Simplex

Com eleições a 27 de Setembro, seria de supor que a blogosfera veraneasse em águas mais agitadas do que o costume. A criação do Simplex, blog de apoio ao PS, é, até à data, a mais séria confirmação dessa expectativa. Entendo que a construção da opinião a partir de uma declaração de voto constitui um sério ganho para a transparência do debate. No entanto, por outro lado, traz-me uma reserva que temo não conseguir explicar devidamente. Tentarei.

Ao mesmo tempo que a declaração pública de apoio a um Partido recusa o tacticismo de uma opinião que se escusa a dizer claramente ao que vai, cria uma atmosfera intersubjectiva de arregimentação que pode ter como um dos seus efeitos a elisão de um distanciamento crítico, aquele mesmo que, no pesar de prós e contras, no ponderar dos diversos temas da vida pública, foi prévio à cristalização de uma decisão em relação ao voto. A consequência deste facto é uma recepção previsível dos dados do debate político de tal modo que as críticas às posições do partido apoiado dificilmente serão mais do que ténues concessões retóricas. Esta questão é tão mais premente uma vez que numas eleições legislativas não se sufraga uma questão ou uma causa específica, mas uma míriade de questões conforme expostas nos programas de governo.

Por seu lado, a construção de uma opinião que evita colar-se decisivamente a uma decisão prévia de voto também tem implicações ambíguas. Pode constituir uma forma menos transparente de entrar no debate se essa omissão, qual agenda escondida, der lugar a proselitismo instaurado a partir de uma simulacro de distanciamento crítico: a cada tomada de posição configura-se uma relativa imprevisibilidade que se poderá traduzir na adesão empática de um espectro mais alargado de sensibilidades políticas (relativa imprevisibilidade porque facilmente se percebem as águas políticas em que cada navega). Mas a produção de opinião apartada da declaração de apoio a um partido também pode constituir algo de positivo no debate, quer como reflexo de uma sincera reserva no apoio a um partido, quer como reflexo de uma atitude de continuado culto da dúvida que metodicamente assume prioridade sobre o indício das próprias certezas. Por muito rebuscadamente que esta posição posssa ensaiar uma ética subjectiva de dúvida, ela pode responder a um esperar para ver em que o sujeito comprometido se adia (venha a campanha, venham os programas dos partidos, venham as sondagens), mas também pode responder à exigência de uma postura que se quer mais genuinamente crítica: 1) como cultivar de uma convicção opinativa heterodoxa, em que o texto subjectivo e o público se informam recursivamente; 2) Como expressão de uma lealdade política baseada na hermenêutica da suspeita, aquela que só entrega a idiossincrasia da sua visão da política ao programa de um partido, se tanto, no recato da urna.



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