Compreendo a excitação com o golo do van Bronckhorst, mas, na minha humilde opinião (vá, nem tanto assim), o melhor golo do mundial continua a ser o do Quagliarella contra a Eslováquia (não confundir com a Eslovénia -  até porque desconheço algum golo marcado pelo referido jogador contra esta selecção da ex-Jugoslávia). Justifico a minha opção por duas razões, a prosaica, o golo é extremamente belo sob diversos pontos de vista, alguns deles relacionados com tendências recentes na dança contemporânea; e a fenomenológica, aquele golo é marcado por um homem em trânsito para Roma. A poucos minutos de ouvir Lippi desejar-lhe umas excelentes férias na Malásia, Quagliarella executa uma modalidade menos costumeira do desespero. O desespero, como nos conta a história militar, apela a superação e à convocação das últimas forças normalmente vertidas em momentos de raiva individual (remates fulminantes, cavalgadas para a linha, mergulhos contra porta-aviões, insultos à mãe do poeta) ou em actos de racionalidade colectiva que, afinal, constituem  a expressão táctica do "nada a perder" e o o aproveitamento do pavor semeado por experiências sociais como a que tomou lugar em Camp Nou, decorria o ano de 1999 (aqui falamos do clássico chuveirinho, da subida do guarda-redes à área, ou, noutros tempos, do ingresso do Vinha em Campo). O chapéu do Quagliarella sequer é comparável à utilização de panenkas em penalties decisivos, gesto que não resulta de mera loucura individual (excepto no caso do Postiga) mas da consciência acerca da substrato motivacional do guarda-redes naqueles momentos: instruídos no heroísmo de Goycochea, mexem-se sempre, procuram sempre a glória em estiradas elegantes e não admitem a possibilidade de que o maior esforço a ser feito pela pátria possa consistir em permanecerem quietos. Já  o golo do Quagliarella não parte de nenhum pressuposto racional acerca do terror ou do desejo de glória do adversário, é o gesto de um homem indignado com a possibilidade de não conseguir explicar de outra forma a injustiça pressentida ao imaginar, dali a uns minutos, o abraço consolador do Materazzi.

Publicado também no arrastão.

Comments:
Bruno, reconheço a beleza do gesto, a peculiaridade do momento para o fazer, até a sua execução como remate "achapelado" (mas já vi melhores), no entanto, penso que é frangote do guarda-redes. Não? Ele nem sequer está muito adiantado e não vejo razão para não dar um passo ao lado e defender a bola. Mais, ele tem o braço à altura da bola no momento em que ela passa aparentemente por cima dele, mas não, ele "defendeu" foi ao lado. Não quero dizer com isto que o golo de ontem do Gio é o melhor (mas é um grande golo), para mim até agora é o do Japão já nem sei contra quem em que o Honda parte o defesa senta o guarda-redes e passa ao colega nipónico para encostar de baliza aberta.

Um abraço
 
Play it again Sam... http://www.youtube.com/watch?v=y3jepTPiJ38
 
Filipe, concordo, esse o do Maicon merecem-me ternuras.
 
S. T Aquino, apesar de ser um golo do Petit reconheço, é bem jeitoso. Mas se a ideia e descer o nível o Capucho tem chapéus excelentes:).
 

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