Essie Jain - "Understrand"



"(...) the storms resounding in the west"

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Versões de um mesmo mito

Isaías (o do Velho Testamento falando com Deus): "Eis-me aqui, envia-me a mim".
Isaías (o de Cantanhede falando com Lara): "Posso dormir cá hoje?"

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O som e o sentido

"Tens a certeza?"

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Trasmissões televisivas de clubite



Com raras excepções, a narração de um jogo de futebol na TVI ou na SIC ilustra com acuidade aquilo que comummente se designa por suplício. Facto prosaico facilmente explicável, primeiro, pela menor qualidade dos intervenientes quando comparados, por exemplo, com os elevados padrões oferecidos pela RTP (já a Sporttv demora a perceber que não basta cicrano ter um passado ligado ao futebol para conseguir estar 90 minutos ligado ao comentário de um jogo), em segundo, pela instrumentalização do relato dos jogos para a publicitação dos programas que se seguem na grelha (enquanto o Aimar se dirige isolado para a baliza sai um oportuno teaser sobre o Caminho das Índias).

Como se isto não bastasse, e longe de mim sufragar a expressão acusatória "jornalistas de Lisboa", o facto é que almas conspirativas como esta que vos fala não conseguem deixar de reparar num certo "viés regionalista" comum aos narradores de serviço nas estações em apreço - e quem teve o azar de ver/ouvir o Belenenses-Porto de ontem saberá do que estou a falar. Sinceramente, a libido clubística daqueles senhores é tão exuberante que deve incomodar o mais anti-portista dos espectadores .

Crítica fácil, já sei. Há que propor soluções, concordo. Pois bem, com o intuito de uma fachada de isenção, proponho à TVI que ministre uma acção de formação aos seus narradores de futebol, consistiria esta em três módulos: 
I  "Como disfarçar a extrema alegria que nos assalta quando o Porto está a perder";  
II "Como disfarçar a extrema tristeza que nos assalta quando o Porto ganha";  
III "Como lidar com a tristeza continuada".

Publicado também no Arrastão.

Agassi

Brooke Shields convenceu-o a deixar a peruca, Steffi Graff convenceu-o a deixar as drogas. Há homens que buscam nas mulheres a mão materna que os aprimore, há homens que se desgraçam para que as mãos maternas tenham o que lhes fazer.



As minhas entradas estão a dar de si (II)

Entre o acne tardio e o prenúncio da calvície passei por um período vagamente sexy. Foram vinte minutos memoráveis.

Um apelido muito disputado


Rúben Micael Freitas da Ressurreição.

Haiti

"Custa-me, mais uma vez, constatar que a injustiça continua a ser grande e que catástrofes com dimensões idênticas por vezes têm consequência menores (basta que aconteçam em países ditos "avançados"), outras dizimam populações inteiras. Mas apraz-me perceber que cada vez mais os cidadãos do Mundo se unem, estão alerta, têm iniciativa e agem." Fernando Nobre
Na verdade, vejo-me hesitante entre o "puro lamento" (revolta com o absurdo) e a politização de uma espécie de "culpa do sobrevivente" (a consciência de como a assimetria na distribuição dos recursos determina o grau de vulnerabilidade ao inesperado).

Podem ver aqui como contribuir para a campanha de Emergência da AMI.

(Publicado originalmente no Arrastão)

Catenaccio

A desatenção civil (civil inattention) torna possível a vida numa realidade urbana, dizia-nos Erving Goffman. Como perceberá facilmente  quem deambule em contexto urbano, a desatenção permite uma  demarcação entre o estranho e o íntimo, demarcação essa que acaba por constituir uma sábia defesa contra as multidões que povoam  as ruas. Mas a desatenção que define o estranho por omissão também pode extrapolar funções convertendo-se num excelente mecanismo reflexo contra todas as  formas da intimidade. Não é excessivo afirmar que a dita revolução interior se refere, na maior parte dos casos, à migração da  desatenção civil  para o  leito povoado por uma multidão de 2.

Adebayor



Na imagem vemos Emmanuel Adebayor após o ataque da Frente de Libertação do Enclave de Cabinda. Ao acompanhar as notícias reparo como, a esta distância, acabo por dar maior importância a todo este incidente precisamente em função das lágrimas de Adebayor. Haverá nisto, talvez, uma empatia selectiva para com as vítimas do terrorismo, no caso, um sinal evidente da comoção acrescida incitada pelo "efeito celebridade". Não sem absurdo, o facto é que a fama de Adebayor acaba por relevar em dois sentidos: porque a circunstância de o ver jogar há anos confere-me uma sensação de familiaridade, no fundo dá-me a presunção de que o conheço; porque a súbita vulnerabilidade de um "herói mediático" acaba por encenar mais claramente a nossa própria vulnerabilidade aos contingentes desmandos da perfídia.

O triste facto é que a FLEC terá conseguido os seus objectivos: a selecção do Togo prepara-se para regressar a casa, a CAN dificilmente será lembrada por outra coisa e a publicidade pretendida foi mais que alcançada.

