1, 2 (a, b)

(Como vencer a insónia? "olha vou escrever um post", aturem-me) 


Nos Fragmentos de um Evangelho Apócrifo, Borges giza o seguinte versículo:
"Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor."
1. Sabemos o suficiente de Borges para perceber que as três hipóteses enunciadas estão longe de surgir num mesmo plano de possibilidade. Em termos simples, é como se a dispensa do amor exigisse um talento raro, algo de uma pré-disposição a-romântica, um dom que, contudo, não se oferece a ser celebrado pelos demais a menos que num regime de insinceridade auto-contemplativa (o lugar de onde Borges contempla a felicidade alheia assegura-o da beleza dos baixios a que se sabe irreversivelmente sujeito).

Dito de outra forma, os que arranjam maneira de se livrar do amor - mesmo que na forma passiva - podem ser exaltados, e até invejados, a questão é que surgem sempre colocados num altar ambíguo,  um altar onde a adoração e o despeito ajoelham juntos - nessa evasão às fragilidades humanas, nas suas  variegadas conjuras, o romantismo sendo uma delas,  há menos o reconhecimento de um herói capaz de enfrentar as vulnerabilidades que acossam os mortais, do que a contemplação de uma vida asséptica posta a salvo de abismos, uma jornada fácil para quem desistiu de conceber a realidade e o tempo histórico como  matriz para perigosas efabulações, ora sujeitas ao crivo do plausível, ora sujeitas ao terror do envelhecimento. Não nos deixemos  enganar, o versículo  de Borges não chega a invejar os felizes, tampouco descreve pessoas (quando muito fala de momentos biográficos); no essencial, Borges ocupa-se, como de costume, em exaltar os não amados, os mal amados, os amantes sem chão e os amantes sujeitos às vilezas de cenografias efémeras. A falta de talento para prescindir do amor é codificada como uma fatalidade cultural que, apesar de tudo, pode ser sublevada: através de narrativas de insurgência naturalmente repugnantes aos leitores de Borges.

2-  Quando surge  nas primícias, a declaração de amor, tida como expressão de derradeiro enlevo romântico, configura-se amiúde numa lógica  egoísta pela qual o declarante busca, antes de mais, o seu próprio apaziguamento: 1) "É importante ter a certeza que tentei" ; 2) "Escuso de crescer em sentimentos que podem não  ser correspondidos" ; 3) "Não tenho nada a perder".

No declarante precoce, assim investido, pode haver uma de duas lógicas:
a) Uma propensão cénica que cristaliza expressão de um desejo na declaração, fugindo desse modo à moléstia de sucessivas coreografias, espraiadas pelos dias (para mais sem o prestígio romântico do momento solene);
b) Uma cobardia em que a expressão do querer, assumida numa lógica de tudo nada, funciona como um secreto dispositivo de boicote: "na pior hipótese, garanto que da enunciação de um grande amor resultará a menor das perdas."

(vou dormir)



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