Livro de 2009
2009 veio provar à saciedade que sou uma besta preguiçosa, ainda assim, se não me consigo insultar com a veemência devida é apenas porque lá consegui fechar o ano com a última página deste livrinho.
Pela minha cabeceira (metáfora pifia até porque pouco leio na cama, ou alhures) passaram livros que fui acabando com desprezo, desprezo por saber que os estava a usar em canzanas pouco sentidas para procrastinar o Moby Dick, volume vagamente intimidador - pelo "inglês técnico" dos baleeiros de Nantucket, pelo enredo ostensivamente indiferente ao que seja prender o leitor, pela constatação de que não podemos despachar parágrafos sublimes atrás de parágrafos sublimes sem a amargura da culpa -, volume onde o êxtase só se consegue com cansaço, primeiro, e onde o cansaço se torna, depois, a condição do êxtase: o sacrifício e perseverança implicados na empresa do Pequod não se entendem sem a pele tisnada pelo candeeiro, do mesmo modo, a obsessão lunática de Ahab carece ser compreendida por alguém suficientemente alienado e egocentrado para levar a sua avante, ignorando - como Ahab ignorou o apelo do capitão do Rachel - chamadas de telemóvel onde um amigo nos poderá estar a reclamar nalguma vala (ou, o que é pior, solicitações laborais). Com bom carácter, com um apurado sentido das prioridades, com a capacidade de ir organizando o tempo, das duas uma, ou fracassamos em ler o livro ou lê-mo-lo como quem executa mais uma canzana, épica talvez, mas pouco sentida.
Pela oferenda, obrigado e.
Pela minha cabeceira (metáfora pifia até porque pouco leio na cama, ou alhures) passaram livros que fui acabando com desprezo, desprezo por saber que os estava a usar em canzanas pouco sentidas para procrastinar o Moby Dick, volume vagamente intimidador - pelo "inglês técnico" dos baleeiros de Nantucket, pelo enredo ostensivamente indiferente ao que seja prender o leitor, pela constatação de que não podemos despachar parágrafos sublimes atrás de parágrafos sublimes sem a amargura da culpa -, volume onde o êxtase só se consegue com cansaço, primeiro, e onde o cansaço se torna, depois, a condição do êxtase: o sacrifício e perseverança implicados na empresa do Pequod não se entendem sem a pele tisnada pelo candeeiro, do mesmo modo, a obsessão lunática de Ahab carece ser compreendida por alguém suficientemente alienado e egocentrado para levar a sua avante, ignorando - como Ahab ignorou o apelo do capitão do Rachel - chamadas de telemóvel onde um amigo nos poderá estar a reclamar nalguma vala (ou, o que é pior, solicitações laborais). Com bom carácter, com um apurado sentido das prioridades, com a capacidade de ir organizando o tempo, das duas uma, ou fracassamos em ler o livro ou lê-mo-lo como quem executa mais uma canzana, épica talvez, mas pouco sentida.
Pela oferenda, obrigado e.
