Aqueronte

Um rio de veículos e de gente corria entre nós; eram cinco horas de uma tarde qualquer; como iria eu saber que aquele rio era o triste Aqueronte, o insuperável.

"Delia Elana San Marco", Borges

el 'Increíble Hulk'


"La actuación del brasileño Hulk en el Vicente Calderón ha impactado al fútbol español. El jovencísimo (22 años), fortísimo y potente delantero del Oporto ha abierto un debate que pone en la diana a los directores deportivos al buscar una explicación de cómo puede el equipo portugués encontrar un diamante en bruto en la exótica y desconocida liga japonesa" El Confidencial.



Uma dica do caríssimo João Nogueira, via Twitter.

Courbet

Na hipótese mais verosímil, os queixosos terão denunciado o quadro de Courbet por beatice hipócrita. Numa hipótese mais rebuscada, a que estou prestes a sugerir, o real impacto de Courbet naquelas alminhas não teria a ver com um suposto cariz pornográfico da capa do livro, teria a ver, sim, com o modo como aquela vagina se distancia dos ícones pornográficos em que os queixosos se socializaram. Na iconografia pornográfica contemporânea, as vaginas aparecem sempre com os pêlos púbicos rapados e em franca actividade (não há tempo para bucolismos). Mais, a visão integral da vagina raramente se consuma conquanto ela surge quase sempre com um pénis embutido (pelo menos). No fundo, pelo seu poder de trivialização, a pornografia define a obscenidade como aquilo que lhe é exterior; é lícito pensar que o imaginário mediático da vagina, aquele que jaz embutido nos censores, tenha soado o alarme perante o estilo retro do "corte púbico" e perante a placidez da vagina em nu integral. Não estão habituados a essas coisas na net.

Mickey Rourke

Sean Penn não precisava deste Oscar, versátil e excelente como é -- provavelmente o melhor actor da sua geração --, não custa imaginar que até pudesse ter feito o papel principal em The Wrestler. Perderíamos, claro, a qualidade de mito que foi emprestada por Rourke, quer por aquele corpo amassado, corpo de um Rambo em pré-reforma, quer pelo modo como a sua própria decadência colonizou a personagem de Randy.

Que Mickey Rourke tivesse perdido contra todos os prognósticos, depois de um épico regresso, no único papel que alguma vez lhe poderia merecer o Oscar, é todo um enredo de hiper-realidade escusadamente tocante. É lamentável, mas, na glória de Penn, cumpriu-se ontem o momento mais memorável do has been Randy/Rourke.

Avulsos

«Porque o futebol, já o dizia o escritor brasileiro Paulo Coelho, é como um romance: "Assim como nos bons livros, o final é sempre inesperado".» Bruno Prata, Público
É oficial: a imprensa escrita padece.

Direitos legais e reconhecimento social

Resposta a este post do João Galamba:

"o direito não é um verdadeiro direito se não for acompanhado por formas de reconhecimento social"

João, inteiramente de acordo, mas sou tentado a reiterar, quase na íntegra, a frase em que me apontas uma contradição: "Quem teme a degenerescência da espécie pode ficar descansado que a fortíssima condenação social jamais permitiria que o facto [casamento incestuoso] se trivializasse." (quase porque o jamais é excessivo).

Ao defender o casamento incestuoso, uma ideia que cria fortíssima oposição social, quis confrontar, desde logo, previsíveis argumentos contra a minha posição, nomeadamente, o truque do alarme social ("isto vai ser um forrobodó e o fim do mundo como o conhecemos").

No demais, tens inteira razão no sentido formal. Mas creio que perdes razão na fuga pela qual te abstrais do peso das representações culturais vigentes. Ou seja, não te tirando razão formal na relação entre direitos e reconhecimento social, assinalo a tua posição abstracta, não imersa na realidade sociocultural, posição análoga àquelas de que acusavas os pós-modernos em post anterior.

Uma teórica sócio-legal, Linda Krieger, defende que são instituídas três tipos leis em relação ao ambiente cultural e sociopolítico que as recebe:
1- Leis normais: aqueles que reflectem os valores dominantes em determinado contexto social;
2- Leis transformadoras: aquelas que avançam direitos que ainda não têm um reconhecimento social amplo;
3- Leis capturadas: as leis que sendo transformadoras, na prática social e jurídica acabam por ficar reféns dos preconceitos disseminados e raramente conseguem cumprir a defesa dos direitos para que foram cridas.

