Primeira Jornada

Paulo Bento ensaiou uma alteração táctica de molde a converter o losango (4-4-2) num 4-2-3-1. Eu acho muito injusto que se critique Paulo Bento pelo losango e que depois se critique Paulo Bento de cada vez que tenta fugir do losango. No entanto, devemos tentar. Há que reconhecer que, enquanto artífice do losango, Paulo Bento tem sido mister de uma conservadorismo competente: a resoluta inamobilidade do seu losango é o mais significativo legado de Paulo Bento às gerações futuras.

Mas enquanto alguém que aparece com outro sistema táctico, como fez sábado, Paulo Bento finge desconhecer em que medida o losango calcinou outros modos de vida. No fundo Paulo Bento pretende ignorar tudo aquilo que foi preciso destruir para manter um losango capaz de garantir segundos lugares. Na especialização dos jogadores, na constituição do plantel, no exemplo dado à academia, no secreto desejo de um jogo sem extremos, nenhum lirismo lhe resiste. Falta de matéria-prima?: Nani foi obrigado a jogar a médio interior esquerdo ao serviço de Paulo Bento. Pedir-lhe sorrisos era manifestamente um abuso. Se Ronaldo tivesse sido treinado por Paulo Bento em vez de Boloni não é improvável que hoje jogasse a defesa esquerdo.

Tomemos o exemplo de João João Moutinho. Como sabemos, João Moutinho fez toda a sua formação sénior a jogar no losango de Paulo Bento. Foi ver o mar nuns jogos do europeu ao serviço do 4-3-3 da selecção, mas cedo haveria de regressar aos rigores do polígono. Leu a obra de Alexander Soljenítsin e ganhou coragem: tentou sair para o Everton. Alegou ruína económica, conflitos familiares e uma despensa vazia para esconder a vergonha de ser o único jogador do mundo que sabe jogar em todas as posições do losango de Paulo Bento. Terá sido a sua última oportunidade de voltar a jogar futebol. Nascido em 1986, Moutinho é uma pessoa envelhecida que depende do losango para atravessar a rua.

Veloso, Djaló e Rochemback são os únicos com hipóteses de sobreviverem a Paulo Bento. Veloso e Djaló porque têm nas birras e no vedetismo uma importante reserva moral: nunca se empenharam o suficiente para poderem sequer acreditar na existência do losango. Já o Rochemback joga lá aquela coisa dele e nunca deixa que o chateiem com conceitos que possam trazer cansaço.

Pois bem, se num belo dia o Paulo Bento muda a táctica e pede a pessoas longamente alienadas da modalidade para jogarem futebol é natural que os críticos do losango lhe reclamem o regresso. Se era para jogar futebol não se percebe a renovação com Paulo Bento.



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