Os dois modos da tragédia

"Terry Eagleton chamou recentemente a nossa atenção para a existência de dois modos opostos da tragédia: o grande Evento espectacular, a brutal irrupção de um outro mundo e a desoladora persistência de uma condição desesperada, de uma existência infeliz que prossegue indefinidamente, de uma vida vivida como uma longa urgência. É a diferença que encontramos entre as grandes catástrofes do mundo desenvolvido, como o 11 de Setembro e, por exemplo, a desoladora catástrofe permanente dos palestinianos da Cisjordânia. O primeiro modo da tragédia, o de uma figura que se destaca num pano de fundo «normal», é característica do mundo desenvolvido, ao passo que, em boa parte do Terceiro Mundo, a catástrofe designa o presente pano de fundo inamovível."  Slavoj Žižek, A Marioneta e o Anão, Relógio D'Água.
O terramoto do Haiti dissolve esta distinção cumulando os dois modos da tragédia. O Haiti mereceu a nossa atenção porque a longa urgência se cruzou com um grande evento, mas em breve o mediatismo do grande evento sairá de cena. O que segue é a vaga memória de uma mortandade escusada. Há um ano a Faixa de Gaza foi atacada, na altura os massacres e a utilização do fósforo branco causaram grande comoção internacional. Seguiu-se a costumeira reposição de uma longa urgência;  hoje temos a vaga memória de uma mortandade escusada. O esquecimento, pois claro, é o que o melhor une os dois modos da tragédia.



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