Bobby Robson (1933-2009)


"We didn't underestimate them. They were just a lot better than we thought.”

Nova e boa vizinhança

No Aparelho de Estado.

MFL e os ricos

"Eu em relação aos ricos há apenas um sentimento que tenho e que é: tenho pena de não o ser." Manuela Ferreira Leite
Citando Paulo Futre, há uma pergunta que se impõe:
E tu, Manuela, quanto ganhas?

Já se mandarem uns piropos altamente heterossexuais à enfermeira ficamos apaziguados

“Quando uma pessoa se apresenta assumidamente como homossexual e quer dar sangue, eu interpreto como uma provocação. Quem quer vir dar sangue não vem com esta atitude.” Presidente do Instituto Português do Sangue, em entrevista ao I.

O Porta-Voz

Já o sabemos, no espectáculo mediático em que se tornou a política, a imagem e as formas de comunicação assumem uma importância desmedida sobre a substância das propostas político-ideológicas. O porta-voz constitui o corolário dessa tendência (nele se reifica a profissionalização da imagem comunicativa do partido), mas constitui também, pela sua trivialização no espaço mediático, um actor político em que o primado da imagem acaba por ser lógico - o porta-voz é, quase sempre, um mero veículo de posições institucionais definidas pelas cúpulas. Assim sendo, só posso estranhar a escolha da imagem do João Tiago Silveira. Sem que me possam acusar de nostalgia pelos tempos de Vitalino Canas, cabe perguntar: será que o PS poderia ter encontrado um porta-voz cuja imagem se distanciasse mais do "imaginário visceral" da esquerda que tanto procura cativar? Duvido.


João Tiago Silveira ainda vai bem a tempo de um bigode farfalhudo.

P.s. Sim, Aguiar Branco é uma tragédia irremediável. Ou irredimível, se preferirem.

João Bonifácio

Ler: Luís Miguel Oliveira e Pedro Mexia.

No brado dos comentários da página do Ípsilon, alguns adeptos do Belenenses, de têmpera particularmente "sensível", supomos, exigiram um pedido de desculpas a pretexto de uma crítica do João Bonifácio. Assim se fez: parece que conseguiram um editorial em que o Público se retrata das alusões do crítico a uma característica quietação do Restelo. É verdade que, quando se trata de defender a dama, o futebol tem aficionados que a toda a hora nos desafiam para um verdadeiro choque de civilizações. Mas tamanho sururu por coisa tão prosaica custa a entender. Isto, claro, se nos alhearmos do surplus de confiança que por estes dias move os mais exaltados guardiões do Restelo. Se tivermos em conta que o Belenenses se mantém na 1ª Liga, há dois anos seguidos, devido a questões de secretaria, é um tanto natural que a fé nos expedientes siga dobrando talheres.

BlogConf

"Entre o calculista e político que age de acordo com as suas convicções ambos se podem enganar, mas o segundo tem sempre a compensação de fazer aquilo em que acreditou." José Sócrates na BlogConf

Mudem "político" por "eleitor" e a tese de Sócrates vale como uma lúcida reflexão acerca do voto útil. Dizia, contra o voto útil.

Frase do ano

"Sou da direita do PS, sem com isso deixar de ser vincadamente de esquerda." João Paulo Pedrosa, Simplex

Há lá muito quem coma

Dirijo-me à papelaria da esquina (como se costuma dizer, "literalmente", a livraria Triunfo fica mesmo na esquina) a fim deitar dois euros na sorte. À minha frente um senhor, pelo trajar salpicado sugeria que vindo directamente da obra, munia-se de raspadinhas suficientes para debastar uma unha de cera das compridas em menos de nada. Debruçado sobre o balcão, o nosso herói fazia-se pesar sobre o amparo das revistas cor-de-rosa que criteriosamente forram o balcão a fim de tentar o olho incauto de um qualquer comprador do New Musical Express. Tanto assim sopesava que, ao preparar-se para meter a mão à carteira, o nosso herói levou a capa de uma das revistas agarrada ao antebraço. No caso uma publicação com a fotofrafia de Carolina Patrocínio na capa a pretexto de ter sido abandonada pela mãe (ou seria o pai?) aos 12 anos.

