Balanço

Uma das razões porque nunca serei alguém prende-se com tempo que tenho perdido nesta vida à procura de talheres. As gavetas falsas debaixo dos lava-louças -- esse hediondo simulacro -- devem-me quantidades de tempo difíceis de conceber para um mortal. Sei-o bem: a abolição das gavetas falsas chegará tarde demais para mim. Que as gerações vindouras não passem pelo que eu passei.

DVD II

A vida pública portuguesa é um repositório compreensivo das possibilidades tecnológicas na captação vídeo. O filme do telemóvel de uma aluna, o VHS de Tomás Taveira, o DVD Alan Perkins: em três tempos, pequenos sismos industriados por um mesmo desejo de arquivo.

DVD

Desconfio que depois daquele DVD o juízo público já não tenha como se comover a respeito de questões processuais. Perante tão decisivo documento, a presunção de inocência ou a ausência de uma acusação judicial não serão suficientes para salvar Sócrates politicamente. Só lhe resta, e isto não é pequeno argumento, Manuela Ferreira Leite.

Playboy PT

As dúvidas têm enfim resposta. A Playboy PT seguiu a via da reciclagem. Repare-se na capa, opção gráfica e editorial. Sinceramente, o meio ambiente não pode justificar tudo.

Lençóis Polares

Mas afinal o que é isso dos lençóis polares? Quer dizer, há por aí novas tecnologias de quentinho nocturno e eu, sem mais para onde me virar, sou o último a saber? Francamente.

Elizabeth Fritzl (act.)

Poucas pessoas têm a noção de que Elisabeth Fritzl começou a ser sexualmente abusada pelo pai aos 11 anos, ou seja, sensivelmente 7 anos antes de ser levada para o inominável cativeiro onde acabaria por viver mais de duas décadas. Tudo começou, pois, pela mais trivial das modalidades no abuso sexual de menores.

A Áustria de Joseph Fritzl, como noutro momento a Casa Pia, chega-nos como que demarcando o horror. O mal é circunscrito nos territórios, supostamente insólitos, onde a vilania do abuso se articula com determinadas lógicas organizativas, quase burocráticas, que ao longo dos anos vingam cumprir tranquilamente os seus propósitos.

O tratamento mediático do caso Fritzl, ou da Casa Pia, não permite que estabeleçamos quaisquer elos com aquele que é o trivial abuso sexual de menores em Portugal, seja no recato dos lares, seja nas muitas instituições de internato pelo país. Pelo contrário, os media fazem-nos crer no insólito, histórico e geográfico, do abuso atroz. "Era um sujeito muito pacato e simpático, ninguém imaginava que fosse capaz disso", frase sintomática de um espanto ignaro.

Não digo nada de novo, mas lembro que a disposição para nos fascinarmos com a excepcionalidade dos "monstros totais", como sempre que se discute a perigosíssima "humanização" dos fautores do Holocausto (ainda recentemente vieram uns tantos patetas rasgar as vestes por causa do filme The Reader), só serve à ocultação do mal que nos é vizinho, só serve ao espanto perante a complexa humanidade, tão próxima da nossa, dos perpretadores de formas atrozes de abuso e violência. De algum modo, o simpático vizinho que abusa da filha agradece o fascínio mediático pelos monstros austríacos, essa confortável comunidade imaginada de abusadores arquetípicos.

Grandes Penalidades

Duas cabeças na forca. Duas hipóteses irónicas para a salvação do carrasco da outra hora. Tiago podia salvar Lucílio Baptista. Quim podia salvar Quique Flores.


Ludivine Sagnier, Cédric Martigny

Corpo

"Agora, vá-se lá compreender a minha mente, dei para sonhar com o Rogério Casanova. Não usa peúgas brancas mas, pior, passeia-se pelos meus sonhos no corpo do Álvaro Costa, o apresentador gaiteiro da Liga dos Últimos." Ana, Ana de Amsterdam

O fim do voluntariado

Amou na forma tentada. Disso não a poderão acusar.

Angola é nossa, se Deus quiser

Mentiria se dissesse que não estou surpreendido com o acompanhamento da visita do Papa a Angola na imprensa portuguesa. Chegámos ao ponto de ter directos da RTPN e da TVI24 num sábado à tarde (os canais generalistas não andam menos comovidos).

