Jornada 9 - Académica meu amor

Publicado na Liga Aleixo

Sábado passado fui assistir à Tempestade com Varela no papel de George Clooney. Por um sortilégio que não vale a pena descrever em pormenor (uma amiga minha é irmã do sócio gerente de uma empresa da cidade que recebe convites para os jogos com frequência e não havendo interessados nos altos quadros da dita empresa os amigos das irmãs dos altos quadros poderão ser bafejados por um convite com direito a vinho e a arroz de pato) tive o ensejo de assistir ao jogo comodamente instalado entre os canapés da bancada vip. Vips propriamente ditos vi o Pinto da Costa, a quem fiz questão de segurar a porta para passar aproveitando para um leve aceno da cabeça como quem diz “Confie, o James Rodriguez é uma cartada de génio, senhor presidente". Também lá estava o  Fernando Gomes com ar de quem deve ter algum aproveitamento entre o mulherio nostálgico dos goleadores dos anos 80. Entre os anónimos, além de umas pessoas que conheço da charcutaria do Pingo Doce, lá estava o Paulo Bento. (...)


Mas deixemos os queijinhos de cabra e miudezas e vamos ao pensamento que prende o estimado leitor a estas divagações espúrias: como é que se sente um pessoa com um cadastro ligado à Académica perante o assalto de um clube vindo da cidade que tem a pior estação de expressos a leste de Greenwich (não me enganei, é darem a volta ao globo)?

Nascido em Coimbra vivi quase toda a minha vida a menos de 50 metros do Estádio do Calhabé (pouco se me dá que lhe tenham mudado o nome, em todo o caso também continuo a chamar Cat Stevens ao Yusuf Islam e não pense alguma ex que com esta idade vou passar a ligar ao apelido de casada - nas minhas memórias chamam-se sempre Nefertiti Sena Martins). Como não tivesse quem me levasse à bola, arranjei maneira de me socializar no espectáculo: ingressei na equipa dos apanha-bolas. Quer dizer, ingressei não será o termo, digamos que me tornei um habitué. Duas horas antes do jogo lá estávamos sentados junto à entrada dos jogadores. O chefe dos apanha-bolas, ligeiramente mais velho que o resto da criançada, chegava entretanto. Pouco antes do jogo íamos todos para um balneário equipar e ouvíamos a habitual táctica: “não se ponham à frente da publicidade porque os patrocinadores pagam fortunas para aparecerem nos resumos”, “quando a Académica estiver a ganhar (raramente acontecia) não vale a pena devolverem a bola com pressas de maior”, etc. No intervalo, em vez de massagens e conselhos do treinador, tínhamos direito a sumo e pipocas: lá ficávamos no nosso mini-balneário – a arrumação das bolas e dos pinos - a saborear o justo preço do nosso suor. Foi nessas comissões de serviço na pista de tartan que pude testemunhar o insigne futebol de Lewis e Latapy, jogadores com que Tinidad e Tobago contribuiu para apaziguar o trauma geracional causado pelo caso Ndinga.

Na explicação da traição de Judas, Slavoj Žižek socorre-se de uma ideia valorosa que sintetiza na citação de John Le Carré: "o amor é tudo o que ainda podemos trair". Invertendo, só pode haver traição quando existe uma relação sentimental a sacrificar. Quando não, tudo o que existe é calculismo e logro – deslealdade porventura, mas sem os pináculos da traição, sem o agonismo de alguém que violenta o que deveras sente. Perdoem a elegia retorcida, o facto é que a Académica é o único clube que alguma vez pude trair.

Proverbialmente convertido ao Dasein de Martin Heidegger, Richard Rorty instava-nos cultivar a capacidade para questionarmos ao espelho: “será que nasci na tribo errada”? A questão, alegava, deveria tornar-nos mais hábeis para celebrar as escolhas face aos constrangimentos da cultura de partida. Ámen. Ainda assim, importa amainar os festejos: até que ponto será tudo exultante nessa capacidade para nos desenraizarmos em favor das afinidades eleitas no curso de uma vida? Afinal, a traição, bem o sabemos, é uma das modalidades de uma escolha liberta de constrangimentos. Quando me perguntam como posso ser um adepto tão ferrenho do F. C. Porto, quase esquecendo o clube dos inícios, a Académica, não consigo deixar de lamentar uma traição que perpetrei por óbvios sonhos de grandeza. Tanto quanto a capacidade de abjurar as origens em favor das opções, a fidelidade à tribo em que se nasce também pode ser uma virtude. Desgraçadamente não a pratico.

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