Nada atrapalhado, o nosso herói apressou-se a socializar a situação: "Isto com o suor ainda lhe levo a loja atrás." O senhor Valdemar, um génio na arte de entreter os clientes nas proximidades dos seus artigos mais suculentos, não teve como se deixar ficar: "Cá para mim, a menina queria ir já consigo!" Pois bem, esta mínima sugestão de affair com a jovem apresentadora provocou no nosso herói um embaraço que não lhe poderíamos adivinhar. Gagueja, hesita, e, finalmente, numa daquelas enunciações fingidamente confiantes oferece uma versão adulta do clássico "também não queria." E que nos diz ele?: "Sr. Valdemar, pode ficar com ela. Sabe, há lá muito quem coma. Há lá muito quem coma. Se há... Há lá muito quem coma."

Nurgül Yesilçay


Joana Amaral Dias

"Ao que parece, ninguém contava com a nega da bloquista."

Por muito que a coerência seja frequentemente sobrevalorizada, fica difícil não reconhecer qualidade de nervo a Joana Amaral Dias. Sem se melindrar com epítetos de traidora, apoiou a candidatura de Soares por defender uma federação da esquerda contra Cavaco (a colagem da candidatura de Soares ao PS, um óbvio equívoco estratégico, acabaria por a apanhar um pouco desprevenida). Regressou ao BE e apesar de um ter sido estranhamente excluída da mesa nacional preferiu reafirmar valores a deixar-se levar em contra- ressentimentos. Aqui chegados, a recusa de Joana Amaral Dias ao convite do PS só surpreende os menos habituados à longevidade das palavras.

Orangina


Heráclito e assim.

À Benfica

Excelente recolha de arquivo. Na verdade, um post essencial.


Jamais

Primeiro o Simplex, agora o Jamais. O cabeçalho “Jamais” capitaliza inteligentemente a trapalhada da OTA como símbolo da falibilidade do furor reformista e infra-estruturante do governo de Sócrates. No entanto, ao designarem de “Jamais” o novo blog de apoio ao PSD, os seus autores incorrem, a meu ver, em dois equívocos:

1- Afirmação pela negativa. Embora seja normal que a oposição use a crítica ao poder como plataforma argumentativa privilegiada, vivemos um momento em que opinião pública, mesmo à direita, começa a ressentir a ausência de uma lógica propositiva na candidatura de Manuela Ferreira Leite. Nos últimos dias a principal candidata da direita tem sido crescentemente confrontada com a aparente perpetuação de uma lógica meramente contestatária, sem apresentação de alternativas construtivas, bem como com o tardar do programa de governo que, por estes dias, já deveria estar disponível para a discussão pública. Neste quadro, as declarações de Aguiar Branco antecipando um Programa de Governo minimalista confirmam o pressentimento geral: o PSD não tem ideias concretas ou, temendo sufragá-las, pretende limitar a sua agenda a uma oposição à obra e às propostas de Sócrates. Assim, ao assentar num jamais que equivale à recusa de um segundo turno de Sócrates, o blog recém-criado sedimenta, desde logo, uma linha que, embora aceitável nos partidos associados ao contra-poder, começa a ser insustentável para um partido que tem legítimas aspirações a assumir os destinos do país.

2- "Jamais" remete para um “nunca mais!” que se percebe nalguns momentos pungentes da história das sociedades: guerra, genocídio, totalitarismo, catástrofes ecológicas. Ainda que a hipérbole pertença ao âmago do discurso político, a utilização do "Jamais" resulta numa demonização desproporcionadada do que foram os últimos quatro anos do mandato de Sócrates no quadro histórico da democracia portuguesa (até para os seus maiores críticos). Se fosse possível dizê-lo sem paradoxo: é uma hipérbole excessiva que banaliza a história.

Nina e Filipe

"O uso das vírgulas na tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra de A Morte de Ivan Ilitch é absolutamente admirável." Lourenço Cordeiro, Complexidade e Contradição
Da minha parte, ando vagamente enlevado com a amplitude vocabular que a Nina e o Filipe colocam na tradução das Almas Mortas do Gogol. Perante tais factos, há dias que me pergunto, que género de relação mantém Nina (belíssimo nome) com Filipe? São irmãos?, partilhando um vocabulário enriquecido em vivências divergentes, são casados?, tendo um imenso vocabulário que, apesar de uma convergência dramática, jamais se fundiu na comunhão de bens. O mais certo é a Nina ser originalmente Russa e o Filipe português, entretanto casados. Mas como se conheceram, com que idade, quem gosta mais? Há informações que a Assírio e Alvim não devia deixar de providenciar aos seus leitores logo na contra-capa. Lourenço, afinal o que sabes sobre isto?

