A sombra de uma dúvida


A Sombra de uma dúvida, Alfred Hitchcock (1943)

O Benfica está a jogar o melhor futebol que vemos em Portugal desde há muitos anos. Assim sendo, apesar da benesse de um investimento de 33 milhões de euros, jamais me passaria pela cabeça tirar mérito à prodigiosa máquina montada Jorge Jesus. O que Jorge Jesus não merecia é que Ricardo Costa, o narciso que preside à Comissão Disciplinar da Liga, colocasse este campeonato sob suspeita. Como bem denunciava Costa Andrade há cerca de um mês, no seu afã justiceiro, polvilhado da mais refinada hipocrisia, Ricardo Costa não teve problemas em atropelar regras elementares do Direito. Com a dramática redução de pena de Hulk pelo Conselho de Justiça da FPF, a senda persecutória de Ricardo Costa fica a céu aberto. Até porque HUlk estava a fazer uma época risível, o Benfica de Jorge Jesus, o Benfica de Aimar, Cardozo, Saviola, Di Maria e Javi Garcia não precisava dito. E provavelmente não merecia a sombra da dúvida que inevitavelmente ficará pairando sobre o campeonato 2009/2010.

Maradona

Custa-me a crer que alguns dos meus contemporâneos estejam dispostos a embarcar na veleidade de comparar  Messi a Maradona. Bem dizia Foucault quando perorava sobre o vício de cada tempo para se achar no epílogo da história:
"[É como se constantemente] vivêssemos num presente de ruptura, num momento grandioso seja de completude, seja de decadência, e assim em diante. Choca-me o viés de solenidade com que o discurso filosófico reflecte  sobre o seu tempo."
Onde está "discurso filosófico" na minha tradução apressada, leia-se "bola". Ao pensar na hipótese de Foucault, sou obrigado a reconhecer que talvez tenha usado aquele mesmo viés para defender a incomensurabilidade de Maradona e Pelé. Não obstante, talvez pela funda consciência de que o meu tempo já passou, cá estou em defesa de Maradona, desta vez para impedir que  malta do "hoje em dia" se arvore em testemunha do "melhor de sempre".

Se acaso desprezo os que intentam comprar Maradona com Messi - que desprezo - tenho a temperança suficiente para pôr a mão na consciência fazendo notar me movem sobretudo razões emocionais. Não consigo conceber a comparação (ou melhor, concebo quando me obrigam a abjurá-la veementemente) entre Messi, para quem ser genial tem piada e é divertido, e Maradona, um praticante do abismo existencialista, alguém que instrumentalizou o génio para fugir ao pavor cénico de não conseguir vencer tudo sozinho.

Até ver, o génio de Messi consiste em criar a ilusão de que actua numa equipa de jogadores triviais (quando na verdade sempre viveu luxuosamente rodeado de Xavis, Iniestas, Henrys, Ronaldinhos, Ibrahimovics).
Já o génio de Maradona produz uma alucinação bem mais radical: cria a ilusão de que um só jogador pode levar uma equipa (realmente) trivial a qualquer vitória (quando, na verdade, todos sabemos que isso só é possível quando esse jogador se chama  Maradona - Nápoles, México 86 e Itália 90 - se o árbitro não tivesse inventado aquele penalty).
Como diziam os antigos, o passado (aquele em que  Maradona viveu) é um campeonato diferente.

E se de repente o seu mais que tudo o convidar para um concerto à hora do jogo?



Via Joanasnuts.

Mourinho em 4 segundos



A relação entre Materazzi e o Senhor do Bonfim poderá ter sido prejudicada.

O som e o sentido

"Estás cá?"

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Beckham


A lesão de David Beckham no tendão de Aquiles, ontem, no jogo entre o Milão e o Chievo, representa o adeus ao mundial e, muito provavelmente, a despedida do futebol de topo (regressará, talvez, ao LA Galaxy ). Há quem faça contas à possibilidade de recuperação a tempo da África do Sul, mas parece não haver grande margem para ilusões. No meio da tristeza -  que também é minha já que sempre lhe admirei o futebol mau grado o gosto para esposas -, fica a ironia: poucos dias antes da lesão que lhe sentenciaria a carreira, Beckham  regressou a Old Trafford - onde não jogava desde foi vendido ao Real Madrid em 2003. Quando entrou em campo, aos 63 minutos,  foi monumentalmente agraciado em rara expressão de memória  a um adversário do momento (vídeo em baixo). É difícil rever as imagens sem um arrepio.

O que ninguém nos tinha dito é que se cumpria o último desejo de um condenado.



