Allan Kardec


Primeiro um treinador chamado Jesus, agora um jogador cujo nome deve a um dos principais mentores do espiritismo. Não há que ter dúvidas: a parada está muito alta.

As minhas entradas estão a dar de si (I)

Há que pôr as coisas em perspectiva: basicamente estou a ficar com o mesmo problema do Jude Law.

Un homme et une femme (1966)



A noção de viuvez é tanto a descrição de um casal desfeito pela morte como a reactualização do vínculo entre dois meios-vivos.


Allow me


Os corpos dóceis do PS

O debate sobre a violência sexual sobre menores está em pleno na Irlanda, após a divulgação de dois relatórios, o últimos dos quais em Novembro, que revela que mais de 2000 crianças foram violadas em instituições dirigidas pela Igreja desde 1930 e ao longo de 60 anos. É concluído que a hierarquia católica de Dublin fechou "obsessivamente" os olhos à situação e praticou uma política de silêncio. O relatório revela que 102 padres foram visados por 320 queixas e que os abusos "foram dissimulados pelo arcebispado e outras autoridades eclesiásticas". Público, 21.12.2009
A disciplina de voto imposta pelo PS contra a adopção por casais homossexuais corresponde a uma curiosa exaltação daquilo a que Michel Foucault chamava os "corpos dóceis", os corpos dobrados aos rigores das disciplinas institucionais -- tanto quanto, acrescentamos, às perversidades e caprichos perpetrados pelos putativos guardiões da ordem.

Temos, pois, por um lado, os corpos dóceis das crianças institucionalizadas que tantas vezes acabam sexualmente abusadas a coberto do secretismo do aparato institucional e religioso e, por outro lado, os corpos dóceis de deputados sempre disponíveis para abdicar de pensar em favor das disciplinas institucionais do partido. O facto é prosaico: os corpos dóceis destes últimos pactuam com a perversão sobre os primeiros.



Caim por Lobo Antunes

"E ainda por cima devia comer a sopa toda para o Senhor e não chorar: que o Senhor derramasse lágrimas por um caldo verde excedia o meu entendimento. E como podia amar um Deus paradoxal, terrível nos castigos, mandando pragas e matando primogénitos, que juntava, a estas características de serial killer, prantos convulsivos de dor no caso de eu recusar a canja."

A. Lobo Antunes, "O bom filiado", Terceiro Livro de Crónicas.

Sim, renuncio

Pouco foi o convívio que estabeleci com a instituição católica ou com os seus preceitos (à excepção da virgindade pré-matrimonial). Pouco me benzi, pouco me ajoelhei e aos 8 anos baptizei-me à pressa para poder cumprir a formatura pelos lobitos, claro está, com o nobre propósito de envergar um uniforme que, julgava eu, me ajudaria a impressionar miúdas. Larguei os lobitos semanas depois -- cedo percebi que o engodo constituído por aquelas meias ridículas estava de alguma forma dependente de quem as calçava. Do ritual católico guardo poucas recordações, a mais pungente é o tédio naquilo tudo, a mais dada a elaborações póstumas, essa, deve à total incapacidade daquele aparato litúrgico para incitar algo de uma emoção comunitária - certamente uma questão formal, consigo sentir essas emoções em encenações sentidas de frivolidades (o hino do Liverpool, por exemplo). Ainda assim, das solenidades do ritual católico guardo uma afirmação que creio proferida pelos baptizados em idade de falarem por moto proprio: "sim, renuncio".

