Jornada 3

Publicado na Liga Aleixo

Consta que há aí um realizador de cinema que acha que o Porto joga melhor sem Hulk. Antes de o atento leitor se permitir sequer a ponderar na bondade de um sistema táctico organizado para um colectivo solidário em detrimento de Hulk, um criativo indisciplinado cuja noção de passe é passar por adversários, cabe lembrar que o dito realizador considera Jorge Jesus melhor treinador do que José Mourinho.
O que se passa não é tanto a incapacidade do dito realizador para emitir juízos sobre o futebol – ou sobre tudo o que se passe num raio de 5 quilómetros de um estádio de futebol -, a coisa é mais apetecível: sempre que o dito realizador se põe a dar palpites a realidade decide escarnecê-lo. Se quisermos ser místicos isto já chegou a um ponto em que é lícito supor que o dito realizador mexa com a realidade a partir do momento em que esta - a realidade – definiu como divertimento supremo gozar com os bitaites do dito realizador. Senão vejamos: o dito realizador diz que Jesus é melhor que Mourinho e pouco tempo depois Mourinho volta a ganhar uma Champions (já agora Mourinho ganhou uma Taça Uefa na sua primeira época completa num grande, Jorge Jesus conseguiu desbaratar a Liga Europa com o Liverpool mais risível da última década). Continua. Na passada semana o dito realizador fez uma sentida elegia ao futebol do Matías Fernández, poucos dias depois, no jogo contra o Brondby, o chileno viria protagonizar uma das jogadas mais patéticas já acontecidas desde que os hominídeos assumiram a posição bípede: 4 jogadores do Sporting caminham para a baliza do Brondby só com um defesa nas redondezas, Matias conduz a bola. Suspense. O que faz o bom do Matias com 3 colegas ao lado? Aposta na sua extrema velocidade (pausa para gargalhada) e oferece um espectáculo na primeira fila os 3 colegas; uns privilegiados que tiveram oportunidade de assistir atónitos ao desamparo de Matias perante o defesa dinamarquês que tranquilamente lhe roubou a bola depois de lhe ter ganho 3 metros em duas passadas. No mesmo programa o dito realizador chamou a atenção para o modo como o Porto vinha passando bem sem Hulk. Acto contínuo: Hulk regressa e faz 5 golos em 2 jogos.

O jogo deste fim-de-semana contra o Rio Ave pode ser entendido como um manguito da realidade à leitura de jogo do realizador. Não que ele, em abstracto, não possa ter razão, a questão é que no concreto ele tem pé frio: de cada vez que proclama uma ideia só relativamente absurda ela tende a tornar-se patética no espaço de poucos dias. Pode ser que o dito realizador esteja fadado a ter razão antes do tempo: um dia todos concordaremos que Jesus é melhor que Mourinho, que Matías Fernández é um futebolista colossal, que Hulk não tem compleição emocional para jogos colectivos. Por agora só podemos concluir que o dito realizador está fadado para ter razão fora do tempo e do espaço, o espaço-tempo onde as pessoas vivem e o futebol acontece. Não deixa de ser irónico que alguém com nome de desenho animado – Hulk - consiga mostrar de forma tão ostensiva a uma pessoa com nome de gente - António-Pedro Vasconcelos - que é a este último que a realidade insiste em não levar a sério.

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