Aisha


"O argumento de que a vida moderna assenta numa dieta de horrores que nos corrompe e a que gradualmente nos habituamos é uma ideia inaugural da crítica da modernidade ― sendo a crítica quase da mesma idade da própria modernidade." Susan Sontag
A recente capa da Time representa Aisha, uma jovem afegã barbaramente mutilada após ter fugido de casa dos sogros que a maltratavam. Percebe-se a polémica trazida pela publicação desta capa; em causa está, primeiro, a violência da imagem. Ao incómodo causado pela mutilação, pelo modo como através da empatia trazemos a mutilação para casa (para os nossos corpos, para os corpos que nos são familiares), acresce o impacto de vermos uma mutilação infligida num corpo em que reconhecemos a marca da  juventude e de uma beleza dilacerada:  "todas as imagens que exibem a violação de um corpo atraente são, até certo ponto, pornográficas" (Sontag). Na nossa semiótica,  uma imagem análoga representando uma mulher idosa teria menor efeito de choque. Há ecos deste torpor na força romântica que Allen Poe encontra  no tema da morte de uma mulher bonita, em "Annabel Lee", por exemplo:
"For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful Annabel Lee;"
Ou seja, os sonhos acossados são-no também pela imagem de uma beleza proscrita.

Em segundo lugar, a imagem colhe a nossa atenção como estandarte de um manifesto político: "O que acontece se deixarmos o afeganistão", lê-se na capa (Aisha foi recolhida por uma organização humanitária e estará em trânsito para os EU onde será submetida a uma cirurgia reconstrutiva). Não discuto o uso político de imagens e o seu papel de denúncia (fiz o mesmo num post recente a propósito das touradas), podemos é discutir, como faz Sontag acima, em que medida a exposição a imagens choque deve ser ponderada, caso a caso, sob perigo do efeito choque se ir perdendo à medida que a trivialização das imagens de horror torna o horror num trivial facto da existência.



<< Home