Volta Fernando Lima

O método joyceano dos fluxos de consciência, alusões literárias e livres associações oníricas foi levado até o limite em Finnegans Wake no discurso de Cavaco, que abandonou todas as convenções de construção de enredo e personagem e é escrito numa linguagem peculiar e árdua, baseada principalmente em complexos trocadilhos de múltiplos níveis.



Tordesilhas

Sem grandes pudores, Augusto Santos Silva deu-se ao trabalho de explicar ontem no Prós e Contras como deve funcionar o Tratado de Tordesilhas entre o PS e o PSD. Santos Silva oferece-nos uma preciosa epifania do acordo tácito de repartição de poder que há muito regula a democracia portuguesa. Imprescindível: a partir dos 44:30 deste vídeo (não dá para embutir).

Número de eleitor

Aqui.


Tenham alguma paciência mas a elegia Mélanie Laurent é bem capaz de não ficar por aqui.

JMP



Não é improvável que o meu rabo proverbialmente pesado se mexa no domingo para meter uma cruz neste gajo.

A nacionalização da Galp, defendida pelo Bloco de Esquerda (BE), é uma proposta «pré-histórica», disse esta terça-feira o administrador-executivo da petrolífera, Fernando Gomes.

É inteiramente compreensível a ansiedade do ex-ministro com o regresso a um passado que ameace mexer o tacho que há muito lhe foi dado de presente. Eventos como a nomeação de Fernando Gomes para a Galp fazem parte de uma lógica em que muitos gostariam de ver o corolário do progresso, o tal apaziguamento da política sob o capital que marcaria o fim da história (democracia liberal no dizer de alguns). Não é bem saudades do PREC, mas se isso significa correr com tachistas deste calibre, por bondade, venha daí essa pré-história. Um cheirinho, vá.


Inglorious Basterds


Mélanie Laurent.

A cinegenia e a beleza não têm que andar necessariamente juntas, mas há formas de beleza que são uma questão de cinegenia. À medida que a contemplação quotidiana vai sendo colonizada por essa sensibilidade pró-fílmica, é toda uma concepção de beleza a entrar em modo de casting.

Esmiucemos



Ontem no Esmiuçar os Sufrágios Paulo Portas afirmava que para ele cada um faz como quer: quem quiser casa-se, quem quiser viver em união de facto vive, quem quiser namorar namora, quem quiser ficar sozinho fica. Saúda-se tamanho gesto de abertura às liberdades individuais. Pena tratar-se de um mero logro para parecer mais cool. Ou, se preferirem, é pena ser mentira. Paulo Portas, tal como toda a bancada do CDS, votou passado Outubro contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Mais, o programa eleitoral do CDS para a próxima legislatura é inequívoco na "Defesa da estabilidade da actual definição de casamento". Ou seja, "casa quem nós quisermos".

Conquista normanda

Love is not my forte.

Se não mais, deixo assim expressa a capacidade dissuasora das línguas românicas sobre as germânicas.

Domingos Lopes

Domingos Lopes abandona o PCP abjurando algumas das posições do partido em termos de política internacional. Percebe-se a estranheza de António Figueira quando lembra o tempo passado sobre alguns dos factos históricos em apreço. A mim, todo ingenuidades, afigura-se-me outra questão: porque é que o PCP se permite a manter posições de política internacional inteiramente absurdas que possam -- justa ou oportunistamente -- ser usadas para diminuir o partido? No entanto, mais interessante, talvez, seria colocar a questão ao contrário: porque é que o PCP precisa dessas posições absurdas para continuar a existir contra os seus descontentes?

O Madoff é um menino.


Post sabiamente elaborado pouco tempo depois de ver Varela ir para cima de Ashley Cole.

Jornal de Sexta: missa do sétimo dia

Tal foi o levantamento de indignação, que até há uns dias parecia risível a tese segundo a qual o Jornal de sexta da TVI teria finado na sequência de um estudado favor a José Sócrates. Interessantes questões se colocaram sobre o quando e o porquê de tal decisão: seriam os tortuosos caminhos de uma rizomática cadeia de influência a definir um timing demasiado estrepitoso (um director’s cut a que Sócrates perdeu o controlo dos tempos da montagem); seria, outrossim, o prurido jornalístico da administração da empresa a querer cortar com um espaço industriado por uma lógica persecutória, deontologicamente duvidosa.

Em todo o caso, resultava uma convicção mais ou menos consensual, o fim do Jornal de Sexta da TVI, no momento em que se deu, e dadas as reiteradas declarações de incomodidade por parte do PS, prejudicaria Sócrates: ficava demasiado exposta a suspeita de uma decisão política. Tanto assim que para muitos seria mais plausível uma espécie de teoria da conspiração: o Jornal foi fechado para vincular Sócrates à imagem de um autocrata pouco afeito a certas liberdades de expressão. Seja como for, tudo indica que o fim do Jornal de Sexta permanecerá numa nebulosa. Mas olhando para o rápido virar de página da agenda mediática, parece certo que as teorias da conspiração sobrevalorizaram a comoção a ser gerada por uma putativa luta pela liberdade de expressão. Desconfio que Sócrates ficou a a ganhar. Com a vantagem do tempo, fica fácil de concluir que o benefício político-eleitoral pelo fim Jornal de Sexta supera em muito o dano causado pela indignação que lhe compareceu ao enterro.

