"Boa noite e boa sorte"

Publicado na Liga Aleixo


As pessoas no restaurante mexicano divertiram-se em explanações como quem visse um jogo de futebol. Não perceberam, porventura, o obsceno voyerismo montado pela Sporttv: a transmissão televisiva das deambulações existencialistas de Maicon.

O jogo entre e o Sporting e o Porto deverá partir de um de dois pressupostos: a) Maicon conhece os romancistas russos e vive as angústias de algumas das suas personagens através de um processo inconsciente de imitação; 2) os romancistas russos acoitaram com tal perspicácia os baixios e euforias da alma humana que se tornou possível assistirmos, em 6 de Dezembro de 2010, Lisboa, Estádio José Alvalade, à recapitulação daquilo que se passou com Rodion Romanovich Raskolnikov em São Petersburgo há bem mais de um século. Sem querer negligenciar o domínio da nova geração de centrais brasileiros da obra de Dovstoievski, estou francamente inclinado para a segunda hipótese.

Quando Valdés surge isolado perante Helton há um momento em que Maicon tem a opção de tentar tirar a bola em esforço ou de tentar dar uma panada no Valdés sem esforço nenhum. Talvez porque tivesse querido manter-se dentro do império da lei, Maicon limitou-se a dar um toque na bola que permitiu enquadrar o chileno perante a baliza melhor do que o próprio seria – e é – capaz de fazer. Sofrido o golo, ficou em Maicon a consciência de ter errado colossalmente sofrendo apenas o castigo de lhe pesar na consciência o golo que poderia valer a derrota ao Porto. Quando Falcão empatou Maicon sentiu enfim que estava em condições de desfazer a clássica disjunção moral: “pesa-me na consciência aquilo que a lei dos homens jamais conseguirá punir, e o peso na consciência não é senão o sentimento de uma insuportável impunidade”. Como o destino não lhe desse oportunidade, Liedson foi atraído ao engodo da pressão alta, ganhou a bola e Maicon pôde enfim matar em praça pública a velhinha que Raskolnikov guardou para a intimidade. Maicon saberá que o crime público tem a sanção pública suficiente para libertar as intimidades da uma flagelação que seria, assim, a todos os níveis, uma redundância disparatada. Virado que foi o Liedson, conseguida que foi a expulsão, Maicon pôde ir tomar banho com a noção de que a perda de titularidade para o Otamendi seria paga mais do que suficiente.

Se Maicon voltar a ser um central com futuro é porque cumpriu o seu tempo. Terá a cabeça limpa da espisteme da culpa e encontrará um ambiente favorável à redenção. Há que jogar com as ironias dos paradigmas culturais que pisamos: de Valdés para Liedson Maicon errou melhor porque socializou o erro de uma forma mais franca. Um central que dorme descansado a expensas da sua reputação só nos pode dar garantias de futuro.

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