Raymond Domenech





Ao olhar para as fotos que antecedem estas palavras o leitor menos habituado à excelência que continuadamente surpreende mesmo os mais habituados julgará que este post pretende ser uma reflexão instigante sobre o modo como a desmemória consente encontros insuspeitos entre umbigos up to date e bigodes merecedores de datação por carbono 14. Nada mais errado. É verdade que a fotografia de Raymond Domenech surge datada pela iconografia da Le Coq Sportif tanto quanto pelo esbatimento das cores. É verdade que aquele umbigo tem ar de já ter roçado a última versão do Macbook. Colocar-se-ia então a possibilidade de Domenech ter envelhecido bem permitindo uma conciliação entre tempos estéticos separados por glaciações. É um facto que cortou o bigode, ficou grisalho e tornou-se famoso como seleccionador francês. Mas tendo em conta que Domenech é o ser vivo mais uninamente odiado à face da Terra, França incluída, a história do seu envelhecimento infame não poderia ser mais dissuasora de qualquer revisionismo em relação ao portador daquele bigode. No fundo, quem hoje assiste às conferências de imprensa de Domenech quase que consegue achar aquele bigode o menor dos males. A única conclusão passível de ser retirada da questão em apreço é que há malucas para tudo.

Avulsos

"O anúncio em que a casa e a rotina de Cláudia Veira são reveladas pela câmara e voz do seu namorado é o único exemplo que conheço de uma inversão dos papéis tradicionais. Até então, salvo erro e excluindo a imprensa cor-de-rosa, nunca em Portugal o homem do casal havia assumido de uma forma tão explícita o papel de apêndice. Na praça pública, era invariavelmente a mulher quem desempenhava papel de bibelot, de uma quase-pessoa que se define apenas pelo seu estatuto conjugal. As feministas não rejubilaram, por se tratar de um anúncio em que uma mulher continua a aparecer para vender um produto ou porque a harmonia no lar de Cláudia Vieira seria contraproducente na luta que justamente travam contra a violência doméstica. Em todo o caso, gostaria de pensar que estamos perante um sinal de uma tendência futura: a de que assunção (e eventual instrumentalização) do papel conjugal não reflecte distinções de género." Vasco M. Barreto, Aparelho de Estado

Vã glória



Sempre que faço gala do livro autografado pelo Derrida, em vez do despeito que a sua imodesta ostentação deveria merecer -- mesmo que descontada a inerente magificiência do objecto em causa (escuso de lembrar que o senhor da assinatura faleceu pouco tempo depois) --, sou brindado com a incredulidade dos transeuntes (não é anormal eu lembrar o facto aos gritos pelas avenidas). É algo que me magoa, trata-se da única glória materialista a que me permito, e só me socorro dela quando estou de mal com as coisas abstractas. Não vos custa nada, façam lá o favor de me invejar de vez em quando:


23 anos

"Um erro num diagnóstico levou a que um belga estivesse 23 anos hospitalizado. De acordo com os médicos, o paciente esteve sempre em coma, mas uma investigação recente comprovou que ele esteve sempre consciente.

«Eu gritava, mas ninguém me ouvia», disse o doente, que nunca perdeu a consciência e que via, ouvia e sentia tudo o que se passava à sua volta." TSF
É difícil imaginar desespero maior.

La Strada


La Strada, Fellini, 1954.

A perda de sensibilidade ao rufar dos tambores é, no limite, uma questão moral.

