As fragilidades da democracia na imprensa desportiva portuguesa

"O voo, a sua elevação e a sua velocidade eram não apenas necessários, como inteiramente insuficientes: é que não é só isto que vem confirma o carácter hiper-incaracterístico da defesa, mas também o facto de o contacto com a bola ter ocorrido com a fragilidade da democracia mais perto da trave, e não, como é usual e mais "técnico", com a que está mais perto da relva (que, por razões biodinâmicas, é a que chega sempre mais além), o que me a considerar, mesmo sabendo que ponho em risco a vida de familias inteiras, esta defesa uma das melhores defesas de sempre."
O maradona oferece-nos este texto onde, entre outras coisas, se atreve a insinuar que a defesa de Fernando Musrela a remate de Flamini seria a melhor do ano (1:50 deste vídeo). Antes de percebermos que o maradona não tem razão, somos obrigados a uma visão catastrofista sobre o país que estamos a construir para as gerações vindouras. Infelizmente há poucas pessoas que falem de futebol relacionando, com tanta pertinência, a vulnerabilidade da democracia com a sociedade do espectáculo -- escusado será sublinhar que a "defesa para a fotografia", com o frugal sonho de posteridade que carrega, está para a seriedade de um guarda-redes como o populismo e a propaganda estão para os governos ocidentais contemporâneos.

Tanto assim que não será inteiramente abusivo afirmar que os voos do Marco Tábuas o terão descredibilizado perante uma opinião pública capaz de perceber o coeficiente de espectacularidade necessário para a obstar a que determinada bola entre na baliza. Com isto não quero negligenciar a existência de voos que, não sendo estritamente necessários para a defesa da bola, contribuem para o bem-estar físico do guarda-redes: muitas vezes notamos que o guarda-redes empreende um voo para evitar bater com a cara no poste, ou apenas pela inércia criada no movimento ao encontro da bola, mas também por uma questão de elegância: aterrar de joelhos na lama pode não implicar uma lesão imediata mas poderá causar uma sensação de baixa auto-estima cuja sintomatologia psico-somática nos permitiria falar num mal-estar físico indirectamente causado por uma defesa particularmente deselegante. (Não, não vou comentar o facto de o Jesualdo ter jogado com o Helton lesionado, estaleiro 3 semanas, dando-lhe cabo da convocatória para o Brasil ao mesmo tempo que menorizou o Beto ao nível de um Wosniak). (eu ponho o ponto final sempre a seguir ao parênteses mas parece que há aí pessoas que.)

Pois bem, em vez da displicência com que o maradona insinua coisas importantíssimas, os jornais desportivos da praça são compostos por gente muito empenhada em contribuir com inanidades para o enchimento diário dos chouriços em apreço. Em vez de um blog abençoado que, sem arquivo, lá nos vai servindo pérolas que sabemos não merecer, teríamos a 5ª edição do livro de crónicas desportivas do maradona há muito esgotada. Mas enfim, eles é que sabem e é capaz de haver quem prefira os analistas bem documentados explicando que passaram 883 minutos desde o último lançamento lateral falhado pelo Maxi Pereira ou o pujante mercado de opinião dos adeptos notáveis que, dispensados de perceber de futebol, vazam as paixões e os estados de alma com a mesma sofisticação com que o maradona vaza latas de sagres.

Entretanto, numa óbvia paródia à incapacidade das editores nacionais no reconhecimento de golpes de asa nas vizinhanças, maradona finge-se encadeado com a espectacularidade insuficiente de um guarda-redes já referenciado pelo Benfica, tentando convencer-nos que a defesa do Musrela é menos impreterivelmente espectacular que a do Peiser ao remate de Di Maria (aos 50 segundos do vídeo ali em baixo), como se aquele desvio bem para a tutano do poste não fosse a coisa mais magistral produzida este ano no Estádio da Luz. maradona e Peiser, dois doadores de momentos proféticos insuficientemente agraciados nas respectivas localidades.


P.S. Como é óbvio escuso-me a comentar o facto de as duas defesas em contenda estarem ao segundo 50 dos respectivos vídeos.

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