Victor Baptista e o interesse público

Ao contrário do que muitos pensam, defender o bem público não é achar que o sector privado é a encarnação do demo nem que o Estado é a mãe de todas as virtudes. Defender o bem público é considerar que o bem público deve estar ao serviço do interesse público e não de interesses particulares. Esses interesses particulares podem ser vários e não se prendem sempre com os malefícios do  grande capital - embora aconteça frequentemente.

Por exemplo, quando as parcerias público-privadas favorecem despudoradamente as empresas privadas temos dois interesses particulares em jogo: o interesse do grande capital e o interesse dos governantes movidos pelas amizades fraternas - sedimentadas na recruta das jotas - ou pelo retorno que esperam obter quando as sondagens começarem a cair.

Quando Victor Baptista explica como o PS pôs à sua disposição 3 cargos em empresas públicas sabemos que não basta pedir mais Estado, sabemos que não basta pedir que a decisão política esteja a salvo das manipulações de acumulação de capital. Também é preciso pedir um Estado a salvo de quem o governa nestes termos, com os vícios corporativos do regime anterior, com compadrios da sociedade de vizinhança e com o deslumbramento do próximo topo de gama.

Salvar o Estado dos interesses partidários, dos interesses pessoais dos governantes, do interesses pessoais dos amigos dos governantes, dos interesses pessoais da vizinha do médico, dos interesses pessoais da sobrinha do Vereador da Câmara é, no limite, um desígnio de esquerda. Os neoliberais não defendem uma ideologia, defendem os interesses particulares, os seus, quando são inteligentes, ou os interesses particulares dos grandes capitalistas, quando são apenas papalvos. A esquerda que defendesse a força do Estado dos interesses não seria menos papalva. Era bom termos um Estado decente para atirar nas fuças do grande capital e dos seus partidários. Um estado capaz de defender o interesse público, capaz de virtude suficiente para abjurar a corrupção imposta pelos ditames da acumulação privada é, hoje em dia, uma utopia de esquerda.

Publicado no Aparelho de Estado.

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