Governo Sombra: Mário Lino

Mário Lino, que até ao momento ainda não comentou um eventual acordo pré-eleitoral com Manuela Ferreira Leite, vai fazendo o que pode garantir a rotatividade governativa. Ao contestar ontem em conferência de imprensa as conclusões do tribunal de contas, o ministro das obras públicas mostrou como deve trabalhar um Caterpillar gripado em arranjos de demolição. Num momento em que a reduzida capacidade do PS para convencer o país da bondade das grandes obras públicas vai sendo um dos trunfos eleitorais do PSD, nada como dar tempo de antena ao homem que, desde o Jamais, corporiza a firmeza governativa de Sócrates. Igualmente inteligente terá sido a estratégia de apontar baterias, cirurgicamente, contra o relatório do tribunal de contas, contra a comunicação social e contra todos aqueles que, pela mera omissão de um concurso público, possam estar convencidos de marosca da grossa. Ainda assim creio que Mário Lino podia ter feito um pouco mais. Uma conferência conjunta com Jorge Coelho e José Sá Fernandes a defender o contrato com a Liscont teria tido um impacto bem mais assinalável, seria uma forma de manter a passadeira vermelha bem estendida sob Ferreira Leite, de lembrar o PS como parte da parte do exército político cujos ex-ministros descobrem vocação para o negócio (in your face, Dias Loureiro) e, finalmente, uma forma de dar um impulso a Santana Lopes relembrando Sá Fernandes como o incorrupto que não tem muito jeito para escolher cadeira no Prós & Contras (a rebocada que António Costa estava a precisar depois daquelas bocas sobre o Metro).

Mil corninhos de Manuel Pinho jamais sonharão o estrago consistentemente laborado pela solenidade bonacheirona de Mário Lino.

Miguel Veloso

Sempre que alguém é reduzido à insignificância, não é bem à "sua" insignificância que é reduzido. A queda forja uma pequenez inédita.

Às direitas



Tenho dificuldade em perceber como é um slogan tão ostensivamente equívoco pode ter surgido na cabeça de um ser humano, mas tenho mais dificuldade em perceber como é que resistiu ao crivo de toda uma equipa de campanha até chegar a outdoor. Sem sermos escusadamente cáusticos, cabe reconhecer que todas as conotações de “uma mulher às direitas” são desastrosas, contraproducentes e vagamente trágicas.

Uma mulher às direitas:

1- "Mulher às direitas" remete para noção de recato feminino, uma celebração da mulher do antigo regime (not Ana Gomes)
2- "Às direitas" convida a uma associação à direita (not Ana Gomes)
3- "Às direitas" incita à ideia de uma postura ético-política inatacável (depois das repercussões da dupla candidatura de Ana Gomes é no mínimo insensato sequer invocar a questão ética).

Eu gosto da Ana Gomes, mas é difícil defendê-la da determinação com que dá tiros nos pés.

Simplex

Com eleições a 27 de Setembro, seria de supor que a blogosfera veraneasse em águas mais agitadas do que o costume. A criação do Simplex, blog de apoio ao PS, é, até à data, a mais séria confirmação dessa expectativa. Entendo que a construção da opinião a partir de uma declaração de voto constitui um sério ganho para a transparência do debate. No entanto, por outro lado, traz-me uma reserva que temo não conseguir explicar devidamente. Tentarei.

Ao mesmo tempo que a declaração pública de apoio a um Partido recusa o tacticismo de uma opinião que se escusa a dizer claramente ao que vai, cria uma atmosfera intersubjectiva de arregimentação que pode ter como um dos seus efeitos a elisão de um distanciamento crítico, aquele mesmo que, no pesar de prós e contras, no ponderar dos diversos temas da vida pública, foi prévio à cristalização de uma decisão em relação ao voto. A consequência deste facto é uma recepção previsível dos dados do debate político de tal modo que as críticas às posições do partido apoiado dificilmente serão mais do que ténues concessões retóricas. Esta questão é tão mais premente uma vez que numas eleições legislativas não se sufraga uma questão ou uma causa específica, mas uma míriade de questões conforme expostas nos programas de governo.

