Fragmentos de um Evangelho Apócrifo
Nos Fragmentos de um Evangelho Apócrifo, Borges giza o seguinte versículo:
Dito de outra forma, os que arranjam maneira de se livrar do amor - mesmo que na forma passiva - podem ser exaltados, e até invejados, a questão é que surgem sempre colocados num altar ambíguo, um altar onde de adoração e o despeito ajoelham juntos - nessa evasão às fragilidades humanas, nas suas variegadas conjuras, o romantismo sendo uma delas, há menos o reconhecimento de um herói capaz de enfrentar as vulnerabilidades que acossam os mortais, do que a denúncia de uma vida asséptica posta a salvo de abismos, uma jornada fácil para quem desistiu de conceber a realidade como palco para perigosas efabulações, ora sujeitas ao crivo do plausível, ora sujeitas ao terror da perda. Não nos deixemos enganar, o versículo de Borges não chega a invejar os felizes, tampouco descreve pessoas (quando muito fala de momentos biográficos); no essencial, Borges ocupa-se, como de costume, em exaltar os não amados, os mal amados, os amantes sem chão e os amantes sujeitos às vilezas de cenografias efémeras. A falta de talento para prescindir do amor é inscrita num fatalismo trágico, merecedor de louvor borgesiano; os que precindem de louvor, são assinalados como felizes, mas não nos equivoquemos: trata-se uma felicidade inteiramente repugnante aos leitores de Borges.
"Felizes os amados e os amantes e os que podem prescindir do amor."Sabemos o suficiente de Borges para perceber que as três hipóteses enunciadas estão longe de surgir num mesmo plano de possibilidade. Em termos simples, é como se a dispensa do amor exigisse um talento raro, algo de uma pré-disposição a-romântica, um dom que, contudo, não se oferece a ser celebrado pelos a menos que num regime de insinceridade auto-contemplativa (o lugar de onde Borges contempla a felicidade alheia é o da beleza dos baixios a que se sabe irreversivelmente sujeito).
Dito de outra forma, os que arranjam maneira de se livrar do amor - mesmo que na forma passiva - podem ser exaltados, e até invejados, a questão é que surgem sempre colocados num altar ambíguo, um altar onde de adoração e o despeito ajoelham juntos - nessa evasão às fragilidades humanas, nas suas variegadas conjuras, o romantismo sendo uma delas, há menos o reconhecimento de um herói capaz de enfrentar as vulnerabilidades que acossam os mortais, do que a denúncia de uma vida asséptica posta a salvo de abismos, uma jornada fácil para quem desistiu de conceber a realidade como palco para perigosas efabulações, ora sujeitas ao crivo do plausível, ora sujeitas ao terror da perda. Não nos deixemos enganar, o versículo de Borges não chega a invejar os felizes, tampouco descreve pessoas (quando muito fala de momentos biográficos); no essencial, Borges ocupa-se, como de costume, em exaltar os não amados, os mal amados, os amantes sem chão e os amantes sujeitos às vilezas de cenografias efémeras. A falta de talento para prescindir do amor é inscrita num fatalismo trágico, merecedor de louvor borgesiano; os que precindem de louvor, são assinalados como felizes, mas não nos equivoquemos: trata-se uma felicidade inteiramente repugnante aos leitores de Borges.