Fermosa e mal empregada

Menina, nao sei dizer.
Vendo-vos tão acabada*,
Quão triste estou por vos ver
Fermosa e mal empregada.

Quem tão mal vos empregou,
Pouco de mim se doía,
Pois não viu o quanto me ia
Em tirar-me o que tirou.
Obriga o primor que tem
Lindeza tão extremada
Que digam quantos-a vêem:
— Fermosa, e mal empregada!

Tomastes da fermosura
Quanto dela desejastes,
E com ela me guardastes
Pera tão triste ventura.
Matáveis sendo solteira,
Matais agora em casada;
Matais de toda a maneira,
Fermosa, e mal empregada.
Dá gosto de ver a sinceridade com que Camões fala da sua dor de corno. Mas na ironia por que o texto nos faz passear fica a retorcida persusão de que nem a dor de corno lhe pertence; concedendo que para determinada sensibilidade masculina qualquer mulher fermosa comprometida é mal empregada, Camões limita-se a constatar da impotência ontológica de um esteta sobre o mundo que não pode possuir. No limite, o marido da senhora sofre do mesmo mal, nenhuma beleza se detém de facto e o corpo outro é sempre o corpo de um Outro. Eis, pois, a fineza da ambivalência naquele "Vendo-vos tão acabada" que a minha edição da Lírica se apressa explicar: "acabada: o mesmo que perfeita, extremada em beleza, como adiante se diz."



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