Acho que tinha a ver com o diabo, mas se pensarmos bem é tão fácil renunciar ao diabo ou às suas putativas tentações. O "sim, renuncio" com a força transcendente cujo eco ainda me comove é aquela coisa aparentemente estúpida que kierkegaard fez com Regine, entre outras coisas, para se certificar de que não seria feliz. Renunciar ao diabo é fácil (tão demonizado que ele tem sido, coitado). Renunciar à felicidade é prefigurar o fim das coisas que de qualquer maneira nos seriam roubadas. O "sim, renuncio" nesta acepção auto-flageladora parte de uma concepção do divino castigador, de uma noção apurada do absurdo da existência ou de uma funda presciência da vocação pessoal para deitar tudo a perder. É admirável o voluntarismo céptico dos que, assim investidos, declaram "sim, renuncio". Não que os inveje, facilitar o trabalho ao porvir (a Deus, ao absurdo, ao sabotador interior), parecendo que não, é assumir demasiadas responsabilidades.


Facebook vs Blogspot



Sem que daí venha grande problema ao mundo, certas questões de privacidade nunca são colocadas a quem se inicia nos blogs. Tenho para mim que esta serenidade só é possível porque entre o blogger e o seu "editor" há, desde tempos ancestrais, um acordo tácito que se sintetizaria no seguinte diálogo:

Blogspot: "Quem pode saber que tu és um narcisista?"
Blogger: "Toda a gente"

Obama, o Nobel e os cínicos de pacotilha

Variando apenas nas figuras de estilo, as almas ansiosas do costume acotovelam-se para denunciar a falta de sentido na entrega do Prémio Nobel da Paz a Obama. Argumento central? É um presidente em guerra que ainda há poucos dias reforçou o contingente americano no Afeganistão em 30 mil operacionais, lembram. Isto como se o esforço de estabilização de uma guerra que não começou, cujos desvarios estratégicos não sufragou - ideológica e militarmente a posição da Nato no Afeganistão ficou muito fragilizada com a invasão do Iraque - minimamente correspondesse a uma actuação que privilegiasse a guerra em detrimento da diplomacia, que apelasse ao ressentimento civilizacional em vez da concórdia entre os povos.

Custa-me muito ter que fazer o trabalho de casa a cínicos preguiçosos, mas se queriam atacar o Nobel de Obama então podiam bem brandir o triste facto de a administração a que preside ter recusado subscrever o Tratado de Ottawa (Tratado relativo à erradicação das minas terrestres). E se queriam uma contradição à séria até podiam ter lembrado que a Campanha para a erradicação das minas terrestres recebeu o mesmo Prémio Nobel, em 1997. Enfim, cínicos de pacotilha.

Mapa dos países subscritores (a azul).

Nota: Arma tão atroz como cobarde, só no ano passado as minas feriram 5 mil pessoas, das quais 60% civis, 28% crianças.



Herman Melville

Sinan Bolat

Esqueçam o futebol e prestem atenção ao que há de épico na fotografia cuja visão vos proporciono (se eu não faço estes avisos fico sem o que me distinga do blog do João Querido Manha).



Legenda: aos 95 minutos, Bolat, o guarda-redes turco sobe à área contrária e apura o Standard Liège para a Liga Europa. Vídeo (a vossa atenção ao abraço final, ternura inaudita).

Efeito estufa

Décadas a celebrar o verde como cor simbólica da preservação ambiental para agora esbarrarmos no greenhouse effect como a grande ameaça à saúde do planeta. Pelo menos ao nível da semântica, a língua portuguesa está muito mais preparada para combater os efeitos adversos da polissemia do verde e, quem sabe, o próprio efeito estufa.


The Big Sleep, 1946.

Avulsos

É espantoso o poder de diversão dum homem que se sente aborrecido, intimidado ou atrapalhado pelo seu trabalho: ao trabalhar no campo (em quê? A reler-me. Ai de mim!), eis a lista das diversões que suscito de cinco em cinco minutos: vaporizar uma mosca, cortar as unhas, comer uma ameixa, ir mijar, verificar se a água da torneira continua a sair barrenta (hoje faltou a água), ir à farmácia, ir ao jardim para ver quantos abrunhos amadureceram já na árvore, ver o telejornal, confeccionar um dispositivo para segurar as minhas papeladas, etc. Deambulo.

Roland Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes.

O som e o sentido

"Tu e o futebol."

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