Isto não é um hamburger

Muitos acólitos salivares defenderam que a vitória contra a Coreia do Norte não poderia deixar de representar o esmagamento daquela monarquia comunista pelo capitalismo,  mais: tamanho arraso teria ficado sintetizado pelo modo como Simão festejou o segundo golo com a dança do Hambúrguer ("BigMacMacLocoBigMac", ao que parece), no fundo, coreografia de um oportuno piscar de olho de Simão a mais uns trocos do seu patrocinador, a Mcdonalds.

Mas, devidamente ridicularizada a tentativa de fazer do futebol um jogo político-moral, coisa para a qual não tenho tempo, se bem que possa adiantar que jamais cederei à chantagem moral de torcer por uma equipa que apresenta a Unicef como patrocinador, que jamais me inibiria de torcer pela Coreia do Norte face ao mal vestir do Dunga, que não acredito na hipótese de que a França tenha sido justa vítima da ignomiosa mão de Henry (a França foi apenas um equipa que, incapaz de fazer frente à ilegitimidade pública da sua qualificação, sentiu o secreto desejo de se boicotar, de algum modo a selecção francesa teve demasiados pruridos morais para poder levar o crime até ao fim, pelo que jogadores, dirigentes e treinadores não foram minimamente castigados, serviço a que o futebol raramente se presta, antes se suicidaram em fundo remorso, provavelmente por serem demasiado boas pessoas),  devidamente ridicularizada a tentativa de fazer do futebol um jogo político-moral, dizia, o que fica para a posteridade, do ponto de vista simbólico, é o modo como o gesto de Simão veio colonizar um festejo há muito estabelecido nos relvados, refiro-me ao coração que os jogadores costumam dedicar lá para casa, deduz-se, às suas senhoras.

Senão recorde-se: depois do golo do Simão, Hugo Almeida e Liédson celebraram os seus golos fazendo ternos coraçãozinhos com as mãos, mas o comum adepto, condicionado pela publicidade do Simão já só consegue ver ternos hambúrgueres onde antes estava o eterno amor à mulher do Liédson. Portanto, quando muito, o jogo contra a Coreia é  uma cintilante expressão de como, uma vez mais, o capitalismo vingou em colonizar a utopia do amor.

Comments:
Esquecendo a tua espectacular boa vontade face aos franceses, devo dizer que pensei exactamente o mesmo.
 
Nenhuma boa vontade:), é um caso proverbial de Raskolnikov incapaz de lidar com a culpa.
 
Em espanha, David Villa também é patrocinado pela McDonalds e também festejou como no seu anúncio.

http://blogs.elpais.com/trending-topics/

De resto, belo texto.
 

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