ágrafo ou lá o que é

A blogosfera alimenta-se de retornados e parece que o Eduardo retornou. São uma maçada. Uma pessoa habitua-se à nova vida, usa o espaço livre na garagem, aproveita as idas ao cemitério para umas compras na frutaria, inicia-se em fazer filhos de outras pessoas e, de repente, entra-nos um estranho pelo Google Reader adentro, distinta lata, como se nada fosse. É todo um sossego que nos roubam, olha antes ficasses por lá, que querem se é o que eu penso? Mas enfim, contra estes três posts uma pessoa não pode fazer muito, não é? Para o que eu estava guardada. Senta-te aí na mesa que já te aqueço um leite. Vou lá abaixo buscar-te um resto de bolo de ançã , está um pouco duro mas ainda dá para torrar. Está ali aquela manteiga que tu gostas, anda, vai lá tu. Ainda tens aquele carro velho? Lá vou ter que chamar a carrinha da câmara a ver se me desamparam os móveis da garagem; aquele teu sofá-maple estava cheia de caruncho, sabias? É da maneira que trago cá para cima o aquecedor a óleo, aquela sala virada para a rua não há maneira. Já davas um jeito a esse cabelo, olha para isso. Precisas de dinheiro? Raça do blogger.

Bósnia vs Portugal e os comentários da TVI

Não sei se assistiram ao jogo entre Portiugal e a Bósnia com o som ligado, foi o que me aconteceu. Infelizmente lá vai o tempo em que podíamos baixar o som da televisão e ligar o rádio, hoje o som do rádio chega uns 5 segundos antes pelo que temos que aturar o narrador televisivo que nos calhe em sorte. Prefiro mil vezes as transmissões na RTP, mas isso será uma questão de gosto. O que não é uma questão de gosto é o tom nacionalista trauliteiro com que fomos brindados por um narrador mais preocupado em explicar a geopolítica dos balcãs do que os cortes do Bruno Alves. Ler mais

Permitam-me corrigir: Adeus Scolari


Capa d'O Jogo a seguir ao empate com a Suécia.

Com a devida vénia ao Menphis.

Pandemia de estupidez

Porque é que os meios de comunicação social continuam a noticiar as mortes de fetos em grávidas recém-vacinadas contra a gripe A? Ainda não perceberam as elementares explicações de lógica e estatística que apõem à notícia de cada morte ou é apenas gosto em apaziguar o alarme que criam?

O som e o sentido

"Era aí que eu queria chegar."

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Sá Pinto (act.)

Com a saída de Pedro Barbosa, o director desportivo mais discreto da história do futebol a par de António Simões, José Eduardo Bettencourt teve a oportunidade de escolher para o cargo alguém que, a partir dos cacos, emprestasse alguma sabedoria para reerguer o departamento de futebol do Sporting. Se olhasse um pouco à volta, Bettencourt era capaz de esbarrar em Luís Freitas Lobo, personagem cujo rol de competências não conseguiria passar despercebido ao próprio Pedro Barbosa. Mais: Freitas lobo estaria disponível e não é segredo que há muito que se vem preparando para assumir essa posição assim surja um clube que o mereça (já recusou convites). A escolha era tão óbvia que até o adepto Oliveira e Costa se lembrou de a sugerir. Perante isto, o que fez fez José Eduardo Bettencourt? Inventou o cargo de "director do futebol", sem mandato na definição das contratações, e colocou lá Sá Pinto. Já não sei que vos diga.

P.s. Consta que foi contratado Carlos Carvalhal para treinador. Teria sido importante um nome capaz de inverter a depressão anímica instalada. Parece que o Villas Boas ficava caro, o capital de esperança também se paga.

Muro de Berlim: tarde caíste

É o facto de o Muro ter sido construído em nome de um mundo radicalmente mais justo que hoje rouba possibilidades a quem queira imaginar um mundo radicalmente mais justo.
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As fragilidades da democracia na imprensa desportiva portuguesa

"O voo, a sua elevação e a sua velocidade eram não apenas necessários, como inteiramente insuficientes: é que não é só isto que vem confirma o carácter hiper-incaracterístico da defesa, mas também o facto de o contacto com a bola ter ocorrido com a fragilidade da democracia mais perto da trave, e não, como é usual e mais "técnico", com a que está mais perto da relva (que, por razões biodinâmicas, é a que chega sempre mais além), o que me a considerar, mesmo sabendo que ponho em risco a vida de familias inteiras, esta defesa uma das melhores defesas de sempre."
O maradona oferece-nos este texto onde, entre outras coisas, se atreve a insinuar que a defesa de Fernando Musrela a remate de Flamini seria a melhor do ano (1:50 deste vídeo). Antes de percebermos que o maradona não tem razão, somos obrigados a uma visão catastrofista sobre o país que estamos a construir para as gerações vindouras. Infelizmente há poucas pessoas que falem de futebol relacionando, com tanta pertinência, a vulnerabilidade da democracia com a sociedade do espectáculo -- escusado será sublinhar que a "defesa para a fotografia", com o frugal sonho de posteridade que carrega, está para a seriedade de um guarda-redes como o populismo e a propaganda estão para os governos ocidentais contemporâneos.