Por seu lado, a construção de uma opinião que evita colar-se decisivamente a uma decisão prévia de voto também tem implicações ambíguas. Pode constituir uma forma menos transparente de entrar no debate se essa omissão, qual agenda escondida, der lugar a proselitismo instaurado a partir de uma simulacro de distanciamento crítico: a cada tomada de posição configura-se uma relativa imprevisibilidade que se poderá traduzir na adesão empática de um espectro mais alargado de sensibilidades políticas (relativa imprevisibilidade porque facilmente se percebem as águas políticas em que cada navega). Mas a produção de opinião apartada da declaração de apoio a um partido também pode constituir algo de positivo no debate, quer como reflexo de uma sincera reserva no apoio a um partido, quer como reflexo de uma atitude de continuado culto da dúvida que metodicamente assume prioridade sobre o indício das próprias certezas. Por muito rebuscadamente que esta posição posssa ensaiar uma ética subjectiva de dúvida, ela pode responder a um esperar para ver em que o sujeito comprometido se adia (venha a campanha, venham os programas dos partidos, venham as sondagens), mas também pode responder à exigência de uma postura que se quer mais genuinamente crítica: 1) como cultivar de uma convicção opinativa heterodoxa, em que o texto subjectivo e o público se informam recursivamente; 2) Como expressão de uma lealdade política baseada na hermenêutica da suspeita, aquela que só entrega a idiossincrasia da sua visão da política ao programa de um partido, se tanto, no recato da urna.

Avulsos

"In fact, back in my "wild" student days, my party trick in nightclubs was to hop out of my artificial legs, walk upside-down on my hands, climb podiums and make a general spectacle of myself. There's a club in Leeds – at least, there was in my day – which served double tequila shots for a pound a go (if you don't know it, it's the only one I know of with a St John ambulance parked permanently outside). I still maintain I'm the only person who has ever been asked to leave this particular establishment and needed two taxis to transport all of me home." Richard Pollins, Guardian

Avulsos

Power is not evil. Power is games of strategy. We all know that power is not evil! For example, let us take sexual or amorous relationhips: to wield power over the other in a sort of open-ended strategic game where the situation may be reversed is not evil; it’s a part of love, of passion and sexual pleasure.
Foucault, The Essential Foucault, p. 40

Luciana Abreu e Djaló

Lê-se no site de Luciana Abreu:
"A imprensa de tanto escrever e inventar acabou por nos aproximar de uma maneira encantadora, enquanto dávamos risadas sobre a polémica e as matérias que saíam."
Como se percebe neste excerto, são muitos os casos em que a imprensa cria a realidade de que fala. Na imprensa do coração não existem mentiras, apenas tentativas de verdade, regimes de verdade que sucessivamente ensaiam compassos com a realidade. No fundo, tudo se passa como nas capas d'A Bola sempre que estas tecem loas ao futuro radioso do Benfica. Nos amores a coisa vai funcionando e as profecias vão sendo solicitadoras de um exuberante construtivismo romântico. A Bola não tem tido a mesma eficácia, tantas capas épicas depois, há anos que a realidade insiste em não se enternecer.


Via Caranguejo.

Recomeços

Compreendo bem que o Miguel Vale de Almeida eleja, como principal perigo, a possibilidade de as próximas eleições entronizarem uma Ferreira Leite secundada por Paulo Portas. Não é por isso que o seu recente post é menos desconcertante.

Vamos por partes. Começando por dar razão ao MVA na campanha que lançou contra Ferreira Leite, também acho pouco sensato que sensibilidades à esquerda do PS continuem a agir como se a prioridade ainda fosse tirar maioria absoluta ao PS – pouco sensato não porque essa agenda esteja esvaziada de cabimento para quem identifica a linha política do PS como uma óbvia traição do que fosse um projecto de esquerda, mas porque a hipótese de maioria absoluta terá morrido de “morte morrida” depois das eleições europeias (se a vitória do PSD poderia roubar votos ao PC e ao BE em favor do voto útil, a clara derrota do PS também impôs uma dinâmica de perda quase impossível de ser revertida para as alturas de uma maioria absoluta).

