Jornada 5

Publicado na Liga Aleixo

Fico sempre um tanto arreliado quando um jogo me obriga a cancelar a aula de Salsa de Segunda-feira à noite. Se é verdade que não resisto às viagens de Hulk à Choupana, também é evidente que ninguém pode pensar fazer vida na América Central sem o domínio de um outro passo de Salsa, facto mais grave para uma pessoa que alimenta legítimas expectativas de ir morrer a Bogotá. No entanto, antes de deixar os meus ossos naquela terra afeita tão à mortandade, gostaria de ir beber um copo ao alpendre do Falcão, perorar longamente sobra a vitória do Porto na Liga Europa em 2011 e, no fim, receber nos braços a filha dele, na altura um mulheraço (com a tatuagem do Hulk estampada no braço) incapaz de negar a última Salsa a um velhadas que viu todos os jogos do pai.

Falto à Salsa e fico a ver o Moutinho contra o Nacional a esforçar-se para ser o meu novo herói. Tenho muita dificuldade em deificar um jogador com quem não me imagino a ver o pôr-do-sol bebendo Chicha, ou cuja filha não me desperte o desejo de dançar salsa antes de fenecer de uma cirrose. Moutinho não é esse homem, é mais o tipo de pessoa que andaria de martelo na mão a construir o alpendre para que os outros jogadores possam  receber as visitas com um mínimo de dignidade. Moutinho fermentaria a Chicha para garantir que o Falcão teria com o que me impressionar. Falamos do homem  que renegou aos sonhos de celebridade da sua geração - toda ela feita de pessoas íntimas das passerelles (Nani, Veloso, Djaló) – para poder afirmar-se como um trabalhador discreto. Algures na determinada recusa em frequentar o cabeleireiro de Miguel Veloso, Moutinho aprendeu no Sporting a ser um jogador à Porto.


No mundo do futebol, em que um trabalhador discreto mais parece um rebelde sem causa, armado em diferente, como aqueles miúdos que iam para o liceu com o caderno preto enfiado no bolso de trás das calças, Moutinho forjou o seu futuro como o Ponto dos jogadores do Porto. Ele lembra-os das falas e lembra-os de como representarem com verosimilhança a performance de um jogador à Porto, algo que lhe sai genuinamente.


Acaso a cirrose do Falcão seja mais cavalgante do que aquela que me espera na dobra de uma esquina, quem sabe gostaria de ter o Moutinho em Bogotá para me auxiliar num último copo. E paciência, que se lixe a Salsa.

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