Comentários

O blog está de momento sem serviço de comentários porque o Haloscan descontinuou os serviços (ainda me tentaram extorquir dinheiro, a lata). Tentarei activar outro sistema (para já a activação dos comentários do blogger dá mostras de não resultar por alguma razão html que desconheço) e depois, se possível, tentarei importar os comentários do velho haloscan (tenho-os em ficheiro). Só para assegurar que continuo um adepto dos comentários não moderados. Entretanto: deumdesejo[arroba]gmail.com.

As derivações de um traidor


Foto: Francisca Moreira

"Futebol em verbos: as derivações de um traidor",  Maca - magazine de arte de Coimbra & afins, nº 7/8: 34-42.
Proverbialmente convertido ao Dasein de Martin Heidegger, Richard Rorty instava-nos cultivar a capacidade para questionarmos ao espelho: “será que nasci na tribo errada?” A questão, alegava, deveria tornar-nos mais hábeis para celebrar as escolhas face aos constrangimentos da cultura de partida. Ámen. Ainda assim, importa amainar os festejos: até que ponto será tudo exultante nessa capacidade para nos desenraizarmos em favor das afinidades eleitas no curso de uma vida? Afinal, a traição, bem o sabemos, é uma das modalidades de uma escolha liberta de constrangimentos. Quando me perguntam como posso ser um adepto tão ferrenho do F. C. Porto, quase esquecendo o clube dos inícios, a Académica, não consigo deixar de lamentar uma traição que perpetrei por óbvios sonhos de grandeza. Tanto quanto a capacidade de abjurar as origens em favor das opções, a fidelidade à tribo em que se nasce também pode ser uma virtude. Desgraçadamente não a pratico. (...)

Livro de 2009

2009 veio provar à saciedade que sou uma besta preguiçosa, ainda assim, se não me consigo insultar com a veemência devida é apenas porque lá consegui fechar o ano com a última página deste livrinho.



Pela minha cabeceira (metáfora pifia  até porque pouco leio na cama, ou alhures) passaram livros que fui acabando com desprezo, desprezo por saber que os estava a usar em canzanas pouco sentidas para procrastinar o Moby Dick, volume vagamente intimidador - pelo "inglês técnico" dos baleeiros de Nantucket, pelo enredo ostensivamente indiferente ao que seja prender o leitor, pela constatação de que não podemos despachar parágrafos sublimes atrás de parágrafos sublimes sem a amargura da culpa -, volume onde o êxtase só se consegue com cansaço, primeiro, e onde o cansaço se torna, depois, a condição do êxtase: o sacrifício e perseverança  implicados na empresa do Pequod não se entendem sem a pele tisnada pelo candeeiro, do mesmo modo, a obsessão lunática  de Ahab carece ser compreendida  por alguém suficientemente alienado e egocentrado para levar a sua avante, ignorando - como Ahab ignorou o apelo do capitão do Rachel - chamadas de telemóvel onde um amigo nos poderá estar a reclamar nalguma vala (ou, o que é pior, solicitações laborais). Com bom carácter, com um apurado sentido das prioridades, com a capacidade de ir organizando o tempo, das duas uma, ou fracassamos em ler o livro ou lê-mo-lo como quem executa mais uma canzana, épica talvez, mas pouco sentida.

Pela oferenda, obrigado e. 

A putrescência do Arrastão



Parece que o Arrastão procedeu a um alargamento. Naturalmente, junto-me aos protestos: 4 caixas de óculos em 4 contratações, nenhum homozigoto em 7 XY, ninguém com perfil para atirar com uma torre de Belém às fuças do regime - com este pujante rosário de diversidade não me surpreenderá que venham defender o multiculturalismo possível numa sociedade cujas formas de exclusão são sobredeterminadas pela vista cansada. Como se isto não bastasse, a dispersão geográfica deste septeto mal amanhando parece ter sido pensada de molde a evitar um debate crítico franco, manobra de diversão anti-democrática que poderá sobrecarregar financeiramente os seus detractores; possivelmente terão que juntar o preço das portagens ao já elevado custo das munições (não dedutíveis no IRS). Enfim, depois da Ruth Marlene na Playboy parece tornar-se límpido que 2010 esgotou a sua capacidade de promessa - aliás, a irmã dela foi outra desilusão.

P.s. Em boa hora chegam  à costa o  Córtex Frontal e o Albergue Espanhol. Bem-vindos.

"Aguiar Branco"

Via Estou a ficar sem rede


Emissário de um rei sobejamente conhecido, o nome dele, Aguiar Branco, também não é importante. A transubstanciação da homofobia em criatividade conceptual não é milagre que nos deva comover.

Lhasa de Sela (1972-2010)


Lara

De flagelo em flagelo, Lara dava-se a sucessivas paixões não porque recusasse verter as desventuras numa medida cautelar, não porque vivesse a seu modo, generoso, a oposição entre romantismo e ponderação. Onde uns vissem o voluntarismo ingénuo de uma lírica estava, sim, um cepticismo tutelar. Para Lara a putrescência romântica é ansiosamente esperada como fatalidade, Lara pressente o pouco tempo que lhe resta para os amores, Lara pressente o domínio iminente dos anti-corpos que foram sendo incubados por cada mão que lhe ajeitou o cabelo.

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O som e o sentido

"Não sei se estamos a falar da mesma pessoa."

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