The Hurt Locker (Estado de Guerra)


Sendo um bom filme, fico com a sensação de que Estado de Guerra está a ser grandemente sobrevalorizado em função daquilo que seria suposto representar. Cento e trinta e um minutos depois, é lícito supor que tanta reverência e unanimidade só pode dever à ideia que vem sendo cristalizada com a antevisão dos Oscars; reza a dita que o mundo cinematográfico se divide entre os blockbusters (Avatar) e os outros (Estado de Guerra). É bem verdade que, descontado o deslumbre tecnológico, Avatar consegue ser básico até para os padrões de um filme Disney, pelo que, no directo contraponto com o filme de Cameron, Estado de Guerra aparece como se de uma obra-prima se tratasse. Não é o caso.

Ademais, tendo James Cameron e Kathryn Bigelow sido casados, a dicotomia "quem não gosta deste deve gostar muito daquele" tem sido exacerbada por uma directiva tácita: temos que optar pelo membro do ex-casal que convidamos para o nosso aniversário, já que os dois iam dar mau ambiente. Da minha parte, não faço grande questão da presença de nenhum deles.

Reparo agora, crescentemente convencido da bondade da minha tese, que o início texto do Jorge Mourinha no Público expressa, em termos cintilantes, a tal dicotomia (ressalva: fui ler as críticas já depois de começar este texto):
"O melhor filme de guerra em muitos anos e um filme de acção que envergonha 95 por cento dos "blockbusters" americanos recentes."
Em bom rigor, o que é que os blockbusters têm a ver com o assunto? Pois, nada. Por aqui vemos como Estado de Guerra tem surgido na agenda mediática enquanto estandarte possível da oposição - estética e ideológica - aos filmes de massas. O facto é que o imperialismo mediático forjou um perverso Tratado de Tordesilhas. Assim, no vago manifesto que perpassa, consta que devemos abraçar Estado de Guerra com convicção, devemos elegê-lo como sinal inequívoco de que não pertencemos à tribo que se fez nativa do mundo dos blockbusters. Lamento a traição ao regime oposicionista no poder: da dialéctica em apreço, não achei especial graça a nenhum dos espécimes.



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