Por favor, ligue mais tarde


Na passada Quarta-feira, o país acordou para ir ver os dados da Marktest: importava saber quem teria sido o vencedor da noite. Ao que parece, a entrevista de Pinto da Costa a Judite Sousa na RTP1 teve o dobro de audiências daquela que Luís Filipe Vieira concedeu a Miguel Sousa Tavares na SIC. Pinto da Costa não deslumbrou, mas, valha a verdade, ao dar a Judite de Sousa a honra de uma entrevista ao fim de 3 anos tinha meio caminho para conquistar a complacência da entrevistadora. Ademais, Judite de Sousa terá sentido que devia provar que o trôpego benfiquismo do marido, reputado comentador desportivo, em nada a inibia de se enlevar pelo trovador do Norte.

Luís Filipe Vieira também se saiu de forma airosa aproveitando-se, talvez, da inusitada simpatia de Miguel Sousa Tavares (Miguel Sousa Tavares simpático, credo). Desta feita o viés jornalístico resultou num Sousa Tavares apostado em provar que o seu portismo havia ficado em remanso à espera de novas crónicas para A Bola.

Mas vamos ao que interessa e nada interessa que Pinto da Costa tenha esmagado nas audiências um Luís Filipe Vieira. Os factos mais pertinentes trazidos pelas entrevistas definem uma outra disputa da qual Jorge Jesus é o insigne vencedor e Rui Costa o enxovalhado de serviço.

Tanto Pinto da Costa como Luís Filipe Vieira admitiram ter equacionado a contratação de Jorge Jesus na época passada. Imaginem o ego do senhor. Luís Filipe Vieira adiantou ainda que já desejava Jesus há dois anos e que foi a sua acção directa que permitiu garantir o treinador da presente época: “se eu não apareço hoje o Jorge Jesus estava no Porto”. Leia-se: "dei as fichas todas a Rui Costa e ele gastou-as com o tal do Quique Flores". Pior, como se percebeu no fim da época passada, Rui Costa terá feito oposição à contratação de Jesus em favor da continuidade de Quique Flores, porventura ciente de que a saída de Quique representaria a total capitulação da sua aposta pessoal. Resultado: Luís Filipe Viera impôs-se e hoje fala directamente com Jorge Jesus (ao que consta falam ao telefone todos os dias e Jesus até pede jogadores de madrugada). Compreende-se assim que Luís Filipe Viera tenha dito que Rui Costa - pelos vistos o único ser humano que na época passada não equacionou Jesus - tem muito que aprender (com o próprio Vieira, presume-se). Não custa especular sobre a cena paradigmática: enquanto Luís Filipe Viera e Jesus falam ao telefone, antes de adormecer, Rui Costa é sucessivamente reencaminhado para o atendedor de chamadas.

Temos assim que o sucesso de Jesus é, por ora, a glória do sistema presidencialista que Luís Filipe Vieira adoptou para prevenir os desmandos principiantes de Rui Costa. Assim, curiosamente, o sucesso de Jesus é, de algum modo, a suprema derrota do Rui Costa de fato e gravata. Enquanto Jesus continuar a viver tempos de glória no Benfica, para Rui Costa Estádio da Luz será um irónico campo de reeducação. Porém, glorioso.



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