Jornada 10 - "Hulk, faz-me um filho"

Publicado na Liga Aleixo

Por uma política que insiste na valorização de jovens promessas sul americanas a bem dos fundos de investimento, Jorge Jesus foi privado de ver entrar no plantel jogadores feitos que lhe permitissem emular os níveis competitivos da época anterior. Errou ao colocar David Luiz na esquerda (perdeu um central e um defesa esquerdo), e errou, mais ainda, ao deixar Saviola no banco fazendo avançar Aimar para o seu lugar (perdeu o segundo avançado e o playmaker). Apesar de tudo, pelo futebol que fez carburar no Benfica, por ter inventado Fábio Coentrão como defesa esquerdo, Jesus tem crédito para errar e impressiona ver a ingratidão com que tantos os benfiquistas o têm tratado, apenas porque incapazes de lidar com as condições extremas de humilhação a que foram sujeitos pela superioridade do futebol de Hulk, Beluschi, Falcão, Varela e companhia (a hegemonia do Porto nos últimos 20 anos tem muito mais a ver com as trivelas do Quaresma do que com outra coisa qualquer).

O que fica do legado de Jesus da época passada é um imenso mérito desportivo e uma sôfrega vontade de humilhar os seus inimigos. Lembramos o gesto fanfarrão lembrando a Manuel Machado os 4 secos que o Nacional já levava, lembramos também a flash interview após os 8-0 contra ao Setúbal. Nessa ocasião, Jesus encomendou o despedimento de Carlos Azenha lembrando que as suas equipas agradecem aos treinadores adversários que joguem com 3 centrais. Nada disto foi estratégia ou mind game a bem do clube, apenas vendeta pessoal.

Reconheço que a humildade, sendo um valor estimável na vida social, pouco condiz com as exigências do desporto competitivo. O desporto competitivo reclama por aquilo a que Foucault chamava “regime de verdade”, o poder de criar discursivamente a realidade que almejamos habitar. A capacidade de criar um regime de verdade através de profecias que persuadam a realidade, como quem diz “sei que para o ano vamos ser campeões”, distingue-se contudo da fanfarronice.


Não por uma qualquer ordália moral, que distinga os bons dos maus, mas pela mera sustentabilidade do regime vitorioso que se propala. Se sabemos que podemos estar no poleiro por um curto espaço de tempo convém não cantar demasiado alto; e isto não é humildade, é sapiência. No entanto, cabe igualmente distinguir a sapiência da sonsice própria daqueles que, incapazes de sequer imaginar um regime vitorioso que lhes sirva a pertença, forjam uma malga entre superioridade moral, fatalismo e despeito pelos vencedores.

Quando vemos Hulk festejar o golo em tronco nu juntando os punhos para fazer os trapézios crescer à maneira do herói que lhe dá nome, convém lembrar que houve não pouca humildade e humilhação no seu percurso. Tudo começou com o nome que os pais lhe deram e iria continuar quando aos 17 anos foi dispensado do Vilanovense tendo que regressar ao Brasil por falta de dinheiro. Uma pessoa destas tem que acordar ao espelho e repetir “Givanildo, tu um dia vais fazer em fiapos as defesas da Europa”. Depois de emigrar para a segunda divisão do Japão e de ser resgatado para jogar no Porto teve a infelicidade de ficar 3 meses sem jogar por decisão do Conselho disciplinar da Liga. A decisão seria revogada mas já era tarde para Hulk que, após ter sido convocado por Dunga se viu definitivamente afastado do mundial. Mais, teve que ir sendo consolado pela condescendência dos adversários que insistiam em nos garantir que o Porto até jogava melhor sem o Hulk.

Depois vieram os arranques de Domingo. Definitivamente, o futebol não é tanto sobre a humildade mas sobre como resistir à humilhação - sem se tornar fanfarrão, sonso ou dado ao despeito pelas competição que se venha a perder. Para os benfiquistas resistir à humilhação é lembrar que devem muito a Jesus, treinador com quem partilharam alegrias, vitórias e uma irresistível tendência para a fanfarronice.

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