Jornada 2

Publicado na Liga Aleixo


Com tanta a coisa acontecida na choupana, aparentemente envolvendo um guarda-redes espanhol de nome Roberto, que tudo indica ter custado 8 milhões e meio, preço agora aventando como absurdo em face da fraca valia demonstrada nos primeiros jogos, torna-se difícil a um portista concentrar-se exclusivamente nos golos do Falcão ou no afundamento do osso zigomático do Ukra.

Vamos então ao Roberto, mas se acaso pensam que me vou juntar aos abutres tirem daí a ideia. Acontece que já fui guarda-redes, um reles guarda-redes do futebol de 5 da Académica (calma Bruno, não te encanites), ainda assim razão suficiente para achar que o “caso Roberto” não deve ser visto como uma mera oportunidade para escarnecer a contratação mais patética que há memória na história do futebol e, muito menos, para assim pôr em causa a qualidade das drogas alucinogénicas consumidas na época estival por Jesus, Luís Filipe Viera e Rui Costa. Nada disso, até porque me lembro de disparates compráveis nos montantes gastos; lembro, por exemplo, a “ousada” contratação pelo Sporting de Carlos Miguel da Silva Júnior, um médio de 800 mil contos que não chegou a dar dois toques na bola em solo luso. Por outro lado, cabe reconhecer que tenho telhados de vidro no que a guarda-redes diz respeito, basta lembrar a saga que se seguiu à ida de Baía para o Barcelona: Rui Correia, Pedro Espinha, Wozniak, Eriksson, Kralj ou Ovchinnikov (o menos mau, apesar de tudo). 

Tudo isto para dizer que o meu interesse no caso Roberto se dirige à defesa do homem (já que em relação ao guarda-redes, aparentemente, há muito pouco a fazer). O facto trágico é que os guarda-redes estão sujeitos a níveis de amesquinhamento mil vezes superiores àqueles que recaem sobre um jogador de campo, mesmo que este se chame Palermo e falhe três penalties num só jogo. Mais: os guarda-redes vivem na iminência de que um erro ou que uma infelicidade cénica os marque com a culpa do golo e com o estigma de frangueiro. É pois natural que estejam mais vulneráveis a crises de confiança com origem nas bancadas (ou nas capas do nossos diários).

Sinceramente, não sei se a crise de Roberto tem a ver com a bola de neve de criada pelo começo aziago na pré-época, se com a responsabilidade imposta pelo preço por que que foi comprado, se com deficiências técnicas na sua formação (dá a ideia de ser um guarda-redes à moda antiga, bom entre os postes, uma tarântula fora deles). O que eu sei é que Roberto não deve dormir bem há um mês e que a sua eventual incompetência não cessa de fazer a abertura dos telejornais e as delícias do Correio da Manhã. Mas desse flagelo ninguém fala; como dizia o Chico Buarque, “a dor da gente, não sai nos jornais”. 
O Cardozo pode ter um início de época horrível sem que ninguém o chateie, já o Roberto leva a cruz sozinho enquanto Jesus aponta o caminho do Gólgata aos Romanos.


 Noutro clube, perante tal crise de confiança, Roberto tinha sido protegido: inventava-se uma gastroenterite devida à maionese das cantinas, o Júlio César assumia a baliza, e o bom do espanhol aparecia daqui a um mês para jogar na Taça de Portugal. Não sei se o Roberto é um mau guarda-redes ou apenas um homem a passar uma crise de confiança que o torna incapaz de ser guarda-redes. Como ex-guarda-redes e frangueiro não praticante, magoa-me a injustiça e crueldade com o duro ofício das balizas. Por muito que me regozije com as derrotas do Benfica, confesso que não consegui festejar a vitória do Nacional: é demasiado alto o preço que está a ser pago por Roberto. Nenhum jogador está tão cruelmente só na desgraça como o guarda-redes; pior se é um espanhol acabado de chegar a Lisboa a quem 6 milhões de benfiquistas andam a chorar 8 milhões e meio. 

Uma nota final para Beluschi. Como eu sempre suspeitei, um mau corte de cabelo é conciliável com uma carreira ao mais alto nível.

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