Tanto assim que não será inteiramente abusivo afirmar que os voos do Marco Tábuas o terão descredibilizado perante uma opinião pública capaz de perceber o coeficiente de espectacularidade necessário para a obstar a que determinada bola entre na baliza. Com isto não quero negligenciar a existência de voos que, não sendo estritamente necessários para a defesa da bola, contribuem para o bem-estar físico do guarda-redes: muitas vezes notamos que o guarda-redes empreende um voo para evitar bater com a cara no poste, ou apenas pela inércia criada no movimento ao encontro da bola, mas também por uma questão de elegância: aterrar de joelhos na lama pode não implicar uma lesão imediata mas poderá causar uma sensação de baixa auto-estima cuja sintomatologia psico-somática nos permitiria falar num mal-estar físico indirectamente causado por uma defesa particularmente deselegante. (Não, não vou comentar o facto de o Jesualdo ter jogado com o Helton lesionado, estaleiro 3 semanas, dando-lhe cabo da convocatória para o Brasil ao mesmo tempo que menorizou o Beto ao nível de um Wosniak). (eu ponho o ponto final sempre a seguir ao parênteses mas parece que há aí pessoas que.)

Pois bem, em vez da displicência com que o maradona insinua coisas importantíssimas, os jornais desportivos da praça são compostos por gente muito empenhada em contribuir com inanidades para o enchimento diário dos chouriços em apreço. Em vez de um blog abençoado que, sem arquivo, lá nos vai servindo pérolas que sabemos não merecer, teríamos a 5ª edição do livro de crónicas desportivas do maradona há muito esgotada. Mas enfim, eles é que sabem e é capaz de haver quem prefira os analistas bem documentados explicando que passaram 883 minutos desde o último lançamento lateral falhado pelo Maxi Pereira ou o pujante mercado de opinião dos adeptos notáveis que, dispensados de perceber de futebol, vazam as paixões e os estados de alma com a mesma sofisticação com que o maradona vaza latas de sagres.

Entretanto, numa óbvia paródia à incapacidade das editores nacionais no reconhecimento de golpes de asa nas vizinhanças, maradona finge-se encadeado com a espectacularidade insuficiente de um guarda-redes já referenciado pelo Benfica, tentando convencer-nos que a defesa do Musrela é menos impreterivelmente espectacular que a do Peiser ao remate de Di Maria (aos 50 segundos do vídeo ali em baixo), como se aquele desvio bem para a tutano do poste não fosse a coisa mais magistral produzida este ano no Estádio da Luz. maradona e Peiser, dois doadores de momentos proféticos insuficientemente agraciados nas respectivas localidades.


P.S. Como é óbvio escuso-me a comentar o facto de as duas defesas em contenda estarem ao segundo 50 dos respectivos vídeos.

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Robert Enke (1977-2009)


Robert Enke suicidou-se ontem, aos 32 anos.

Fim de século aziago

Já não lhes bastava a desilusão com a queda do muro e ainda tiveram que apanhar com Gorbachev no anúncio da Pizza Hut ou, pior, Otelo Saraiva num clip do Sex Appeal.