Não deixa de ser estranho verificar o quanto a explosão mediática de Angola tem sido conciliada com um olímpico desprezo pelo vasto país, aquele que não figura na êxtase dos negócios ou na solenidade das visitas de Estado. Já que a nossa imprensa está tão apostada na reprodução dos sempre excitantes momentos de ritualização da "relações bilaterais", talvez fosse expectável que produzissem alguma informação sobre a realidade social do país. Não falo apenas no sentido de uma crítica social à opulência das classes dirigentes -- o que não deixa de ser uma omissão mortal--, até porque documentar Angola reduzindo-a à imoralidade das assimetrias económicas seria de um reducionismo simétrico daquele que hoje temos. Falo sim de um mínimo pudor em acrescentar alguma matéria, documental e informativa, a uma Angola que só nos chega na versão fato e gravata.

No entanto, a forma como a visita do Papa está a ser seguida representa abismos de outra espécie; a presumida pertinência mediática do evento para a realidade portuguesa assenta em duas efabulações da nostalgia: 1- a convicção de que angola ainda é nossa; 2- a convicção de que ainda somos um país de católicos (somos, mas em termos de inconsciente colectivo, não no interesse pelos rituais da Instituição). A visita do Papa a Angola tem servido para expor uma uma geografia simbólica que pelos artifícios da nostalgia situa Portugal entre o Vaticano e as Colónias. É coisa para lhes passar.

Primavera

Ao contrário do que julgam os alfarrabistas de Delft, sou uma pessoa bem documentada em relação às suas alergias. Há uns 15 anos o meu braço foi picado em toda a sua extensão: cada buraquinho da minha pele fofinha foi emparelhado com uma substância potencialmente alergénica. Concluídos os testes, fiquei a saber que sou alérgico aos ácaros que se passeiam no pó da casa. Consequências imediatas: adeus alcatifas felpudas. Mais: varrer, limpar ou aspirar o pó tornaram-se-me actividades interditas (não imaginam o pesar com que expliquei o facto à entidade maternal). Fiquei também a saber -- aliás era esta a grande dúvida -- que não sou alérgico aos pólens. Consequência imediata: a límpida persuasão de que nenhuma primavera me deveria justificar cuidados de maior e, muito menos, a reclusão.

Quinze anos depois, continuo encafuado em pó doméstico enquanto o mundo inspira o pólen dos decotes primaveris. O meu perfil alérgico continua por cumprir.

Gran Torino (2008)



Um alpendre. Não estão bem a ver falta que me faz.

Discriminação Positiva

Respondendo às acusações de segregação, a responsável pela Direcção Regional de Educação do Norte garantiu que o caso da turma de alunos ciganos que tem aulas num contentor, à parte dos restantes alunos da Escola da Lagoa Negra, em Barqueiros, é «descriminação positiva», uma vez que visa «tratar diferente o que é diferente».

O papel dos contentores nas políticas de discriminação positiva tem sido tragicamente subestimado.

Morten Pedersen


A velhacaria exige formação e talento. Morten Pedersen nasceu para ser honesto.

João Mesquita (1957-2009)











Ferreira Santos / Diário de Coimbra

7-1

Abel: "Todos os adjectivos que nos quiserem atribuir, nós vamos assumi-los".
Uma reacção inteiramente aceitável a esta declaração será a de quem se sentir compelido a percorrer o dicionário a fim de colher adjectivos, suficientemente insultuosos e escarnecedores, para poder descrever com requintes aquilo que se passou em Munich. Não querendo encontrar bodes expiatórios em todos os jogadores do plantel do Sporting, na direcção, no treinador, na ideologia fundamentalista de culto à formação, na avidez de Klinsman, ou no próprio Rui Santos, peço-vos contudo que deixem o Abel fora disto. Atentemos antes no modo refinado como ele define a fragilidade pública do atleta: a manifesta desprotecção perante um previsível surto de virulência adjectival. Na versão de Abel, estar na merda é estar à mercê dos adjectivos dos outros.

Saber estar na merda é, portanto, aceitar todos os adjectivos, não porque se presume uma imunidade do "eu" em relação aos momentos negativamente marcantes, ou em relação aos textos que deles falam -- isso seria negar a terrível eficácia dos estigmas como âncoras da memória colectiva (Paulo Madeira será sempre o jogador de Vigo) --, mas pela consciência de que os adjectivos, para o bem e para o mal, são exímios em levar os adjectivados para a cama (a fim de compromisso sério). Abel, aquele que é provavelmente o mais bem falante dos jogadores da Liga Sagres, ciente da inescapabilidade do abismo bávaro, fez o possível para não ir além de uma one night stand com o "breviário de insultos a equipas humilhadas". A zona mista é um lugar de difícil redenção.

