Pergunta

Como é que é possível que, sendo eu tão musical (calma, não é nada disso), tão pronto a encostar-me à sonoridade daquelas frases que ficam (calma, não é bem plágio), tão vulnerável a trocadilhos (calma, eu até resisto, mal imaginam as doses de trocadilhos parvos que eu contenho durante uma conversa ligeira), tão boa pessoa (pronto, agora é plágio abusivo), tão decididamente monótono (a frase é de Borges, o que, convenhamos, dá um gosto presunçoso à noção de monotonia), tão solidamente fundado numa impetuosidade juvenil (Woody Allen: boyish impetuosity, para o mal e para o mal), tão completamente formatado pelo livro da véspera (não citar Susana Tamaro é apenas uma questão preventiva), tão completamente inscrito nas minudências da carne (ainda não lanchei, é só), tão necessitado de brincar com conceitos (eles raramente se dão à maçada), tão justamente depreciativo (parece que lamentar pelas nossas human frailties agora também é narcisismo), dizia, como é que é possível que com todo este acervo de motivos precipitantes eu não tenha dado ao post anterior o título de "A Europa das Esplanadas". Mais, como é possível que eu tenho escrito aquela merda sem sequer me lembrar que existia uma corruptela de George Steiner perfeitamente disponível, corruptela essa que, apesar de reles, seria a única coisinha que remotamente poderia ter gerado aquele enxame desanxabido de caracteres? Poramordedeus.

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