de uma ou outra equipa coloca as lições de guerrilha urbana em dia - já aconteceu esta época com todas as claques dos grandes e não me recordo que o Zé Neves tenha reprovado veementemente tais factos.


Não foi um jogo normal, certo, mas infelizmente este tipo de excepção é recorrente  - não só no Porto, sublinhe-se. Mas, dizia, podia ter falado do jogo e da violência, sim senhor, e nem escondo que apesar do ténue vínculo identitário, acabo por sentir  uma certa vergonha com os comportamentos de alguns adeptos do Porto.  Mas aconteceu que depois de algumas horas a consumir televisão e rádio já estava um tanto cansado de ouvir falar do jogo e da violência - nos termos que me iam sendo oferecidos pela comunicação social. No fundo, precisei de espairecer. A  comunicação social que critico ia falando do jogo ora com  a azia que resultava da frustração pessoal de cada jornalista digerindo o seu melão em público, ora com a elaboração discursiva afeita a reduzir o jogo aos desmandos anti-Benfica de Olegário Benquerança.  Parecendo que não, ao fim de um tempo eu tinha perdido a motivação para falar do jogo. A comunicação social que critiquei também falou da violência, mais, ao longo da semana não falou de outra coisa e até era capaz de jurar que percebi um medo cuja magnitude tive dificuldade em distinguir de entusiasmo editorial.

Já agora, se queremos condenar veementemente a violência seria importante sermos capazes de condenar uma comunicação social que rentabiliza e promove a rivalidade entre os clubes sem olhar aos ódios que incendeia ou às batalhas que prefigura (veja-se a "linha editorial" de programas como "Dia Seguinte", "Trio de Ataque", "Prolongamento", basicamente um misto de programa sobre arbitragem e guerrilha entre pessoas demasiado reputadas para andarem ao tabefe - estou certo que o Gobern e o Bruno Prata vão acabar por se matar mas estimo que seja por uma questão estritamente pessoal). Um exemplo: não sei se o Zé Neves já se apercebeu do facciosismo dos comentadores sempre que um jogo do Porto passa na TVI ou na SIC (honra feita à isenção dos jornalistas de Lisboa da RTP), aconselho, experimentem um Jorge Baptista ou um Valdemar Duarte.  Não julgará o Zé Neves que esse tratamento acintoso da parte de jornalistas com audiências nacionais  deveria ser veementemente condenado enquanto parte tácita do fanatismo que envolve o futebol? Não achará o Zé Neves que seria importante existir um jornalismo menos investido em potenciar ao absurdo os árbitros os casos do jogo? (bem sei que os árbitros se esforçam).

Portanto, mais do que querer falar do jogo ou da violência apeteceu-me falar do modo como outros o estavam a fazer: mais do que metacomentário, uma reacção (nada de intelectualismo, só fanstismo). Mais acuso: é minha convicção que a linha informativa seguida por muitos órgãos de comunicação durante a semana foi de molde a alargar possibilidades informativas em torno do jogo - a violência surge nessa geografia mais ampla.

Quanto à expressão "jornalistas de Lisboa", será necessariamente redutora, concedo, mas o Zé Neves fará o favor de a distinguir de qualquer regionalismo com conotações raciais - a este respeito, não posso deixar de indagar até que ponto o resultado do jogo terá sido a testemunha próxima de uma deriva retórica na pena do Zé Neves. E nem digo isso por ser um africano de Coimbra - da margem norte, atenção -, mas porque, de facto, há uma correlação entre a concentração dos meios de comunicação social em Lisboa e o viés reconhecível em muitos dos jornalistas de desporto com audiência nacional. That simple.  Falar do jogo e da violência é também falar daqueles que, dentro da indústria mediática do futebol,  têm o monopólio da violência legítima.

Publicado originalmente no Arrastão

Lara

Para Lara, ser chamada à razão é o mesmo que outrora o toque para feriado: uma sentença e não um chamamento.

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Retráctil

O carácter retráctil dos sentimentos é uma fatalidade que alguns aprenderam a tornar em faculdade. No entanto, a fatalidade maior está, precisamente, no carácter não retráctil das faculdades pós-românticas adquiridas.

















Constance Collier por Alexander Bassano, 1897

A Mecânica da Ficção


Já acrescento que o conceito de "terceira pessoa próxima" tem todas as condições para migrar da crítica literária para a crítica da monogamia estrita.

3-1

Estou farto de ouvir dizer que o Jesualdo é um mal-amado. E o meu amor não vale nada?