Maradona by Kusturica


Uma imensa desilusão. Meço as palavras (pun intended).

P.s. Dispensava o tanto que este filme dá a conhecer de Kusturica. Não falo só por este filme.

Ralph Fiennes: The End of the Affair

Ralph Fiennes acumula muitas personagens marcantes representando um amante traído pelo destino. A consequência mais óbvia deste facto, que certamente deve à apetência do actor para corporizar uma certa dimensão trágica, é, a meu ver, a impossibilidade de escaparmos à recursividade imposta por cada reinvestida. O espectador memorioso está condenado a uma espécie de intertextualidade: os gestos, as palavras e os olhares por que Fiennes representa a angústia revoltada enviam-nos sucessivamente para outras histórias. Assim, aquilo que ganhamos em familiaridade perdemos em autonomia narrativa; por culpa de Fiennes, filmes como The Wuthering Heights (1992), The English Patient (1996), The End of the Affair (1999) e The Reader (2008) estão condenados a ser parte do mesmo filme.

Ludivine Sagnier


Avulsos

"Portugal arruma silenciosamente as antigas colónias com desprezo e ingratidão, sobretudo se elas não dão lucro. “Eles matam-se muito uns aos outros”, parece ser o mote vergonhoso. Acho muito estranho que se tenha falado “da morte de Nino Vieira” com esta simplicidade, como se tivesse sucumbido a uma pneumonia. Dá uma ideia do estado das coisas quando tudo está entregue a gente sem memória nem história" Francisco José Viegas, A Origem das Espécies.

O sublime grotesco

Mickey Rourke é o Viktor Yushenko do subjectivismo.

O-O (duas notas)

1- O Derlei é uma pessoa que reacende a velha questão da justiça divina: será o acto humano ultimamente julgado pela intenção ou, antes, pelas consequências que enceta no incerto mundo dos mortais? Detectei no jogo de ontem duas agressões intencionais: Rochemback sobre Lisandro, Lucho sobre Derlei. Essas agressões poderiam, efectivamente, ter causado algum dano físico (aliás, desconfio que causaram). No caso da agressão de Lucho, tendão de aquiles e assim, poderiam mesmo incapacitar o agredido a voltar a jogar futebol (o Derlei anunciou que arrumará as botas em breve, mas não vale a pena acelerar processos).

No entanto, mesmo quando temos por contraponto a propensão do Bruno Alves para a lesão traumática (do adversário), ou a malícia impotente de Rochemback, estamos no campo da brincadeira de crianças se devidamente tomado em conta o perigo imposto por Derlei, à humanidade em particular, sempre tenta disputar uma bola -- Derlei tenta sempre disputar uma bola. O facto é que o jogo esforçado de Derlei eleva invariavelmente a parada às proximidades da velha questão Shakespereana.

Insisto: não acho que Derlei seja um jogador maldoso, sem ironia reputo-o de empenhado no modo como se entrega à disputa de cada lance – por mirífica que seja a hipótese de o ganhar. Mais, acompanho a carreira Derlei há tempo suficiente para ter por evidente a forma como ele concilia (intimamente) a virilidade que imprime ao jogo com um desusado amor pelo próximo (pronto, agora exagerei). No fundo, custa-me isto de uma pessoa bondosa e bem intencionada ter o poder de causar mais desgraça do que qualquer Heathcliff arraçado de Paulinho Santos – com o poder de impulsão do Bruno Alves e a disponibilidade para a porrada do primeiro Fernando Couto –, apenas porque é muito generoso no modo como se entrega.

2- A relativa falta de altura do Porto em nada justifica a confrangedora inaptidão para o usufruto das bolas paradas (aquelas cujo destino, depois de postas a mexer, bem entendido, é serem disputadas de cabeça na área adversária).

A jogar em casa, muito do futuro do FCP na presente época passa pela eventual disponibilidade de Jesualdo Ferreira para dedicar umas horas ao PowerPoint. Anseio por uma apresentação intitulada "contribuições para o estudo do que fazer a cantos e a livres descaídos para a linha" (prescindir de os marcar é uma é uma opção que deve ser considerada), de tal modo, desejamos, que essas jogadas tradicionalmente ofensivas, se reconvertam em jogadas de perigo para a baliza adversária, abandonando o seu presente estatuto de sineta de aviso para o contra-ataque dos visitantes.