Versões de um mesmo mito

Precious
Lee Daniels, 2009


El Niño de Vallecas (Francisco Lezcano)
Diego Velázquez, 1643-1645

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Celibato e pedofilia

"Papa reafirma carácter «sagrado» do celibato dos padres"
À falta de outros argumentos para acabar com o absurdo do celibato, o rosário de escândalos de pedofilia deveria ser suficiente para que o Vaticano se decidisse a assinar o decreto. Se é verdade que o celibato está longe de ser causa única na relação entre sacerdócio e pedofilia, custa perceber que tanta sapiência iluminada falhe em perceber esta coisa prosaica: a repressão sexual de adultos investidos de uma especial autoridade moral - reconhecida junto das comunidades de fé - é um perverso "facilitador" do abuso de menores.

Podemos tentar compreender que a igreja queira manter as suas concepções de pureza, que queira consubstanciar a dedicação ao evangelho na capacidade de renúncia. Mas ultrapassa o admissível que o papado finja não perceber que a celebração da "pureza" dos celibatários se tem feito à custa de demasiadas "vítimas civis", que finja não perceber que quando a renúncia encontra os seus limites tende a escapar-lhes sob a forma de perfídia. As vítimas de pedofilia são um recorrente memorando do alto preço a ser pago pelo capricho do celibato.

Publicado também no Arrastão.

Um blog com um suave perfume a Hirudoid




"Recuperado" de uma entorse e de uma lesão na virilha, regresso hoje aos tacos do Martim de Freitas. Se marcar um golo, em vez de correr para os braços do Rudolfo Moura - esse mercenário - irei agradecer à mão que pacientemente me massajou. Nota mental: sou dextro.

Jesualdo

Recebo mensagens de amigos que me querem convencer a deixar cair Jesualdo Ferreira. Estimo-os, mas só posso concluir  que não percebem o significado de "aconteça o que acontecer". A lealdade assim expressa carrega gratidão, carrega convicção no retorno dos momentos de glória, mas carrega também a crença no valor imanente à partilha do fracasso. Quem não percebe isto é, por defeito, um vencedor.

Revisionismo histórico

E o Oscar vai para:
Tarantino´s Inglorious Basterds.


Versões de um mesmo mito

"Tu encostas ao incêndio um fogo diferente"

Gastão Cruz, Escassez


"Tudo desaparece sob o fogo"

Gastão Cruz, As Aves

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Ler

O artigo de Costa Andrade sobre as decisões de Ricardo Costa (castigos de Hulk e Sapunaru).

"Contra a interpretação"

Se aparentemente Yannick Djaló é emasculado e infantilizado de cada vez que é chamado "Floribella", tal apodo, no fundo, mais não faz do que questionar o prestígio de uma masculinidade que se realiza com Luciana Abreu, alguém cuja persona permanece fortemente vinculada ao recreio assexuado de um conto de fadas. Djálo e as mamas de silicone inscrevem Luciana Abreu numa idade adulta que a memória de Floribella insiste em negar-lhe. Há, portanto, uma história de resistência no modo como  o "Adeus Floribella", ostensivamente celebrado nas poses ousadas da FHM, continua por cumprir (enquanto hipótese hegemónica a la Gramsci).  Que Djaló festeje os golos como se estivesse no parque infantil com o Miguel Veloso é uma deliciosa inflexão da qual não consigo dar conta antes das 14:00.


1986


Da ingratidão



Um tri-campeão que nunca conseguiu menos que os oitavos de final da Champions e que vê a sua equipa ser depauperada das  mais valias a cada Verão,  merecia um pouco mais de respeito. Não digo dos adeptos dos outros clubes - após 3 anos de olímpico deserto, têm todas as razões para o querer ver ao longe. Mas, francamente,  não deixa de ser triste ver tanto portista cair na tentação populista ou, pior, na desmemória  de Del Neris, Octávios, Couceiros, Fenrnandez e CoDriaanses (eu sei, é triste mas o Mourinho não volta). Gostam de boas conferências de imprensa? Consolem-se com o Quique no youtube.

Muito bem. Demos de barato que o  Benfica está melhor - esqueçamos até que está fora da Taça de Portugal, que beneficia da  contenção de esforço de quem se pôde passear pela Liga Europa, esqueçamos ainda que tem contado com inefável apoio de Ricardo Costa na fragilização cirúrgica de Porto e Braga - o castigo de Vandinho é uma pulhice sem nome).

Mas ponderemos , este ano o Benfica investiu 33,2 milhões de euros enquanto que o Porto teve franco saldo positivo às custas - pagas, claro, por Jesualdo -  das saídas de Cissoko, Lisandro e Lucho. Perante isto, caros portistas, tenham juizinho e façam o favor de  não sonegar, do alto da vossa ingratidão, o mérito a quem já tanto vos deu. Da minha parte, aconteça o que acontecer este ano, Jesualdo continua a ser  o meu treinador.