Não amarás




Não amarás (aka A short film about love). Krzysztof Kieslowski, 1988.

Tomek confessa que, entre outras coisas, espia Magda da janela e lê a sua correspondência há cerca de um ano. Na confissão do adolescente à vizinha inacessível há culpa, mas há também um manifesto orgulho ou, melhor diríamos, há um fervor místico que Tomek exibe como que esperando inteirar Magda dos tantos excessos de que foi capaz; espera convencê-la, talvez, de que nenhuma intrusão é infundada ou separável da grande narrativa do seu sentimento: no cumular dos desvarios Tomek procura persuadir Magda de que tudo aconteceu na justa medida de um amor desesperado. E, na verdade, a estranha condescendência com que Magda acolhe as perseguições de Tomek nada deve à generosidade ("não sou uma pessoa boa"), ao dó ou sequer à reciprocidade de sentimentos. Deve sim, primeiro, ao gosto narcísico de se sentir amada de forma tão dedicada e, depois, quero deduzir, à incompetência desse narcisismo para a defender da empatia. A empatia acontece porque o desespero de Tomek evoca em Magda um passado em que a própria se revê entregue a análogas "faltas de compostura". Os amantes capazes de desespero constituem uma vasta diáspora, nenhum "assimilado" está livre de ser recordado de onde veio e pelo que passou.



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