Do mesmo modo, no modo como coloco a questão em relação ao casamento incestuoso, olho para a relação entre os direitos que advogo e o peso dos valores culturais históricos que se abatem sobre a questão. Assim, embora aceitando o jamais da minha frase como excessivo, mergulho nas circunstâncias da realidade social contemporânea para considerar que nenhuma lei conseguirá, per se, reverter (ou minimizar significativamente) o fortíssimo preconceito em relação ao casamento incestuoso, cenário contra o qual fantasmas culturais se juntam ao temor da degenerescência genética pela consanguinidade.

(O peso dos preconceitos em relação ao casamento incestuoso não é, de modo algum, comparávek aos do casamento entre pessoas do mesmo sexo, neste último caso acredito sinceramente que a transformação legislativa poderá contribuir dramaticamente para um crescente reconhecimento social de gays e lésbicas).

De notar ainda que incapacidade da lei para contribuir decisivamente para o reconhecimento social do casamento incestuoso, a meu ver, tem tanto a ver com o peso dos preconceitos sociais herdados, como com a improbabilidade de um movimento de matriz identitária na defesa legitimação social do incesto. – A relação entre transformação legislativa e movimento social é decisiva nas políticas de reconhecimento –.

Entendo, pois, que a transformação legal que permitisse o casamento incestuoso vingaria em conferir importantes conquistas legais para as formas de conjugalidade incestuosa (justiça legal), tenho dúvidas que conseguisse combater significativamente os preconceitos e contribuir para o reconhecimento social do incesto -- e muito menos incentivá-lo (João, não leias aqui nenhuma dicotomia espaço público espaço privado). Nalguma medida, imergindo no nosso quadro de valores, sem ingenuidade quanto à omnipotência cultural do legislativo, o meu gesto retórico (há uma indesmentível dimensão retórica na minha frase) é desminar o alarme social para defender a lei.

Casamento entre pessoas do mesmo sexo II

Duas réplicas ao post anterior fazem-me retornar ao local do crime. A resposta ao João Galamba não se conseguirá furtar a algum "linguajar pseudo/quasi-antropológico", a resposta ao Vasco Campilho será, como ele reclama, numa "linguagem acessível ao comum dos mortais". Não fico chateado com quem quiser saltar para o ponto 2.

1- A análise do João Galamba acrescenta à leitura das posições que eu tinha colocado do lado da ansiedade radical ["É a posição daqueles que entendem que a transformação social deve ser fundada numa desconstrução epistemológica sem distinção de causas identitárias, de movimentos sociais ou de exclusões crescentemente reconhecidas como candentes. Esta posição não faz qualquer concessão ao tacticismo político"] .

O João critica os "pseudo-revolucionários" para quem "a luta pela transformação da sociedade se torna num projecto estético-existencial, o conteúdo substantivo das diferentes causas é secundário; o que está sobretudo em causa é o permanente gesto formal de rejeição". Na leitura do João, o radicalismo genuíno, aquele que olha para a adopção e para o casamento poligâmico/incestuoso, não como fait divers, mas como aspiração mais ambiciosa, não deixa de ser conservador:

a) conservador nas suas consequências - a agenda do tudo ou nada inconcilia-se frequentemente com conquistas parciais ou locais: pelos anti-corpos que activa e pela fragmentação dos movimentos que lutam pela emancipação.

b) conservador pelo primado do formalismo - a rejeição de transformações pontuais ao privilegiar posições estético-epistemológicas que não fazem concessões ao tacticismo político, negligencia pessoas e vidas concretas cuja medida de felicidade não tem que ser instrumentalizada, nem adiada, pela arquitectura das grandes narrativas de transformação.

Aqui chegados devo dizer que concordo largamente com o João. No entanto, a acusação feita aos autores designados pós-modernos (Foucault e Judith Butler), enquanto representantes da linha pseudo-revolucionária de matriz estético-formal, parece-me algo gratuita.

Ao salientar que toda a proposta de transformação tende a alimentar-se e reproduzir a normatividade prévia, Foucault não redunda num cinismo em relação às conquistas parciais, funda, isso sim, um regime de vigilâncias críticas passíveis de levar as lutas transformadoras a questionar em que medida os seus avanços são os estritamente necessários para que tudo fique na mesma (a hegemonia/o regime disciplinar moderno concede o mínimo necessário para se perpetuar). A apologia engajada de Foucault com as micropolíticas prova da sua capacidade em fugir ao comprazimento estético-formal dos jogos de linguagem.