Entendo, por isso, que as sensibilidades à esquerda do actual PS, sem abandonarem as óbvias prerrogativas de oposição ao poder dos últimos 4 anos, devem recalibrar o discurso que chegou às Europeias, ou seja, devem apontar baterias mais seriamente ao perigo do regresso da direita. Não que o melhor seja esperar o pior, mas importa ter a consciência de que pior é possível.

Um outro aspecto da declaração de voto do MVA (nisto estou próximo do que diz a certa altura o José Gusmão) é a persuasão (ou intuição) acerca do peso assumido por um activismo público historicamente centrado na questão LGBT e, nele, o peso da promessa feita pelo PS em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Como se percebe neste post, a promessa feita pelo “provável futuro primeiro-ministro”, mesmo que na ressaca do lamentável 10 de Outubro, gerou no MVA um entusiasmo justificado pela iminência de uma importantíssima conquista, uma conquista no quadro de uma luta antiga (a luta dos movimentos sociais LGBT que se teria constituído num dos esteios da fundação do BE) que foi alargando a sua esfera de influência até surgir no programa de um partido com ambições de governo. É à luz do desejo de que esta promessa seja cumprida que, porventura injustamente, descortino algum wishful thinking no MVA em relação à ideia de um PS tão mais contaminado (para usar as palavras do Daniel Oliveira), um PS menos neoliberal, menos ligado aos interesses instituídos e menos conservador (ressalva: em termos de valores Sócrates é menos conservador que o partido, e muito menos do que o partido das distritais a que alude o Daniel Oliveira).

Seja como for, desta tomada de posição do MVA resultam duas questões que me parecem interessantes e substantivas. A primeira, identificada pelo José Gusmão, tem a ver com dois perigos que se tocam: o perigo de uma agenda política monotemática e o perigo de cristalização da luta contra a homofobia no casamento entre pessoas do mesmo sexo (não entrando num velho debate, este perigo é tão mais premente quanto a adesão à conquista parcial aventada pelo PS possa significar uma quebra na solidariedade identitária que tem sustentando a agenda mais ampla que, como o Miguel afirma, germinou no movimento LGBT e veio a verter-se como esteio fundamental na agenda de compromisso que fundou o BE -- especulo).

A segunda questão tem a ver com o dilema do voto útil para evitar um governo de direita (da direita à direita do PS). Neste particular tenho ideias claras (uma raridade). Identifico duas dimensões: o voto e o discurso público (isto é, o discurso das campanhas partidárias e o discurso dos esquerdalhas com voz pública). Na opinião e no discurso público, creio que as sensibilidades à esquerda do actual PS devem ter presente o perigo de um retorno PSD/CDS como a mais importante frente de batalha. No voto, perante um eventual dilema entre lógicas demasiado viciadas no contra-poder, por um lado, e, por outro, poderes "socialistas" demasiado à direita, nada como ser convictamente útil. Como? Forçando, pelo voto, um regime de pactos à esquerda que obrigue o contra-poder a assumir responsabilidades (até que os votos lhes ardam nas mãos). Da outra parte, resta esperar que o PS esteja disposto abdicar da terceira via, do bloco central, da rotatividade dos interesses, se não para se chegar convictamente à esquerda que estaria no seu ADN, pelo menos para evitar o regresso da direita -- versão salivante Portas/Ferreira Leite. (replay)

Versões de um mesmo mito








Michael Cera, Lázaro Ramos.

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Gripe A

Um controlo capaz da Gripe A pode traduzir-se num importante trunfo eleitoral para José Sócrates (basta imaginar Sócrates transformado num misto de director-geral de saúde e de Dr. House de todos nós). Nisto a leitura do Luis Rainha é inteiramente pertinente. Mas talvez valha a pena colocar uma outra questão. Num quadro em se prevê que 25% da população possa vir a ser infectada, não custa supor que algum dos líderes partidários contraia a malfadada pandemia (a vacina só estará à venda dia 1 de Outubro, sinceramente desconheço se os ocupantes de cargos públicos críticos poderão ser inoculados antes dessa data). Mesmo se os anti-corpos nada relevam para a possibilidade de se contrair ou não a gripe (segundo percebi, ninguém os tem), o candidato a primeiro-ministro que apanhe a infecção, ainda que por motivo de generoso banho de feira, passará uma inevitável imagem de fragilidade. A política também se faz de cruéis sortilégios, quem tiver o azar de ficar infectado não espere votos de melhoras nas urnas.

