Maltrapilho

Não gosto de comprar roupa e fatiga-me a mera ideia de ter que me vestir para sair de casa. As negociações acerca do estilo, combinações de cores, tecidos engomados e quejandos que enchem a cabeça dos peritos em talões de troca não me podiam ser mais alheias e creio que, inevitavelmente, cultivo alguma distância crítica em relação a quem gasta fortunas entre montras e provadores de roupa. Nada grave desde que não me peçam ajuda e que não me venham tentar vender a noção de uma engenharia dos decotes subsumida aos ditames glamorosos do corte e costura: é o "corte" da mama que se deve celebrar e não as transparências que a fazem aparecer. Poderá interpretar o caro leitor, com uma acuidade que não deixará de me surpreender, que este que vos escreve não podia ser menos vaidoso na relação que estabelece com os têxteis, que nalguma medida se identifica com a primeira vaga da revolução industrial encetada, como se sabe, para ajudar as pessoas a vestir roupas para o tempo lá fora. Não tenho como rebater tamanha argúcia.

Mas convém um esclarecimento: a ausência de vaidade na relação com os têxteis não sulca a velha ladainha de quem rejeita a vanitas como mundanidade em nome de desígnios mais elevados, intelectuais ou morais. Talvez que na minha relação com os têxteis haja uma outra vaidade, mas não a do despojamento à intriga estética do quotidiano. A vaidade será exactamente pelo modo como entro na intriga estética do quotidiano ostentando, como declaração, o vínculo entre as agruras da vida e as pregas da camisa amarrotada. O que eu quero dizer, no fundo, é que, para determinada narrativa de estilo,  o maltrapilho não é senão a forma pública de aparição daquele que foi maltratado. A vaidade do maltrapilho é exibir as suas vestes como sinais óbvios de antiquíssimos maus tratos.
E ao lhe ver assim cansado
maltrapilho e maltratado
ainda quis me aborrecer
qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
dou um beijo em seu retrato
e abro meus braços pra você
(Com Açucar, com Afeto)

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