Já crítica a Judith Butler é mais justa para a presente discussão, porquanto ela tem assumido posições pouco entusiastas (to say the least) em relação à luta pelo casamento homossexual. Judith Butler entende que a luta pelo casamento é uma concessão à tutela do Estado sobre a sexualidade e uma concessão à hetero-normatividade (para ela no porvir não deveria haver género nem orientação sexual, só corpos e prazeres). Neste contexto, a citação que faço de Judith Butler, e que o João reproduz, tem um sentido irónico de voltar as palavras da autora contra a própria. Ou seja, nos termos em que a repesco, a citação é lida não na exigência de ligarmos as conquistas presentes a horizontes futuro; mas sim como forma de sublinhar que a ansiedade pelas grandes narrativas tem de saber olhar, sem cinismo teórico, para os imperativos de reconhecimento de pessoas e grupos socais concretos. A conciliação que procuro reside nisto: as micropolíticas nas conquistas do presente não podem redundar numa celebração ingénua, incapaz de perceber a exclusões que ainda levamos connosco (ou as novas exclusões que poderemos estar a criar).

2- O Vasco Campilho assinala a candura com que eu exponho o verdadeiro domínio da luta quando me julgo a coberto de um "regime de semi-clandestinidade". É verdade que fiz gala da minha irresponsabilidade para poder assumir as posições sem me preocupar demasiado com algum tacticismo, que às vezes entendo ser necessário em política. É verdade que o fiz um pouco por auto-ironia -- não resisto à estética depreciativa do eu, narcisismo imperdoável na discussão política. Mas também é verdade que estabeleço um contraponto mais sério entre capacidade de influência dos blogs, onde falamos uns para os outros, e a capacidade, por exemplo, de um programa como o P&Cs, onde a audiência e a identificação com uma causa exorbitam a responsabilidade de quem fala.

Respondo agora à tradução que o Vasco faz do meu post (basicamente eu proporia o casamento entre pessoas do mesmo sexo como um cavalinho de Tróia para a alijar o caminho para o casamento incestuoso/poligâmico e para a adopção por homossexuais -- estão a adivinhar as lágrimas e o ranger de dente que não será?).

Em primeiro lugar, vejo o casamento entre pessoas do mesmo sexo como algo importante em si. Porque iria acabar com uma discriminação de importantes repercussões legais na vivência da conjugalidade, e porque iria dignificar, social e simbolicamente, as relações entre pessoas do mesmo sexo, contribuindo, por isso, para o fim a discriminação vivida pelos gays em Portugal (gays que se suicidam pela incompreensão da família, gays que jamais se atrevem a sair do armário, gays que na vida social e profissional estão sujeitos às mais variadas formas de depreciação e marginalização).

Posto isto, cabe distinguir duas questões. a) a adopção por casais homossexuais; b) casamento incestuoso/poligâmico.

a) É óbvio que a possibilidade de adopção por casais homossexuais pode vir a beneficiar do caminho aberto pela legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Eu sinceramente hesito quando me coloco a questão: será que as agendas não deveriam ser reunidas, à semelhança do que aconteceu em Espanha? Mas tendo em conta que "a sociedade ainda não está preparada" e que o PS não é o PSOE, aceito o pragmatismo de quem entende que se devem separar as agendas até a "sociedade estar preparada" ou até o poder político ganhar coragem.

b) Repito: eu sou favorável a que dois irmãos se possam casar. Quem teme a degenerescência da espécie pode ficar descansado que a fortíssima condenação social jamais permitiria que o facto se trivializasse. Mas há situações em que duas pessoas que se amam há muito vêm a descobrir que são irmãos (Vasco, não vês novelas?): não serei eu a achar que não se podem casar. Também sou favorável ao casamento poligâmico salvaguardado o princípio constitucional de igualdade entre os sexos. Como Vasco Barreto bem frisou, estas questões pouca afinidade têm com casamento homossexual em termos de agenda política: porque não têm uma dimensão identitária (não o diria do casamento poligâmico, dada a questão religiosa) e porque não têm sido defendidas politicamente como dimensões importantes de exclusão na sociedade portuguesa. Assim sendo, reitero o que disse, o casamento incestuoso está a ser usado fundamentalmente: a) como fait divers criador de alarme social para impedir o casamento gay: b) como sinal de sofisticação intelectual, por quem quer mostrar que pertence à verdadeira vanguarda dos costumes.