VPV

Vasco Pulido Valente, em entrevista a Carlos Vaz Marques, Revista Ler:
CVM: "Sente que passou ao lado de alguma coisa, que podia ter sido uma personagem maior?"
VPV: "Por amor de Deus, isso é uma pergunta extraordinária. Se eu fosse capado e rico é possível que tivesse escrito melhor História."

Avulsos

"No plano pessoal, Ronaldo cada vez mais se assemelha a um fedelho destituído de estofo suficiente para poder ser um exemplo humano razoável." CAA
Detesto ter que defender o Ronaldo, mas o deita-abaixo nas ladainhas moralistas enerva-me mais que a falta de consistência cénica do rapaz (a meu ver, o seu maior "defeito" -- ao contrário de outros, atenho-me à crítica da figura mediática).

Comentemos então o que nos diz o CAA sobre o "fedelho":

1º ponto: Tanto quanto sabemos, a família dele não dirá o mesmo, aliás, haverá poucas celebridades tão dedicadas à família. Um exemplo prosaico, podendo os jogadores seleccionar um familiar para festejar o título em campo, não me lembro de algum ter levado a mãe como fez Ronaldo passado Junho em Old Trafford (vide foto). Um gesto"exemplar", porventura.

2º Ponto: Fica por saber de que modo a fama, a fortuna e o assédio do mulherio moldariam o nosso carácter. E o do CAA, já agora.

3º Ponto: Em que alturas morais é que o CAA paira para julgar com tão agudo discernimento aquilo que deva ser "um exemplo humano razoável"?

Ronaldo: top 10

O vídeo em baixo apresenta-se como uma das poucas tentativas sérias de reunir os dez melhores golos de Ronaldo. Valorizo tentativas sérias e eu próprio não adormeço sem tentar seriamente qualquer coisa. Fui buscar umas petitas de caju, preparei água tónica e respectivo, desliguei telemóvel e carreguei no play daquilo. Pode ser hoje, pensei. Pensei mal. Não obstante o valoroso reconhecimento daquele contra-ataque contra o Arsenal, a desilusão acabaria por prevalecer (dado comum às minhas tentativas sérias). Basicamente, este vídeo é feito para resultar persuasivamente junto de um público versado em castelhano, simpatizante de compilações sem Eminem em fundo, ignorante do que seja o Gin ou o futebol de um modo geral.

Comecemos pelo elementar: 1) A omissão do golo de cabeça contra a Roma devia envergonhar qualquer uploader amador do youtube quanto mais o editor de desporto de uma televisão que se faz cobrar (identifico nessa omissão um lamentável sintoma da tentação de definir os atributos de Ronaldo na narrativa estreita de explosão, velocidade, remate -- narrativa análoga daquela que, de um modo mais amplo, exclui os golos de de cabeça no cânone ocidental); 2) O golo contra o Porto, apesar de estrepitoso, jamais mereceria ser considerado o número 1. Desde logo porque, na secção dos remates inverosímeis, o livre do Portsmouth militaria sempre à frente. Além do mais, com a ausência de uma câmara frontal à baliza, o golo no Dragão ficou prejudicadíssimo pela espectacular incompetência da realização; 3) O golo contra a Arménia, [advérbio expressivo de indignação] colocado em segundo, resulta de uma finta ao alcance de qualquer Marco Ferreira, é simplesmente inacreditável que alguém imagine que ele pudesse fazer parte de um top 40 que fará do top 10. Bem, vejam lá o vídeo que até é esforçadinho. (Replay)

Não sei o que me irrita mais

Não sei o que me irrita mais, se o monstruoso circo mediático que se fez em torno da apresentaçao de Ronaldo, se os marretas que apontam o dedo à monstruosidade da coisa.

Nereida




Sob um rigoroso contrato de exclusividade, Nereida acompanha a apresentação de Ronaldo como comentadora da Antena 3. Nereida é uma das raras pessoas capaz de sustentar a tese de que em cada desgosto amoroso há sempre um património pessoal a reter. (Replay)


Vittorio Gassman, Agostina Belli, Dino Risi.