Celebre-se


swimming pool

Coxeio moderadamente graças a duas bolas divididas em mais um daqueles jogos no pavilhão da província a dois euros e meio por cabeça -- entetanto decorreram mais dois jogos (um deles no Santa Cruz, excelentes condições para a prática da modalidade fut 7) em que tive a oportunidade de confirmar que estou mesmo aleijado (começando o jogo aquilo aquece e em havendo uma bola a rolar uma pessoa quase que se esquece, depois há sempre o Bio-planter, "super creme de massagem corporal à base de Aloe Vera", que tem o condão de anestesiar a estrutura corporal entretanto massajada).

Sem outro remédio para atenuar o sedentarismo crónico, durante uma semana troco futebol por natação (conceito amplo). Arrasto-me até à piscina da Solum onde nas pistas contíguas se espraiam miúdas elegantes defendidas da nudez por justíssimos fato de banho da Speedo. Reparo que os meus calções Sportzone nem dão pelo fatos, provavelmente porque cada centilitro de sangue está inteiramente ocupado em evitar um afogamento iminente. Ignorado por uma piscina cuja dimensão olímpica faz de Arquimedes e das leias da hidrostática mera questão académica, dou por mim a sentir falta do contacto físico das bolas divididas, raro momento em que a minha existência corpórea parece produzir reais efeitos noutras matérias do cosmos - isto é, umas singelas nódoas negras numa ou noutra canela.

Ludivine Sagnier em Swimming Pool

Fazer piscinas

Venho sempre muito feliz da piscina. Graças à minha singular eficácia energética, em 200 metros sou capaz de despender o esforço que um nadador razoável só gasta ao fim de 2 km. Completamente de rastos, deixei-os com muitas pistas pela frente. É um mundo injusto, eu sei.

Aceitam-se apostas

Quem vai ser o sucessor de Paulo Bento?

Parece que agora anda muito na moda a desculpabilização de Paulo Bento em face do Plantel que lhe calhou em sorte. Não deixando de valorizar as classificações que Paulo Bento conseguiu alcançar à frente do Benfica, pese embora o futebol sempre medíocre, a questão é que um treinador que permanece 4 anos num clube com um departamento de futebol inexistente (sobretudo depois da saída de Carlos Freitas) não pode deixar de ser responsável pelas contratações realizadas -- ainda que com orçamento reduzido (vide Braga) --, nem pela especial vocação para reduzir o talento dos jogadores ao denominador comum de um Farnerud. Vejamos, portanto, algumas das contratações feitas sob o mandato de Paulo Bento:

Paredes, Celsinho, Stojkovic, Marian Had, Pedro Silva, Abel, Bueno, Alecsandro, Paredes, Gladstone, Purovic, Grimi, Postiga, Caicedo, Angulo, Caneira, Rochemback

I rest my case.

P.S Não vejo nenhuma razão válida para que Pedro Barbosa saia, em tantos anos nunca tomou uma opção errada.

Ler

Este excelente texto da Isabel Moreira.

Versões de um mesmo mito

"Vítima como sou de uma dupla enfermidade, tudo o que vejo me fere, e censuro-me sem cessar de não observar o suficiente." Lévi-Strauss, Tristes Trópicos
"Olho analiticamente, sem querer, o que romantizo sem querer..." Álvaro de Campos, 1932

Lévi-Strauss em trabalho de campo

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Lévi-Strauss 1908-2009

Já não podemos continuar a contar.



"Durante semanas inteiras, nesse planalto do Mato Grosso Ocidental, tinha estado obcecado, não mais por aquilo que me rodeava e que eu não voltaria a ver, mas por uma melodia muito batida que a minha recordação ainda empobrecia mais: a do Estudo número três, Opus 10 de Chopin, na qual me parecia, por uma ironia a cujo amargor eu também era sensível, que tudo que deixara para trás de mim nela se resumia" (Lévi-Strauss, Tristes Tropiques).

Estudo, Op. 10, nº 3 em mi maior Tristesse, de Chopin

O blog ficará com o título "Tristes Trópicos", durante uma semana, em sentida homenagem.

A quem possa interessar:

Sobre Claude Lévi-Strauss -Reflexions Faites 1/2



Claude Lévi-Strauss - Reflexions Faites 2/2


The Last Picture Show (1971)