Avulsos

Mimi: "A idade não conta, o que conta são os sentimentos das pessoas."
João de Deus: "Tenho mais idade do que sentimentos, é a minha maneira de ser idoso."


Recordações da Casa Amarela

Ismael

"Ismael (o narrador) e Queequeg (o arpoador polinésio) encontram-se pela primeira vez no quarto, praticamente na cama que acabariam por partilhar. A cena não deve fazer parte da literatura queer. Felizmente. Impelido pela modernidade, o leitor procura ali uma tensão erótica inexistente. É uma grande experiência de leitura. A agenda fracturante melhorou Melville." Ouriquense
É inevitável, com ou sem anacronismo é uma cena esplendorosa: cheia de homoerotismo como de anti-etnocentrismo (custa-me muito escrever a palavra "esplendorosa" na grafia correcta, há sempre um "explendor" que se insinua). Mas sim, Ouriquense, as ambiguidades encontradas pelo leitor contemporâneo jogam em favor de Melville.

Brinco

Certo dia fulana interpela-me no final de uma conferência. Fulana convida-me para conferência séria na instituição onde lecciona. Eu a solo pela manhã na sua escola superior de educação. Acedo. Fulana vai-me receber ao comboio. Fulana cora, hesita, e avança entre soluços: se me custaria muito tirar o brinco aquando da apresentação, não por ela mas por alguns colegas menos dados a essas modernices. Eu lamento (verdade), afirmo compreender a posição dela (verdade, só me faltou dizer "ainda bem que reparou no perigo"), informo que não levo a mal (verdade, ela estava mesmo aflita), mas que, em sendo o brinco um problema, nada me custaria regressar no comboio seguinte (mero gesto retórico, com o anfiteatro à espera nem que eu fosse com aqueles colares para esticar o pescoço, além do mais não ia tomar o pequeno almoço no café da estação). A conferência foi séria e não dei conta que alguém reparasse no brinco. Tempos houve em que dava para passar por excêntrico através do uso de bijutaria. Fulanas como aquela são raras. Fazem falta.

Nome

Sou capaz de falar horas com uma pessoa cujo nome não recordo, mas não sou capaz de esquecer um nome.

Não amarás




Não amarás (aka A short film about love). Krzysztof Kieslowski, 1988.

Tomek confessa que, entre outras coisas, espia Magda da janela e lê a sua correspondência há cerca de um ano. Na confissão do adolescente à vizinha inacessível há culpa, mas há também um manifesto orgulho ou, melhor diríamos, há um fervor místico que Tomek exibe como que esperando inteirar Magda dos tantos excessos de que foi capaz; espera convencê-la, talvez, de que nenhuma intrusão é infundada ou separável da grande narrativa do seu sentimento: no cumular dos desvarios Tomek procura persuadir Magda de que tudo aconteceu na justa medida de um amor desesperado. E, na verdade, a estranha condescendência com que Magda acolhe as perseguições de Tomek nada deve à generosidade ("não sou uma pessoa boa"), ao dó ou sequer à reciprocidade de sentimentos. Deve sim, primeiro, ao gosto narcísico de se sentir amada de forma tão dedicada e, depois, quero deduzir, à incompetência desse narcisismo para a defender da empatia. A empatia acontece porque o desespero de Tomek evoca em Magda um passado em que a própria se revê entregue a análogas "faltas de compostura". Os amantes capazes de desespero constituem uma vasta diáspora, nenhum "assimilado" está livre de ser recordado de onde veio e pelo que passou.

Nada de censura

"Logo a seguir ao debate a SIC- Notícias explica aos inteligentes quem ganhou. Três comentadores de direita. Três. Sem contraditório. Um deles a inefável Inês Serra Lopes. Nem só de PRISA vive a censura."
Na RTPN e na TVI24 o cenário não era muito diferente. Em Portugal o comentário político na televisão assenta nuns quantos comentadores de direita e centro-direita cujas opiniões prefiguramos sem esforço. Convidados para assegurar a vetusta tranquilidade do hábito, estes comentadores são guardiões da serenidade do povo. Apesar de tudo são pessoas importantes.

Por falar em Buffon

Esta defesa do Buffon ontem no jogo contra a Geórgia é quase tão boa como esta do Seaman. Eu disse quase.

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Carrara


"Escolha onze jogadores com quem jogou no estrangeiro. Comecemos pela baliza.

[sem hesitar] Buffon. Convivi com ele um só ano no Parma e deu para perceber a qualidade futebolística e humana. Comparo-o ao Baía. Sabe o que tinha o Buffon dentro do cacifo no Parma? Nem vai acreditar! Um poster dos adeptos do Carrarese, o clube da sua terra [Carrara]. Ia ver os jogos deles nas folgas." Sérgio Conceição, I

Vou só ali chorar.

Os livros ardem mal

Sobre o fim anunciado de Os livros ardem mal ler o Luís Januário e o Francisco José Viegas.

Diz o FJV: "Desculpem lá, mas ora foda-se e regressem lá, que eu vou a Coimbra assistir."

E eu prometo fazer menos concessões a um rabo proverbialmente pesado.

Fuga

Uma definição possível de fuga para a frente: solucionar o problema sem problematizar a solução.

Lei Seca

Pedro Mexia e assim.

Bem-vindo de volta.