Extensão do domínio da luta: a luta de claques

A propósito do pequeno post que escrevi sobre o clássico do passado Domingo, o Zé Neves critica a direcção que dou às bolas de golfe metafóricas que intui encherem-me os bolsos  (porquê criticar o tratamento jornalístico do jogo em vez de falar do jogo ou em vez de recusar - veementemente, diz ele - a violência que o envolveu?). Depois, o Zé Neves alerta para o perigo no uso de expressões como "jornalistas de Lisboa", expressões que, no seu entender, sulcam um regionalismo perigoso e uma relação norte-sul para cujas conotações racistas e  essencialistas eu deveria estar mais alerta. De caminho, critica o que entende ser o fanatismo dos intelectuais que, procurando imitar o adepto comum, exageram redundando em caricaturas mais fanáticas que os originais. (Penso que este resumo não desmerece o post, mas nada como tirarem a prova).

Caro Zé Neves, poderia, claro, falar do jogo, como poderia ter feito uma declaração abjurando os actos de violência perpetrados por adeptos do Porto (no entanto, creio que a necessidade de tal gesto tomaria por prévia uma identidade comum mais densa do que aquela que é definida pelo facto de eu desejar, veementemente, o sucesso desportivo do Porto. Ou seja, não sinto particular necessidade de me demarcar das alarvidades dos adeptos violentos do Porto conquanto não tenho nada em comum com os adeptos violentos do Porto além de torcer pelo clube que lhes serve de pretexto. É claro que posso reprovar a violência no desporto e no futebol português cada vez que ela acontece, mas sinto-me tão obrigado a isso como o Zé Neves quando acaso as claques de uma ou outra equipa coloca as lições de guerrilha urbana em dia - já aconteceu esta época com todas as claques dos grandes e não me recordo que o Zé Neves tenha reprovado veementemente tais factos.


Não foi um jogo normal, certo, mas infelizmente este tipo de excepção é recorrente  - não só no Porto, sublinhe-se. Mas, dizia, podia ter falado do jogo e da violência, sim senhor, e nem escondo que apesar do ténue vínculo identitário, acabo por sentir  uma certa vergonha com os comportamentos de alguns adeptos do Porto.  Mas aconteceu que depois de algumas horas a consumir televisão e rádio já estava um tanto cansado de ouvir falar do jogo e da violência - nos termos que me iam sendo oferecidos pela comunicação social. No fundo, precisei de espairecer. A  comunicação social que critico ia falando do jogo ora com  a azia que resultava da frustração pessoal de cada jornalista digerindo o seu melão em público, ora com a elaboração discursiva afeita a reduzir o jogo aos desmandos anti-Benfica de Olegário Benquerança.  Parecendo que não, ao fim de um tempo eu tinha perdido a motivação para falar do jogo. A comunicação social que critiquei também falou da violência, mais, ao longo da semana não falou de outra coisa e até era capaz de jurar que percebi um medo cuja magnitude tive dificuldade em distinguir de entusiasmo editorial.

Já agora, se queremos condenar veementemente a violência seria importante sermos capazes de condenar uma comunicação social que rentabiliza e promove a rivalidade entre os clubes sem olhar aos ódios que incendeia ou às batalhas que prefigura (veja-se a "linha editorial" de programas como "Dia Seguinte", "Trio de Ataque", "Prolongamento", basicamente um misto de programa sobre arbitragem e guerrilha entre pessoas demasiado reputadas para andarem ao tabefe - estou certo que o Gobern e o Bruno Prata vão acabar por se matar mas estimo que seja por uma questão estritamente pessoal). Um exemplo: não sei se o Zé Neves já se apercebeu do facciosismo dos comentadores sempre que um jogo do Porto passa na TVI ou na SIC (honra feita à isenção dos jornalistas de Lisboa da RTP), aconselho, experimentem um Jorge Baptista ou um Valdemar Duarte.  Não julgará o Zé Neves que esse tratamento acintoso da parte de jornalistas com audiências nacionais  deveria ser veementemente condenado enquanto parte tácita do fanatismo que envolve o futebol? Não achará o Zé Neves que seria importante existir um jornalismo menos investido em potenciar ao absurdo os árbitros os casos do jogo? (bem sei que os árbitros se esforçam).

Portanto, mais do que querer falar do jogo ou da violência apeteceu-me falar do modo como outros o estavam a fazer: mais do que metacomentário, uma reacção (nada de intelectualismo, só fanstismo). Mais acuso: é minha convicção que a linha informativa seguida por muitos órgãos de comunicação durante a semana foi de molde a alargar possibilidades informativas em torno do jogo - a violência surge nessa geografia mais ampla.

Quanto à expressão "jornalistas de Lisboa", será necessariamente redutora, concedo, mas o Zé Neves fará o favor de a distinguir de qualquer regionalismo com conotações raciais - a este respeito, não posso deixar de indagar até que ponto o resultado do jogo terá sido a testemunha próxima de uma deriva retórica na pena do Zé Neves. E nem digo isso por ser um africano de Coimbra - da margem norte, atenção -, mas porque, de facto, há uma correlação entre a concentração dos meios de comunicação social em Lisboa e o viés reconhecível em muitos dos jornalistas de desporto com audiência nacional. That simple.  Falar do jogo e da violência é também falar daqueles que, dentro da indústria mediática do futebol,  têm o monopólio da violência legítima.

Publicado originalmente no Arrastão



<< Home