Casamento entre pessoas do mesmo sexo

Sobre este post do Vasco Barreto:

Concordo com o Vasco quando ele diz que nenhum fundamento jurídico separa a discussão do casamento entre pessoas do mesmo sexo, de um lado, do casamento incestuoso e poligâmico, do outro (embora não seja indiferente ao sábio fundamento legal que Isabel Moreira apresentou no P&C). No entanto, para sabermos com quem discutimos, vale a pena identificar as duas linhas de ansiedade que têm trazido o casamento poligâmico e o casamento incestuoso à presente discussão.

1- A ansiedade conservadora. É posição daqueles que são contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas que, à falta de melhores argumentos, ou com receio de exporem o seu conservadorismo, avançam com um suposto radicalismo (tudo ou nada) que mais não pretende do que gerar anti-corpos em relação a qualquer extensão legal do casamento-sacramento.

2- A ansiedade genuinamente radical. É a posição daqueles que entendem que a transformação social deve ser fundada numa desconstrução epistemológica sem distinção de causas identitárias, de movimentos sociais ou de exclusões crescentemente reconhecidas como candentes. Esta posição não faz qualquer concessão ao tacticismo político.

O texto do Vasco Barreto dialoga inteligentemente com o segundo grupo (se o existe). No entanto, e aqui concordo com o Miguel Vale de Almeida, enfatizar a necessidade desta discussão enquanto incontornável pode fazer o jogo do primeiro grupo: o jogo dos conservadores camuflados de Judith Butlers indígenas. Fugir a outros debates, como explicitamente fez o Paulo Côrte-Ral nos Prós e Contras, evitando falar da adopção, pode ser uma evidência de temor (João Galamba), mas também pode ser um sinal de maturidade política e de sentido estratégico.

Eu, porque sou lido em regime de semi-clandestinidade, posso dizer tranquilamente que sou a favor do casamento entre irmãos. A quem está obrigado a outra visibilidade percebo perfeitamente que se cinja às discussões com pertinência social e identitária, que evite anti-corpos, ponderando, a cada passo, da viabilidade política da sua agenda. Nenhuma capitulação. Às vezes tudo é nada. Sem fatalismo, avançamos sempre criando outras exclusões.
Judith Butler: it is important to resist that theoretical gesture of pathos in which exclusions as simply affirmed as sad necessities of signification. The task is to refigure this necessary “outside” as a future horizon, one in which the violence of exclusion is perpetually in the process of being overcome."

Oscars


Ficaria muito triste se Mickey Rourke e kate Winslet não limpassem aquilo. Não é só pelas apostas, há aqui sentimentos envolvidos.

Teste

Referências bíblicas na literatura: aqui.


The Reader, 2008.

Tilda

"If we're going to have an affair, you're never to look at me during the day. And we're always to part before sunrise, and we will never say "I love you".


Tilda Swinton em The Curious Case of Benjamin Button.

Dia dos namorados

Percebo 4 modalidades de distância crítica em relação ao dia dos namorados:

1- A ideológica. É uma invenção capitalista, uma tradição inventada a que só se adere por cumplicidade com a pressão celebratória (e consumista) estabelecida sobre as relações ("é nestes dias que não namorar é uma coisa boa"; "mais valem as datas patrimoniais do casal do que o 14/02").

2- O frete. É uma data estúpida, mas não a comemorar de todo implica um statement demasiado arriscado.
a) Porque podia haver ressentimentos mais ou menos calados dentro da relação (sem a prendinha ou o jantarinho ela ia amuar, ele ia amuar);
b) Porque não há forma de ignorar a vigilância estabelecida sobre os sinais exteriores de romantismo ("o que é que eu ia dizer às minhas amigas?").

3- A inveja. O amor celebrado em todas as esquinas fere a solidão dos solitários que, assim, disfarçam a inveja de distância ideológica.

4- A coerência. Haveria a vontade para a celebração, mas "depois de anos sozinho a falar mal do dia dos namorados, seria ridículo, agora que namoro, fazer as figuras antes escarneci".

Anonimato

Amiga brasileira chama-me atenção para o sério fenómeno: "Mulheres que Amam demais Anônimas".

