A blogosfera ainda nos comove

"A última coisa que se espera de um amigo é que nos espete uma faca nas costas."
Esta frase expressa uma ideia ingénua e tautológica: só um amigo nos pode atraiçoar. Ao contrário do que se tem feito corrente, o que César sentiu ao ver  Brutus não foi a desilusão de perceber o seu estimado filho entre os  assassinos, mas o contentamento de ter uma injustiça a  lamentar na hora da morte. O mais terrível dos fins é morrer de uma morte matada que nos parece tão justa e inevitável como uma morte morrida; mas deixemo-nos de metafísicas, na morte ou no squash magoa sempre merecer o que de mau nos acontece.

É por essa razão que o anúncio da morte do Avatares pelo querido JPT me enche de gáudio. Não que a morte tenha sido prematuramente anunciada, provavelmente  aconteceu aquilo que ocorre com frequência noutras latitudes: os mortos indevidamente chorados continuam a viver, seja por capricho, seja pela incapacidade de se conformarem com uma incompletude ritual. Explico o gáudio.

Primeiro, trata-se de fogo vindo de dentro da  trincheira afectiva que fui construindo nisto dos blogues. O JPT é a pessoa certa para termos ao nosso lado numa situação de combate, é um tipo a quem eu pediria graxa para as botas, sardinhas enlatadas e uma musiquinha no violão para adormecer. Mais: na ausência de inimigos teria sempre por garantida a euforia do perigo iminente tal é a reactividade explosiva do JPT à mínima brisa. Ora, se é verdade que a guerra é já um absurdo, fogo vindo de dentro da trincheira é das coisas que mais nutrem a a indignação metafísica, o vazio de sentido e o egocentrismo trágico. Narrativas que, como sabeis, muito prezo.

Em segundo lugar, o JPT ataca-me com a garantia de que eu terei com o que me defender - esta é a minha suposição mais profunda. Ou seja, é propositadamente injusto na argumentaria com medo que  uma estocada mais certeira me deixe realmente por terra. Que diz então o JPT? Diz que ao citar o texto do Ferreira Fernandes me filiei no mundo dos colunistas armados ao pingarelho ao mesmo tempo que interrompi o longo coito com os comentadores blogosfériscos, fundamento primeiro da dinâmica que alimenta a blogosfera - nisto concordamos. A síntese histórica que o JPT vê representada na citação da crónica do Ferreira Fernandes deve-se ao facto de o dito texto não ser particularmente simpático com o voluntarismo dos comentadores. Comentadores esses que, segundo FF, frequentemente comentam um texto que não perceberam ou, o que seria mais sintomático, comentam exactamente por não perceberem.

Não discuto a substância dos argumentos, mesmo considerando o absurdo clubístico e o primarismo opinativo a que os posts de futebol tendem a ser reduzidos. A questão irónica é que cito o Ferreira Fernandes numa rubrica ("A blogosfera ainda nos comove") criada para dar eco aos comentadores, melhor dizendo, para dar eco aos feedbacks que os posts vão recebendo. Assim, contra qualquer elitismo que o JPT aduz, nessa mesma rubrica tinha citado, até então, dois "comentadores" olimpicamente anónimos (O Daniel e o Gervásio). Portanto, como se percebe, a valorização do feedback pouco cuida de distinguir autores de comentadores. Mais, ao chamar a essa rubrica "A blogosfera que ainda nos comove" faço uma incursão nostálgica pelo tempo em que a blogosfera era intensamente alimentada pelo intertexto: diálogos e conversas que geravam novos textos e novas conversas. A mera existência deste post é prova de que a crónica de Ferreira Fernandes faz parte da blogosfera que me comove. O mesmo se aplica ao post em que, falho em convicção, pleno de nostalgia, o JPT anuncia a boa morte do Avatares.



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