Técnicas do corpo

Na década de 80, recordo-me, era muito comum vermos homens a escarrar no espaço público (às vezes para o lenço de tecido, às vezes para o chão). Por exemplo, o meu professor da primária, homem com os seus sessentas, jamais começaria a aula da manhã sem um ruidoso escarro para o lenço que entretanto dobrava e arrumava no bolso. A ritualizada exibição pública da técnica do escarro, ainda que configurada enquanto necessidade inadiável, cumpria um papel na performance da masculindade/senioridade, performance em que os jovens se iam enculturando por imitação. Não era uma necessidade inventada, era antes uma necessidade reproduzida enquanto imperativo da carne - portanto, transformada em vício do corpo -, e enquanto dramatização de uma identidade: o homem suficientemente gasto para precisar de escarrar, o homem suficientemente vivido para saber fazê-lo com requinte (tudo expelido numa massa sólida, nenhum cuspo ou baba a estragar a cena).

Hoje posso dizê-lo com segurança: o uso público da técnica do escarro não passou para a minha geração. A passagem de testemunho foi truncada por dois factores: primeiro, as concepções higienistas, estruturalmente repelidas aos vestígios do corpo grotesco (Bakhtin); em segundo: as novas estéticas da masculinidade, referimo-nos, claro, à celebração da juventude e ao recente culto do homem imberbe. O facto é que o homem gasto já não tem audiência para se celebrar; a lenta putrefacção recapitulada no escarro já nada tem de sénior ou de viril. Se não extinta a necessidade do escarro por falta de uso, hoje cada um vai aprendendo a escarrar (e a assoar-se) no recato da casa de banho. A lenta putrefacção passou para os bastidores e o corpo grotesco só nos aprece na sua forma sexualizada (a pornografia), ou cinemática (o corpo de delito das séries e dos filmes criminais).

*Curioso o uso da conjugação reflexiva no "assoar", expressão de que há algo de masturbatório no "assoar" que o "escarrar" não acompanha. 

Comments:
com essa da "performance da masculindade(?)/senioridade" vieste baralhar-me o arquivo. Onde raio encaixo eu agora a minha Sôtora (mulher de batom vermelho vivo, salto alto e saia-casaco de bom corte)de física que arrancava das vísceras uns sonoros escarros?
 
Conquanto me lembro o escarro feminino nunca esteve culturalmente codificado de outra forma senão como falta de chá. Devia ser da sinusite, coitada.
 
sinusite, parece-me bem. Já consegui mesmo associar a outro caso. Obrigada.

mas eu voltei por causa da linha pintada de azul. ò cum raio, tens um amaranhado de coisas nessa cabeça que é raro sair deste blog e não ter que voltar para apreciar de novo(confesso que muitas vezes volto para fazer mais um esforço - quase sempre estéril - para perceber os teus enredos, o que não foi o caso agora)Como diria o outro, vida longa, camarada Bruno.

e descansa, o Paulo Bento não pode ir para o Porto. Apesar de que já tenho saudades de ouvir o tipo...
 
Interessante ensaio sobre o escarro...
Gostava de concordar consigo a 100%... Infelizmente, de tempos a tempos (felizmente) ainda vejo e ouço algumas reminiscências do passado, pois o que é tradicional e português às vezes é difícil de perder...
 
Mudam-se os tempos, mudam-se os hábitos. Apenas isso.

Olhe que os sinais de arrogância e prepotência de hoje poderão não ser tão asquerosos como 'o escarrar do seu professor' mas, continuam a existir ...
 
Ana, os desmentidos sobre os novos treinadores do Porto têm sido lestos, mas eu tenho um coração muito frágil para estes impasses.
 
ora ainda bem que falam de futebol, do qual o cuspo ainda é parte integrante e essencial. desde as contas dos clubes coladas com cuspo (ou cuspe), ao cabelo dos ex-jogadores-promovidos-a-directores-de-uma-coisa-qualquer, aos relvados adubados com uma mistura combustivel de suor,sangue... e cuspo. para além disso, não estou tão optimista quanto ao facto do cuspo ter sido erradicado das camadas mais jovens. é de facto verdade que o fenómeno de que fala (o homo-imberbus) generalizou-se mas continua a representar apenas uma fatia da sociedade. o culto da boçalidade enquanto marca distintiva de masculinidade continua contudo bem viva e virulenta o suficiente para contagiar gerações. não. definitivamente não será tão depressa que nos livraremos do cuspe.
 
tenho um tio que já tem essa maldita mania
 

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