Engenharia de Materiais

Na esplanada onde me sento a pensar na possibilidade de um espécime cruzado de J.G Ballard com Humberto Maturana, reparo que 80% das mulheres usam sandálias com cunha em cortiça.

Pinho e Zidane

Manuel Pinho despede-se da política como um dia Zidane se despediu do futebol. Sob o brilho das luzes, ao som da corneta.


As grandes obras públicas

A dificuldade política de Sócrates em avançar com grandes projectos deve-se, em parte, ao que pode haver de contra-intuitivo nos grandes investimentos em tempos de crise (apesar da apregoada racionalidade ecomómica). No entanto, a sondagem em que 2/3 dos portugueses se manifestam contra a imediata execução do TGV, da nova ponto sobre o Tejo e do Aeroporto, é produto de um outro tipo de cepticismo. Primeiro, reserva em relação a uma putativa megalomania nascida da vontade de imitar a Europa civilizada. Segundo, mais importante, reserva em face da assombrosa facilidade com que caíram as firmes certezas do governo em relação à OTA. O facto é prosaico: a passagem do aeroporto da OTA para Alcochete, sob pressão da sociedade civil, representou um golpe mortal no capital de confiança do governo para decidir sobre obras públicas, quanto mais grandes obras públicas. Esqueçam o reformismo autoritário de Correia de Campos, esqueçam as gafes de António Pinho, esqueçam o achicalhamento dos professores às mãos Maria de Lurdes Rodrigues. No dia das eleições, a lógica empreendedora de Sócrates terá contra si o inesquecível "jamais" de Mário Lino.

Benfica

A avaliar pelo cololóquio que presenciei na papelaria da esquina, a proclamada judicialização da realidade social portuguesa foi, até ontem, manifestamente exagerada.


Ponto Contra Ponto II

O João Gonçalves escolheu atirar-se ao meu texto (“Ponto Contra Ponto”) como expediente para defender o Ponto Contra Ponto de Pacheco Pereira. Nada contra. Frentes do ataque? Primeiro pecadilho: o estilo da prosa, “certinha e respeitosa”, ao mesmo tempo capaz de fazer o leitor soçobrar à primeira linha de crítica negativa (agora que o estilo de João Gonçalves foi consagrado por Pacheco Pereira teríamos mais é que lhe imitar a pinta, já se percebe) e capaz de ser apreciada por quem deve ser apreciada, ou seja, imagino, o vasto universo de pessoas menos estimadas pelo João Gonçalves (deduzimos que entre as pessoas menos estimadas pelo João Gonçalves se encontrem grandes quantidades de hermeneutas persistentes).

Segundo pecadilho: acusei Pacheco Pereira de medroso: “Até se fala no «medo»”, diz o João Gonçalves. Verdade que até se fala no medo, mais exactamente quando digo que, entre outras coisa, Pacheco Pereira nos quer converter ao medo pela extrema-esquerda. Creio não dar novidade a ninguém afirmando que Pacheco Pereira, um pouco na linha de Augusto Santos Silva, vem tentando descredibilizar os partidos à esquerda do PS acusando-os de extremismo, acusando-os de estarem fundados numa tentação totalitária, acusando-os de usarem a respeitabilidade democrática como fachada. É no mínimo espectacular (lá estou eu a ser certinho e respeitoso) a passagem que permite ao João Gonçalves aparecer como o cavaleiro andante de Pacheco Pereira para lhe defender a coragem. Para que fique claro, até vejo Pacheco Pereira com alguém corajoso, prova-o o modo como se insurgiu com a linha que a certa altura dominou o PSD, pouco fazendo das acusações de traição.

Mas também acho, e aqui volto a um dos pontos da “análise”, que Pacheco Pereira perde noção de ridículo quando fantasia um clima de censura mediática e de silenciamento pelo politicamente correcto, “os tais tempos difíceis para a opinião”, de modo a poder configurar-se como a voz anti-regime que heroicamente resiste em nome da liberdade. Nesse sentido, a alusão ao post do Filipe Nunes Vicente, onde se faz equivaler a crítica ao Ponto Contra Ponto a uma questão de liberdade de expressão, mostra que ou João Gonçalves partilha da visão paranóica de Pacheco Pereira ou – o que apesar de tudo me tranquiliza – não quis entender linha do que se tem dito sobre o novo programa.(Replay)