Nobre: caderno de encargos de um eleitor oportunista

Do ponto de vista ético e cívico, o percurso de vida de Fernando Nobre não pode senão merecer a nossa vénia. Politicamente, sendo verdade que tem marcado algumas posições importantes nos últimos tempos, também temos de reconhecer que Nobre surge largamente como um significante vazio, um não lugar político onde podemos projectar aquilo que gostaríamos que ele fosse. Perdoarão a desabrida ingenuidade, mas aqui vai a minha lista de desejos.
Eu gostaria que ele fosse alguém capaz de aparecer na política com a distinta independência de alguém alheio à lógica da partidocracia - algo só possível a quem, de facto, nunca viveu à sombra dos partidos.
Eu gostaria que ele fosse capaz de se afirmar enquanto estandarte de uma esquerda mais preocupada com as desigualdades do presente do que com o jogo de tradições políticas e de calculismos em relação ao futuro.
Eu gostaria que ele fosse capaz de trazer para agenda pública a questão da "crise humanitária" sistémica forjada pelo capitalismo global e pelas várias formas de violência estrutural que lhe são contíguas (as guerras do petróleo, a Palestina, Darfur, Coreia do Norte, etc.).
Eu gostaria que ele fosse capaz de afirmar a necessidade de Portugal se definir na arena internacional como um Estado de valores e de Direitos Humanos (demarcando-se do realismo cínico daqueles que não recebem o Dalai-Lama pelas razões conhecidas e que apenas reconhecem os separatismos que agradam à Nato).
Eu gostaria que ele fosse capaz de ser radical na denúncia de um Estado que sacrifica o interesse geral por uma lógica de subserviência aos grupos económicos e aos boys dos partidos que há décadas jogam ao ping-pong do poder - no fundo, um Estado que fomenta pobreza no modo como é exaurido pelos interesses.
Eu gostaria que ele pudesse representar uma política sem as costumeiras manigâncias, sem fazer do narcisismo ou do ego sensível uma ideologia.
Eu gostaria que ele pudesse subir a fasquia do que seja o serviço público em política.
Eu gostaria enfim, que constituísse uma promessa ideológica e oposicionista ao mesmo tempo que, fundado em muitos anos de acção e de decisões difíceis, fosse capaz de partilhar as dores eas responsabilidades de quem cumpre a sempre suja tarefa de governar. Que ele consiga trazer algo disto para a campanha pode, pragmaticamente, valer mais do que uma eleição. Que eu esteja a delirar e que o banho de realidade me leve ao realismo da política do possível, ou seja, a Alegre, é uma possibilidade que infelizmente não posso descartar.

Publicado também no Arrastão.

Comments:
Acabei de saber que Fernando Nobre anunciou a candidatura a presidência. Estou a 37h a trabalhar e não li jornais e nem tinha visto tv.
O meu candidato é Fernando Nobre.
Se tivesse vivido no tempo de Humberto Delgado, seria Humberto Delgado.
Ainda bem que posso votar sem ter que ser politicamente correcta, sem ter que ser partidária. Votando num homem, numa ideia, num catalizador da sociedade portuguesa.
Só peço a Fernando Nobre que numa máquina politizada e dura (esta entrevista foi uma pequena amostra) se proteja.
Ora aqui está um verdadeiro "lobo". Só tenho um pouco de medo por ele, não por mim. Porque está decidido.
O meu candidato é Fernando Nobre.
 
Também via a entrevista, henedina, devo dizer que me surpreendeu pela positiva.
 
Bruno Sena Martins
Repeti o comentario que deixei neste blog com o registo que era repetido na blogosfera. Era o "meu manifesto de apoio".
Ontem,tb, deixei um comentário no arrastão no post de Rui Bebiano, mahatma, que era mais ao menos assim:
Rui B, desilude-me, está a ser "símio". ( ref ao livro "O filósofo e o lobo". Fernando Nobre, lobo. Rui B, "símio", manipulador.)
Os argumentos contra que utiliza são os meus argumentos a favor de Fernando Nobre. (apoio a Capucho do PSD, a Mario Soares, PS e ao Bloco, e hoje "monarquico". Talvez como eu, apoie, pessoas e projectos, em vez de partidos e pequenos designios.
O comentário foi censurado por Rui Bebiano. Compro-lhe e leio-lhe os livros, vou deixar de faze-lo, não gosto de homens que lidam mal com o contraditório.
 
henedina 19 Fev 2010 às 22:52 /arrastão
Desilude-me Rui Bebiano, demasiado “símio”.
Desconhecia todos estes percursos de Fernando Nobre.
Mas é pelos seus argumentos contra que eu sou a favor.
Talvez, tal como eu, Fernando Nobre apoie os homens e as suas ideias e não os partidos e os seus pequenos desígnios.
 

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