Charles Darwin

"When on board H.M.S. Beagle, as naturalist, I was much struck with certain facts in the distribution of the inhabitants of South America, and in the geological relations of the present to the past inhabitants of that continent. These facts seemed to me to throw some light on the origin of species — that mystery of mysteries, as it has been called by one of our greatest philosophers. On my return home, it occurred to me, in 1837, that something might perhaps be made out on this question by patiently accumulating and reflecting on all sorts of facts which could possibly have any bearing on it. After five years' work I allowed myself to speculate on the subject, and drew up some short notes; these I enlarged in 1844 into a sketch of the conclusions, which then seemed to me probable: from that period to the present day I have steadily pursued the same object." A Origem das Espécies, Introdução

Budapeste - Trailer oficial


A ver vamos.

A sombra de Mourinho

"Scolari devolve a alegria a Quaresma", The Guardian (7/02/2009)

Que melhor argumento anti-essencialista? Definitivamente o nomadismo não é para Quaresma.

Contratado à experiência

Twitter.

Stamford bridge

Estou de rastos, afinal enganei-me: Scolari durou até ao natal.

DiCaprio

A propósito do Revolutionary Road, dizia o grande João Lopes que Leonardo DiCaprio é "provavelmente o actor mais subtil da geração de 70". O elogio em si, ainda que provocatório, não choca inteiramente quem vem acompanhando o percurso de DiCaprio, mas tive duas convulsões ao tentar conciliar-me com a adjectivação. Dei por mim a pensar que, falando em subtil, o único adjectivo que jamais me ocorreria para definir DiCaprio, João Lopes quis fazer um duplo statment. Concedamos, Leonardo DiCaprio fez-se um excelente actor e é um óbvio caso de exponenciação cronológica da arte de representar. Mas aquela cara é todo um programa. Seja em The Aviator, Blood Diamond, The Departed ou Revolutionary Road, fico sempre com a sensação de que sigo um excelente actor que em nenhum momento consegue fazer-me esquecer que sigo um excelente actor. Todo ele é esforço de representação e vontade de escapar aos constrangimentos impostos pela sua corporalidade. Ou seja, DiCaprio é um óptimo actor que nunca consegue ser convincente -- e muito menos subtil. À excepção de Celebrity, aquela carinha laroca é inverosímil em todas as personagens que tem incoporado (até a do Titanic). O que tem feito de DiCaprio um actor notável é o seu esforço em vencer o marcado abismo entre a figura de efebo e as personagens que lhe têm calhado em sorte (escolhidas a dedo, na verdade). Isso não é necessariamente mau, confesso o prazer em ver DiCaprio usar o sobrolho para arreganhar densidade à face, o prazer em ver os trejeitos que usa para seniorizar a presença, o prazer de o ver pegar no cigarro para se masculinizar perante mulheres feitas. A arte de DiCaprio, e a fatalidade provisória da sua juvenília facial, é ser um meta-actor, um actor que expõe a magnitude da inverosimilhança a ser vencida pela qualidade da representação, um actor que nos tira do filme para nos manter atentos aos momentos de "suspensão da descrença", os raros momentos em que somos devolvidos ao filme. Nesse sentido, Revolutionary Road é um registo que convém a DiCaprio, um filme de actores onde o excesso da linguagem teatral é deixado a descoberto.
Depois queria falar da Kate Winslet para chegar ao Mickey Rourke, mas fico à espera que vocês vejam o Wrestler.

Versões de um mesmo mito

As lágrimas de Maradona, Roma, 1990.

As lágrimas de Federer, Melbourne, 2009.

Tudo o mais foram concursos de misses. A cultura do espectáculo mantém a média de um choro épico por década, Maradona abre os anos 90, Federer fecha os anos 2000.

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Blogoconto III

Não posta nada de jeito, mas tem cá um template...

Choupal

Não deixem destruir a mata da música, assinem aqui.

Espero que não restem dúvidas que eu sou uma pessoa que se preocupa.

Primeiro a despenalização, agora isto

Em 2004, com fausto e aparato militar, Paulo Portas, então Ministro de Estado, da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, impediu o Borndiep de entrar em águas territoriais portuguesas (12 milhas ou lá o que é).

As acções colocadas pelas organizações portuguesas que convidaram o barco contra a interdição l não tiveram qualquer provimento (I wonder...).

Nas instâncias europeias o entendimento foi outro. O tribunal europeu dos direitos humanos acaba de condenar o Estado português nestes termos:
"The Court held unanimously that there had been a violation of Article 10 (freedom of expression) of the European Convention on Human Rights"

Creio, no entanto, que Paulo Portas erra em ver esta decisão como uma derrota pessoal. Nem é ele que vai pagar a indeminização.

Imagem: António, Expresso

À parte isso

Continuo a gostar do Mantorras como se ele nunca tivesse saído do Alverca.